quarta-feira, 2 de março de 2011

O Despertar dos Mágicos (26). Foi procurando um dissolvente que os alquimistas de outrora descobriram o ácido acético o ácido nítrico e o ácido sulfúr


Dutt, sobre quem Helbronner fora encarregado de fazer investigações, era um hindu que pretendia ter consultado manuscritos muito antigos. Afirmava que deles extraíra certos processos de transmutação dos metais e que, devido a uma descarga condensada através de um condutor de boreto de tungstênio, obtinha indícios de ouro nos produtos obtidos. Muito mais tarde, os russos viriam a obter resultados análogos, mas utilizando potentes aceleradores de partículas.

Louis Pauwels e Jacques Bergier. DIFEL


Bergier não pôde prestar grandes serviços ao mundo livre, à causa aliada e à promoção do major. Eric Edward Dutt, colaboracionista, fora fuzilado pela contra-espionagemfrancesa na África do Norte. Quanto a Fulcanelli, desaparecera definitivamente. No entanto, o major, como agradecimento, mandou entregar a Bergier, antes da publicação, as provas do relatório: Acerca da Utilização Militar da Energia Atômica, pelo professor H. D. Smith. Era o primeiro documento autêntico sobre o assunto.
Ora, nesse texto havia uma estranha confirmação das frases pronunciadas pelo alquimista em Junho de 1937.
A pilha atômica, peça essencial para a fabricação da bomba, era de fato apenas uma disposição geométrica de substâncias extremamente puras. Como Fulcanelli o dissera, esse utensílio, no início, não utilizava nem a eletricidade, nem a técnica do vácuo. O relatório Smyth fazia igualmente alusão a venenos irradiantes, a gases, a poeiras radioativas extremamente tóxicas, que era relativamente fácil preparar em grandes quantidades. O alquimista falara de um possível envenenamento de todo o planeta.
De que forma um investigador obscuro, isolado, místico pudera prever, ou ter conhecimento, de tudo aquilo? De onde te vem isso, alma humana, de onde te vem isso?
Ao folhear as provas do relatório, o meu amigo recordou também esta passagem do De Alchymia, de Alberto o Grande: Se tens a pouca sorte de te aproximares do príncipes e dos reis, eles não cessarão de te perguntar: Então, Mestre, como vai a Obra? Quando é que finalmente veremos qualquer coisa de positivo? E, na sua impaciência, chamar-te¬ão aldrabão e velhaco e causar-te-ão toda a espécie de aborrecimentos. E, se não obtiveres êxito, sofrerás todo o efeito da sua cólera. Se, pelo contrário, o obtiveres, conservar-te-ão em suas casas em cativeiro perpétuo, com o propósito de te fazerem trabalhar em seu benefício.
Seria esse o motivo por que Fulcanelli desapareceu e os alquimistas de todos os tempos mantiveram ciosamente o segredo?
O primeiro e o último conselho dado pelo papiro Harris era: Fechai as bocas! Cerrai as bocas!
Anos depois de Hiroshima, a 17 de Janeiro de 1955, Oppenheimer viria a declarar: Num sentido profundo, que nenhum gracejo de mau gosto será susceptível de extinguir, nós, os sábios, tomamos contacto com o pecado.
E mil anos antes, um alquimista chinês escrevia:
Seria um pecado terrível desvendar aos soldados o segredo da tua arte. Toma cuidado! Que nem um inseto haja na sala em que trabalhas!
O alquimista moderno e o espírito de investigação. Descrição do que um alquimista faz no seu laboratório. - A repetição indefinida da experiência. - O que espera ele? -A preparação das trevas. - O gás eletrônico. A água dissolvente. - Será a pedra filosofal energia em suspensão? - A transmutação do próprio alquimista. Para além começa a verdadeira metafísica.
O alquimista moderno é um homem que lê os tratados de física nuclear. Está convencido de que se podem obter transmutações e fenômenos ainda mais extraordinários por meio de manipulações e com um material relativamente simples. É nos alquimistas contemporâneos que se torna a encontrar o espírito do investigador isolado. A conservação de um tal espírito é preciosa para a nossa época. De fato, acabamos por acreditar que o progresso dos conhecimentos já não é possível sem equipas numerosas, sem uma enorme aparelhagem, sem um financiamento considerável. Ora as descobertas fundamentais, como, por exemplo, a radioatividade ou a mecânica ondulatória, foram realizadas por homens isolados. A América, que é o país das grandes equipas e dos grandes processos, espalha atualmente agentes pelo Mundo inteiro em busca de espíritos originais.
O diretor da investigação científica americana, o doutor James Killian, declarou em 1958 que era prejudicial confiar-se apenas no trabalho coletivo e que achava necessário que se fizesse apelo aos homens solitários, portadores de idéias originais.
Rutheford efetuou os seus trabalhos mais importantes sobre a estrutura da matéria com latas de conserva e pedaços de guita. Jean Perrin e Madame Curie, antes da guerra, enviavam os seus colaboradores ao Marché aux Puces, ao domingo, em busca de um pouco de material. Evidentemente, os laboratórios com aparelhagem poderosa são necessários, mas seria importante organizar uma cooperação entre esses laboratórios, essas equipas, e os originais solitários. No entanto, os alquimistas furtam-se ao convite. A sua lei é o segredo. A sua ambição é a ordem espiritual. Está fora de dúvida, escreve René Alleau, que as manipulações alquímicas servem de suporte a uma ascese interior. Se a alquimia contém uma ciência, essa ciência é apenas um meio de atingir a consciência. Importa, portanto, que não saia para o exterior, onde se transformaria num fim.
