quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

O Despertar dos Mágicos (20). Foi em Março de 1953 que encontrei pela primeira vez um alquimista.


Os responsáveis empenham-se em passar por pessoas como as outras, e ao mesmo tempo põem-se a certa distância. Tanto no plano humano como no plano dos fatos torna-se difícil definir com exatidão o governo. As democracias modernas prestam-se a mil interpretações esotéricas.

Louis Pauwels e Jacques Bergier. DIFEL

Vêem-se pensadores assegurar que a América obedece unicamente a alguns chefes de indústria, a Inglaterra aos banqueiros da City, a França aos franco-maçons, etc. Com os governos procedentes da guerra revolucionária o poder oculta-se quase completamente. As testemunhas da revolução chinesa, da guerra da Indochina, da guerra da Argélia, os especialistas do mundo soviético sentem¬se impressionados com a entrada do poder nos mistérios da humanidade, com o segredo em que mergulham as responsabilidades, com a impossibilidade de saber quem é que e quem decide que.
Entra em ação uma verdadeira criptocracia. Aqui não temos tempo para analisar esse fenômeno, mas haveria um trabalho a escrever sobre o nascimento daquilo a que chamamos criptocracia. Num romance de Jean Lartéguy, que participou da revolução de Azerbaijão, da guerra da Palestina e da guerra da Coréia, um capitão francês é feito prisioneiro após a derrota de Dien-Bien-Phu: Glatigny voltou a encontrar-se num abrigo em forma de túnel, longo e estreito. Estava sentado no chão, com as costas nuas apoiadas à terra da parede. Na sua frente, um nha-quê acocorado sobre os calcanhares fumava um tabaco infecto enrolado em velho papel de jornal.
O nha-quê está com a cabeça nua. Usa um fato de fazenda caqui sem insígnias. Não tem alparcatas e os dedos dos seus pés espalham-se voluptuosamente sobre a lama tépida do abrigo. Entre duas baforadas pronunciou algumas palavras, e um bô-doi, de movimentos ágeis e ondulantes de boy inclinou-se para Glatigny:
- O chefe batalhão pergunta a você onde está comandante francês que comandava ponto de apoio.
Glatigny tem um reflexo de oficial de tradição; não pode acreditar que aquele nha-quê acocorado, que fuma tabaco ordinário, comandasse, como ele, um batalhão, tivesse amesma categoria e as mesmas responsabilidades. . . É então um dos responsáveis da divisão 308, a melhor, a mais bem preparada de todo o Exército Popular; foi aquele camponês saído do seu arrozal que o bateu, a ele, Glatigny, descendente de uma das grandes dinastias militares do Ocidente. . .
Paul Mousset, jornalista célebre, correspondente de guerra na Indochina e na Argélia, dizia-me: Sempre tive a impressão de que o boy, o pequeno lojista talvez fossem os grandes responsáveis... O mundo moderno disfarça os seus chefes, como os insetos que parecem ramos de árvores, ou folhas. . .
Após a queda de Stálin, os árbitros políticos não conseguem ficar de acordo quanto à identidade do verdadeiro governante da U.R.S.S. No momento em que esses árbitros nos asseguram finalmente que é Béria, vem a saber-se que este acaba de ser executado. Ninguém poderia designar exatamente os verdadeiros chefes de um país que controla um bilhão de homens e metade das terras habitáveis do globo. . .
A ameaça de guerra revela a verdadeira forma dos governos. Em Junho de 1955, a América previra uma operação alerta durante a qual o governo abandonava Washington para ir trabalhar em qualquer parte nos Estados Unidos. No caso de esse refúgio ser destruído, estava previsto um processo que permitiria a esse governo transferir os seus poderes para as mãos de um governo fantasma (a expressão textual é governo de sombras) já designado. Esse governo inclui senadores, deputados e peritos cujos nomes não podem ser divulgados. E assim é oficialmente anunciada a passagem para a criptocracia num dos países mais poderosos do planeta.
