quinta-feira, 10 de março de 2011

O Despertar dos Mágicos (29). No dia 2 de Novembro de 1819, chuva vermelha sobre Blan Kenberghe,


É no entanto o que, há milênios, os alquimistas afirmam.
Ora a nossa ignorância sobre a natureza das forças nucleares obriga-nos a não falar de impossibilidades radicais.

Louis Pauwels e Jacques Bergier. DIFEL

Se a transmutação alquímica existe, é porque o núcleo tem propriedades que desconhecemos. A importância do que está em jogo justificaria um estudo verdadeiramente sério da literatura alquímica. Se esse estudo não conduz à observação de fatos irrefutáveis, há pelo menos algumas probabilidades de que venham a surgir novas idéias. E são as idéias que mais faltam no atual estado da física nuclear, submetida ao anseio de poder e esmagada pela enormidade do material.
Começam a entrever-se estruturas infinitamente complicadas no interior do próton e do nêutron, e verifica-se que as leis ditas fundamentais, como, por exemplo, o princípio de paridade, não se aplicam ao núcleo. Já se fala numa antimatéria, da coexistência possível de vários universos dentro do nosso universo visível, de forma que tudo é possível no futuro, e especialmente a desforra da alquimia. Seria belo, e estaria de acordo com a nobreza da linguagem alquímica, que a nossa salvação se conseguisse por intermédio da filosofia espagírica. Há tempo para tudo, e há mesmo um tempo para que os tempos se tornem a encontrar.
AS CIVILIZAÇÕES DESAPARECIDAS
Onde os autores descrevem o extravagante e maravilhoso Senhor Fort. -O incêndio do sanatório das coincidências exageradas. - O Senhor Fort vítima do conhecimento universal. - Quarenta mil notas sobre as tempestades de pervincas, as chuvas de rãs e os aguaceiros de sangue. O Livro dos Danados. - Um certo professor Kreyssler. - Elogio e ilustração do intermediarismo. - O eremita do Bronx ou o Rabelais cósmico. -Onde os autores visitam a catedral de Santo-Algures. - Bom apetite, senhor Fort.
Em Nova Iorque, no ano de 1910, num pequeno apartamento burguês do Bronx, habitava um homenzinho de idade indefinida, que parecia uma foca tímida. Chamava¬se Charles Hoy Fort.
Tinha umas manápulas redondas e gordas, barriga e rins avantajados, o pescoço muito curto, a cabeça enorme, de cabeleira rala, um largo nariz asiático, óculos com aros de metal e um bigode à Gurdjieff. Dir-se-ia também um professor monchevíque. Nunca saía, exceto para se dirigir à Biblioteca Municipal, onde examinava uma quantidade de jornais, revistas e anais de todos os Estados e de todas as épocas. Em redor da sua velha secretária amontoavam-se caixas de sapatos vazias e pilhas de periódicos: o American Almanach de 1833, o London times dos anos 1880-93, o Annual Record of Science, vinte anos de Philosophical Magazine, Les Annales de la Société Entomologique de France, a Monthly Theather Review, o Observatory, o Meteorological Journal, etc. Ele usava uma viseira verde, e, quando a mulher acendia o fogão para o almoço, ia à cozinha ver se não havia perigo de que ela incendiasse a casa. Era apenas isso que aborrecia a senhora Fort, em solteira Anna Filan, que ele escolhera devido à sua total ausência de curiosidade intelectual, de quem gostava muito e que por sua vez o amava com ternura.
Até à idade de trinta e quatro anos, Charles Fort, filho de uns merceeiros de Albany, vegetara graças a um medíocre talento de jornalista e a uma certa habilidade no embalsamamento de borboletas. Mortos os pais e vendida a mercearia, arranjara uns minúsculos rendimentos que finalmente lhe permitiam dedicar-se em exclusivo à sua paixão: acumular notas sobre acontecimentos extraordinários e no entanto reconhecidos.
No dia 2 de Novembro de 1819, chuva vermelha sobre Blan Kenberghe, no dia 14 de Novembro de 1902, chuva de lama na Tasmânia. Flocos de neve do tamanho de pratos em Nashville, a 24 de Janeiro de 1891. Chuva de rãs em Birmingham a 30 de Junho de 1892. Aerólitos. Bolas de fogo. Pegadas de um animal ; fabuloso no Devonshire. Discos voadores. Marcas de ventosas sobre as montanhas. Engenhos no céu. Caprichos de cometas. Desaparecimentos estranhos. Cataclismos inexplicáveis. Inscrições sobre meteoritos. Neve preta. Luas azuis. Sóis verdes. Aguaceiros de sangue.
E assim reuniu vinte e cinco mil notas, que arrumou em caixas de cartão. Fatos que, assim que eram mencionados, imediatamente caíam no esquecimento. Contudo, eram fatos. Ele chamava a isso o seu sanatório das coincidências exageradas. Fatos sobre os quais as pessoas se recusavam a falar. Parecia -lhe que saía dos seus arquivos um verdadeiro clamor de silêncio. Começara a sentir uma espécie de ternura por essas realidades incongruentes, expulsas do domínio do conhecimento, às quais ele dava asilo no seu pobre escritório de Bronx e que acariciava ao arrumá-las. Pequenas prostitutas, anões, corcundas, bobo e no entanto o seu desfile em minha casa terá a impressionante solidez das coisas que passam, e tornam a passar, e não cessam de passar.
Quando se sentia cansado de reunir os fatos que a Ciência entendeu que devia pôr de parte (Um icebergue voador cai em pedaços sobre Ruão no dia 5 de Julho de 1853. Carcaças de viajantes celestes. Seres alados a uma altitude de 8000 metros sobre Palermo, a 30 de Novembro de 1880. Rodas luminosas no mar. Chuvas de enxofre, de carne. Restos de gigantes na Escócia. Caixões de pequenos seres vindos de algures, sobre os rochedos de Edimburgo...), quando se sentia fatigado, repousava o espírito jogando sozinho intermináveis partidas de superxadrez, sobre um tabuleiro da sua invenção, que era composto por 1600 casas.