Qual é o material do alquimista? O mesmo do investigador de química mineral de altas temperaturas: fornos, crisóis, balanças, instrumentos de medição, aos quais se vieram juntar os aparelhos modernos acessíveis de controlo das radiações nucleares: contador Geiger, cintilômetro, etc.
Esse material pode parecer irrisório. Um físico ortodoxo não poderia admitir que é possível fabricar um cálculo emitindo nêutrons por processos simples e econômicos. Se as informações que temos são autênticas, os alquimistas conseguem-no. Na altura em que o elétron era considerado o quarto estado da matéria, inventaram-se dispositivos extremamente onerosos e complicados para produzir correntes eletrônicas. Após o que, em 1910, Eister e Gaitel demonstraram que bastava aquecer cal ao rubro no vácuo. Não sabemos tudo a respeito das leis da matéria. Se a alquimia é uma ciência em avanço sobre a nossa, usa processos mais simples do que os nossos.
Conhecemos vários alquimistas em França e dois nos Estados Unidos. Há-os em Inglaterra, na Alemanha e em Itália. E.J. Holmyard diz ter encontrado um em Marrocos. De Praga escreveram-nos três. A imprensa científica soviética, atualmente, parece fazer grande caso da alquimia e realiza investigações históricas.
E agora vamos tentar, pela primeira vez, segundo cremos, descrever com precisão o que faz um alquimista no seu laboratório. Não pretendemos revelar a totalidade do método alquímico, mas julgamos ter, a respeito desse método, alguns conhecimentos de certo interesse. Não esquecemos que a última finalidade da alquimia é a transmutação do próprio alquimista, e que as manipulações não passam de um lento caminhar em direção à libertação do espírito. É sobre essas manipulações que tentamos apresentar novos esclarecimentos.
Em primeiro lugar, durante vários anos, o alquimista decifrou velhos textos onde o leitor se deve embrenhar desprovido do fio de Ariana, mergulhado num labirinto no qual tudo foi preparado consciente e sistematicamente a fim de lançar o profano numa inextricável confusão mental. Paciência, humildade e fé elevaram-no a um certo nível de compreensão desses textos. Nesse nível vai poder iniciar realmente a experiência alquímica. Vamos descrever essa experiência, mas falta-nos um elemento. Sabemos o que se passa no laboratório do alquimista.
Mas ignoramos o que se passa no próprio alquimista, na sua alma. Pode dar-se o caso de que tudo esteja ligado. Pode ser que a energia espiritual represente um papel nas manipulações físicas e químicas da alquimia. Pode ser que uma certa forma de adquirir, concentrar e orientar a energia espiritual seja indispensável ao êxito do trabalho alquímico. Não é certo, mas, em questão tão delicada, não podemos deixar de reservar um lugar para a frase de Dante: Vejo que acreditas nestas coisas porque sou eu a dizer-tas, mas não sabes porquê, de forma que por serem acreditadas nem por isso estão menos escondidas.
O nosso alquimista começa por misturar muito bem, num almofariz de ágata, três constituintes. O primeiro, numa percentagem de 95 %, é um minério: uma pirite arseniosa, por exemplo, um minério de ferro que contém especialmente, como impurezas, arsênico e antimônio. O segundo é um metal: ferro, chumbo, prata ou mercúrio. O terceiro é um ácido de origem orgânica: ácido tartárico ou cítrico. Vai moê¬los e triturá-los com as mãos, depois conserva a mistura durante cinco ou seis meses. Em seguida aquece tudo num crisol. Aumenta progressivamente a temperatura e faz com que a operação dure cerca de dez dias. Deverá tomar certas precauções. Há gases tóxicos que se evolam: o vapor de mercúrio e sobretudo o hidrogênio arsenioso, que matou mais de um alquimista, logo no início dos trabalhos.
Finalmente dissolve o conteúdo do crisol com um ácido. Foi procurando um dissolvente que os alquimistas de outrora descobriram o ácido acético o ácido nítrico e o ácido sulfúrico. Essa dissolução deve efetuar-se sob uma luz polarizada: quer uma réstia de luz solar, refletida num espelho, quer a luz da Lua. Sabe-se hoje que a luz polarizada vibra numa única direção, ao passo que a luz normal vibra em todas as direções em redor de um eixo. Em seguida evapora o líquido e recalcina o sólido. Recomeça essa operação milhares de vezes, durante vários anos. Porquê? Ignoramo-lo. Talvez na expectativa do momento em que as melhores condições estejam reunidas: raios cósmicos, magnetismo terrestre, etc. Talvez a fim de obter uma fadiga da matéria em estruturas profundas que nós ainda ignoramos. O alquimista fala de paciência sagrada, de lenta condensação do espírito universal. Há certamente qualquer outra coisa atrás desta linguagem para-religiosa.

Imagem: winove.wordpress.com