segunda-feira, 14 de março de 2011

O Despertar dos Mágicos (30). Sou um moscardo que perturba o cérebro do conhecimento para o impedir de dormir.


A senhora Fort não sente o menor interesse por tudo isso.
Ele não fala dos seus trabalhos, a não ser a raros amigos maravilhados. Não mostra empenho em vê-los.

Louis Pauwels e Jacques Bergier. DIFEL

Escreve-lhes de tempos a tempos. Tenho a sensação de me dedicar a um novo vício recomendado aos amadores de pecados inéditos. Ao princípio, alguns dos meus raciocínios eram tão pavorosos ou tão ridículos que as pessoas os detestavam ou desprezavam ao lê-los. Agora, tudo está melhor: há um pouco de lugar para a piedade.
A sua vista começa a estar cansada. Vai ficar cego. Pára e medita várias vezes, alimentando-se apenas de pão escuro e queijo. Depois de ter repousado os olhos, resolve expor a sua visão pessoal do Universo, antidogmática, e de excitar a compreensão dos outros com grandes golpes de humor. Por vezes, eu próprio me surpreendia a não pensar aquilo em que preferia acreditar. À medida que progredira no estudo das diversas ciências, progredira na descoberta das suas insuficiências. É preciso demoli-las pela base: é o espírito que não está certo. É necessário recomeçar tudo, voltando a introduzir os fatos excluídos a respeito dos quais reuniu uma documentação ciclópica. Antes de mais reintroduzi-los. Em seguida explicá-los, se possível. Creio que não faço do absurdo um ídolo. Creio que nas primeiras tentativas não é possível averiguar o que mais tarde será aceitável. Se um dos pioneiros da zoologia (que está por fazer) ouvisse falar de pássaros que crescem sobre as árvores, deveria assinalar que ouviu falar de pássaros que crescem sobre as árvores. E em seguida deveria, mas só nessa altura, verificar escrupulosamente e selecionar esses dados.
Assinalemos, assinalemos, e um dia acabaremos por descobrir que qualquer coisa nos faz sinal.
São as próprias estruturas do conhecimento que devem ser revistas. Charles Hoy Fort sente palpitar em si próprio numerosas teorias que têm todas as asas do anjo do bizarro. Vê a Ciência como um automóvel muito civilizado lançado sobre uma auto¬estrada. Mas de cada lado dessa maravilhosa pista, toda ela betume e néon, estende-se um país selvagem, cheio de prodígios e de mistérios. Stop. Examinai esse país também em largura! Extraviai-vos! Ziguezagueai! É portanto necessário fazer grandes gestos desordenados, grotescos até, como os que se fazem para tentar fazer com que um automóvel pare. Pouco importa que sejamos um pouco ridículos: é urgente. Charles Hoy Fort, eremita de Bronx, deseja realizar o mais rápida e ruidosamente possível um certo número de macaquices absolutamente necessárias Persuadido da importância da sua missão e liberto da sua documentação, resolve reunir em trezentas páginas os seus melhores explosivos. Queimem-me o tronco de um pinheiro, folheiem-me as páginas de falésias de calcário, multipliquem-me por mil e substituam a minha imodéstia fútil por uma megalomania de Titã, e só então talvez me seja possível escrever com a amplidão que o meu trabalho reclama.
Compõe a sua primeira obra, O Livro dos Danados, onde, segundo diz, são apresentadas um certo número de experiências em matéria de estrutura do conhecimento. Este trabalho apareceu em Nova Iorque em 1919. Produziu uma verdadeira revolução nos meios intelectuais. Antes das primeiras manifestações do dadaísmo e do surrealismo, Charles Fort introduzia na Ciência aquilo que Tzara, Breton e os seus discípulos viriam a introduzir nas artes e na literatura: a terminante recusa de entrar num jogo em que todos fazem batota, a colérica afirmação de que há mais qualquer coisa. Um enorme esforço, não talvez para entender o real na sua totalidade, mas para impedir que o real seja entendido de uma forma falsamente coerente. Uma ruptura essencial. Sou um moscardo que perturba o cérebro do conhecimento para o impedir de dormir.
O Livro dos Danados? Um Ramo de Ouro para os chalados, declarou John Winterich. Uma das monstruosidades da literatura, escreveu Edmund Pearson. Para Ben Hecht, Charles Fort é o apóstolo da exceção e o sacerdote mistificador do improvável. Martin Gardner, no entanto, reconhece que os seus sarcasmos estão de acordo com as críticas mais válidas de Einstein e de Russel. John Campbell afirma que há nesta obra os gérmenes de, pelo menos, seis novas ciências. Ler Charles Fort é cavalgar sobre um cometa, confessa Maynard Shiplev, e Theodore Dreiser vê nele a maior figura literária depois de Edgar Poe. Só em 1955 é que O Livro dos Danados é publicado em França por minha iniciativa, que sem dúvida não foi suficientemente diligente. A despeito de uma excelente tradução e apresentação de Robert Benayoun, e de uma mensagem de Tiffany Thayer, que é presidente nos Estados Unidos da Sociedade dos Amigos de Charles Fort 2, esta obra extraordinária passou quase despercebida. Eu e Bergier consolamo-nos dessa desdita.
As qualidades de Charles Fort seduziram um grupo de escritores americanos que decidiram prosseguir, em honra dele, o ataque aos grandes sacerdotes do novo deus: a Ciência, bem como a todas as formas de dogmas. Neste intuito foi fundada a Sociedade Charles Fort, a 26 de Janeiro de 1931.