Depois, um dia, Charles Hoy Fort apercebeu-se de que aquele formidável trabalho não servia para nada. Era inutilizável. Duvidoso. Uma simples ocupação de maníaco. Compreendeu que só ficara no limiar daquilo que procurava, e que não fizera nada daquilo que realmente tinha a fazer. Não era uma investigação, apenas a sua caricatura. E ele, que tanto receava os incêndios, lançou fogo às caixas e às fichas.
Acabava de descobrir a sua verdadeira natureza. Aquele fanático das realidades singulares era um fanático das idéias gerais. O que começara ele inconscientemente a fazer, durante esses anos mais ou menos perdidos? Encolhido no fundo da sua gruta de borboletas e papéis velhos, na verdade trabalhara contra uma das grandes potências do século: a certeza que os homens civilizados têm de saber tudo a respeito do Universo em que vivem. Porque se escondera, como que envergonhado, Charles Hoy Fort? É que a menor alusão ao fato de que possam existir no Universo domínios imensos de Desconhecido perturba desagradavelmente os homens. No fim de contas, Charles Hoy Fort conduzira-se como um erotomaníaco: conservemos secretos os nossos vícios, a fim de que a sociedade se não enfureça ao saber que deixou por explorar a maior parte dos terrenos da sexualidade. Tratava-se, agora, de passar da mania à profecia, do gozo solitário à declaração de princípio. De futuro, tratava-se de fazer uma obra autêntica, quer dizer, revolucionária.
O conhecimento científico não é objetivo. Assim como a civilização, é uma conspiração. Repudiam-se uma quantidade de fatos porque eles alteram os raciocínios correntes. Vivemos sob um regime de inquisição em que a arma mais frequentemente utilizada contra a realidade discordante é o desdém acompanhado de risos. O que é o conhecimento em tais condições? Na topografia da inteligência, diz Fort, poder-se-ia definir o conhecimento como a ignorância envolvida em risos. Será por tanto necessário reclamar um acréscimo às liberdades que a Constituição garante: a liberdade de duvidar da ciência. Duvidar da evolução (e se a obra de Darwin fosse pura ficção?), da rotação da Terra, da existência de uma velocidade da luz, da gravitação, etc. De tudo, exceto dos fatos. Dos fatos não selecionados, tais como se apresentam, nobres ou não, bastardos ou puros com o seu séqüito de estranhezas e as suas concomitâncias incongruentes. Não excluir nada do real: uma ciência futura descobrirá relações desconhecidas entre os fatos que nos parecem sem qualquer afinidade entre si. A ciência precisa de ser sacudida por um espírito ávido, embora crédulo, novo, selvagem.
O mundo precisa de uma enciclopédia dos fatos excluídos, das realidades condenadas. Receio bem que seja necessário apresentar à nossa civilização novos mundos em que as rãs brancas terão o direito de viver.
Em oito anos, a foca tímida de Bronx julgou-se na obrigação de aprender todas as artes e todas as ciências - e de inventar cerca de meia dúzia para uso próprio. Possuído pelo delírio enciclopédico, empenha-se nessa tarefa gigantesca que consiste não tanto em aprender como em tomar consciência da totalidade dos seres vivos. Espantava-me que alguém se sentisse satisfeito por ser apenas romancista, alfaiate, industrial ou varredor de ruas. Princípios, fórmulas, leis, fenômenos foram digeridos na Biblioteca Municipal de Nova Iorque, no Museu Britânico e também graças a uma enorme correspondência com as maiores bibliotecas e livrarias do Mundo. Quarenta mil notas, divididas em trezentas secções, escritas a lápis sobre minúsculos cartões, numa linguagem estenográfica da sua invenção. Sobre este louco empreendimento brilha o dom de considerar todos os assuntos sob o ponto de vista de uma inteligência superior que só agora soube da existência deles: a astronomia.
Um guarda noturno vigia meia dúzia de lanternas vermelhas numa rua interceptada. Há bicos de gás, lampadários e janelas iluminadas no bairro. Riscam-se fósforos, acendem-se fogos, declarou-se um incêndio, há sinais de néon e faróis de automóveis. Mas o guarda noturno cinge-se ao seu acanhado sistema. . .
Ao mesmo tempo retoma as suas pesquisas sobre os fatos rejeitados, mas sistematicamente, e esforçando-se por verificar cautelosamente cada um deles. Submete a sua empresa a um plano que engloba a astronomia, a sociologia, a psicologia, a morfologia, a química, o magnetismo. Já não faz uma coleção: tenta obter o desenho da rosa-dos-ventos exteriores, fabricar a bússola para a navegação sobre os oceanos do outro lado, reconstituir o puzzle dos mundos escondidos atrás deste mundo. Necessita de cada folha que estremece na árvore imensa do fantástico: o céu de Nápoles é atravessado por bramidos no dia 22 de Novembro de 1821; vindos das nuvens, caem peixes sobre Singapura em 1861; em Indre-et-Loire, num certo 10 de Abril, há uma catarata de folhas secas; juntamente com uma faísca abatem-se sobre Sumatra achas de pedra; quedas de matéria viva; piratas do espaço cometem raptos; destroços de mundos errantes circulam sobre nós... Sou inteligente e por isso sou muito diferente dos ortodoxos. Como não possuo o desdém aristocrático de um conservador nova-iorquino ou de um feiticeiro esquimó, sou obrigado a conceber outros mundos…

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