Entre os seus fundadores estavam Theodore Dreiser, Booth Tarkington, Ben Hecht, Harry Leon Wilson, John Cowper Powys, Alexander Woolcott, Burton Rascoe, Aaron Sussman e o secretário, autor destas linhas, Tiffany Thayer.
Charles Fort morreu em 1932, nas vésperas da publicação da sua quarta obra Talentos Selvagens. As inúmeras notas que recolhera nas bibliotecas de todo o Mundo, graças a uma correspondência internacional, foram legadas à Sociedade Charles Fort: hoje constituem o núcleo dos arquivos desta sociedade que vão crescendo de dia para dia devido à contribuição dos membros de quarenta e nove países, além dos Estados Unidos, Alasca e as ilhas Hawai.
A sociedade publica uma revista trimestral, Doubt (A Dúvida) . Esta revista é também como que um refúgio para todos os fatos malditos, quer dizer, os que a ciência ortodoxa não pode ou não quer admitir: por exemplo, os discos voadores. De fato, as informações e estatísticas que a sociedade possui sobre o assunto constituem o conjunto mais antigo, mais vasto e mais completo que existe atualmente.
A revista Doubt também publica as notas de Fort, de um dos nossos mais queridos mestres imaginando-o a gozar, do fundo do supermar dos Sargaços celestes, onde sem dúvida reside, este clamor do silêncio que do país de Descartes sobe até ele.
O nosso ex-embalsamador de borboletas odiava o estabelecido, o classificado, o definido. A ciência isola os fenômenos e as coisas para os observar. O grande pensamento de Charles Fort é que nada é isolável. Toda a coisa isolada deixa de existir. Uma borboleta sulca um goivo: é uma borboleta mais o suco de goivo; é um goivo menos um apetite de borboleta. Toda a definição de uma coisa em si é um
atentado contra a realidade. Entre as tribos consideradas selvagens, os pobres de espírito são rodeados de respeitosas atenções. Reconhecem geralmente a definição de uma coisa em termos próprios como um sinal de fraqueza de espírito. Todos os sábios iniciam os seus trabalhos por este gênero de definição, e entre as nossas tribos os sábios são rodeados de respeitosas atenções.
Eis Charles Hoy Fort, amador do insólito, escriba dos milagres, empenhado numa formidável reflexão sobre a reflexão. Pois é à estrutura mental do homem civilizado que ele se agarra. Já não concorda com o motor a dois tempos que alimenta o raciocínio moderno. Dois tempos: o sim e o não, o positivo e o negativo. O conhecimento e a inteligência modernas assentam sobre este funcionamento binário: exato, falso, aberto, fechado, vivo, morto, líquido, sólido, etc. O que Fort reclama contra Descartes é uma concepção do geral a partir da qual o particular poderia ser definido nas suas relações com ele, e cada coisa reconhecida como intermediária de outra. O que ele reclama é uma nova estrutura mental, capaz de reconhecer como reais os estados intermediários entre o sim e o não, o positivo e o negativo. Quer dizer, um raciocínio superior ao binário. De certa maneira, um terceiro olho da inteligência. Para exprimir a visão deste terceiro olho, a linguagem, que é um produto do binário (uma conjura, uma limitação organizada), não é suficiente. Portanto Fort precisa de utilizar adjetivos com duplo sentido nos epítetos bicéfalos real-irreal, imaterial-material, solúvel-insolúvel. Um dos nossos amigos, num dia em que Bergier e eu almoçamos com ele, inventara com a maior minúcia um grave professor austríaco, filho do dono de um hotel de Madeburgo chamado Dos Dois Hemisférios, com o apelido de Kreyssler. Herr professor Kreyssler, de quem nos falou demoradamente, dedicara uma obra gigantesca à refundição da linguagem ocidental.
O nosso amigo ambicionava publicar numa revista séria um estudo sobre o verbalismo de Kreyssler, o que teria sido uma mistificação muito útil. Portanto, Kreyssler tentara pôr em liberdade as estruturas da linguagem, a fim de que esta se enriquecesse finalmente com os estados intermédios desprezados pela nossa atual estrutura mental. Tomemos um exemplo. O atraso e o avanço. Como poderia eu definir o atraso sobre o avanço que desejava tomar? Não há palavra para isso. Kreyssler propunha atraso. E o avanço sobre o atraso que tinha. O atraso. Não se trata aqui senão de caracteres intermediários do tempo. Penetremos nos estados psicológicos. O amor e o ódio. Se amo covardemente, amando-me a mim próprio através do outro, desta forma encaminhando-me para o ódio, tratar-se-á de amor? É apenas amódio. Se odeio o meu inimigo, sem no entanto perder o fio da unidade de todos os seres, cumprindo o meu dever de inimigo mas conciliando ódio e amor, não se trata de ódio, mas de ódimor. Passemos aos caracteres intermédios fundamentais. O que é morrer e o que é viver? Tantos estados intermédios que recusamos ver! Há viver, que não é viver, que é apenas evitar a morte. Há viver realmente, a despeito de ser obrigado a morrer, que é viver. Observai por fim os estados de consciência. Como a nossa consciência oscila entre dormir e velar! Quantas vezes a minha consciência não faz senão dormir: acreditar que vela quando se deixa dormir! Queira Deus que, sabendo-se tão pronta a adormecer, ela tente velar, e é então dorlar.

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