Em caso de guerra, veríamos sem dúvida os governos aparentes serem substituídos por esses governos de sombras, possivelmente instalados nas cavernas da Virgínia, para os Estados Unidos, numa estação flutuante do Ártico, para a U.R.S.S. E, a partir desse momento, seria crime de traição desvendar a identidade dos responsáveis. Munidos de cérebros eletrônicos, para reduzir ao mínimo o pessoal administrativo, as sociedades secretas organizariam o gigantesco combate dos dois blocos da humanidade. Nem sequer está excluída a hipótese de que esses governos possam residir fora do nosso mundo, em satélites artificiais que girariam ao redor da Terra.
Não estamos a fazer ficção filosófica nem ficção histórica. Fazemos realismo fantástico. Somos cépticos sobre muitos pontos em que espíritos que passam por razoáveis o são muito menos do que nós. Não procuramos de forma alguma chamar a atenção para qualquer inútil ocultismo, para qualquer interpretação mágico-delirante dos fatos. Não propomos qualquer religião. Apenas acreditamos na inteligência. Pensamos que, em determinado nível, a própria inteligência é uma sociedade secreta. Achamos que o seu poder é ilimitado quando chega a desenvolver-se por inteiro, como um carvalho em boa terra, em vez de definhar como num vaso.
É em função das perspectivas que acabamos de descobrir, e de outras ainda, mais estranhas, que em breve se manifestarão sob os nossos olhos, que convém portanto reconsiderar a idéia de sociedade secreta. Apenas podemos, tanto aqui como noutros capítulos, esboçar o trabalho de pesquisas e de reflexões. Sabemos muito bem que a nossa visão das coisas se arrisca a parecer louca: é porque dizemos, rápida e brutalmente o que temos a dizer, da mesma forma que se bate à porta de um dorminhoco quando o tempo urge.
A ALQUIMIA COMO EXEMPLO
Um alquimista no café Procope, em 1953. - Conversa a propósito de Gurdjieff - Um homem que pretende saber que a pedra filosofal é uma realidade. -Bergier arrasta-me a toda a velocidade para um estranho atalho. Aquilo que vejo liberta¬me do imbecil desprezo pelo progresso. - O nosso pensamento secreto a respeito da alquimia: nem revelação, nem tentativa. - Rápida meditação sobre a espiral e a esperança.
Foi em Março de 1953 que encontrei pela primeira vez um alquimista. Isso passou-se no café Procope, que teve, na época, um curto período de vida. Foi um grande poeta que, na altura em que eu escrevia o meu livro sobre Gurdjieff, me preparou esse encontro e, depois disso, eu muitas vezes havia de tornar a ver esse homem singular, sem no entanto desvendar os seus segredos.
Eu tinha, a respeito da alquimia e dos alquimistas, idéias primárias, extraídas da imaginação popular, e estava longe de supor que ainda havia alquimistas. O homem que estava sentado na minha frente, na mesa de Voltaire, era jovem e elegante. Fizera profundos estudos clássicos, seguidos de estudos de química. Atualmente ganhava a vida no comércio e dava-se com muitos artistas, assim como com algumas pessoas da alta sociedade. Não tenho diário, mas acontece-me, em determinadas ocasiões importantes, anotar as minhas impressões ou os meus sentimentos. Nessa noite, ao regressar a casa, escrevi:
Que idade terá ele? Diz ter trinta e cinco. Isso espanta-me. A cabeleira branca, ondulada, cortada sobre o crânio como uma peruca. Inúmeras e profundas rugas numa carne rosada, num rosto cheio. Poucos gestos, e lentos, medidos, astutos. Um sorriso calmo e subtil. Olhos risonhos, mas que riem com indiferença. Tudo exprime outra idade. Nas suas frases nem a menor fenda, pausa, ou quebra de presença de espírito. Há qualquer coisa de esfinge atrás daquele rosto amável fora do tempo. Incompreensível.
E não sou só eu a sentir isto. A.B., que o vê quase todos os dias há várias semanas, diz-me que jamais, nem por um segundo, o apanhou em falta de objetividade superior. O que o faz condenar Gurdjieff:
1ª - Quem sente a necessidade de ensinar não vive inteiramente a sua doutrina e não atingiu o ponto culminante da iniciação.
2.ª - Na escola de Gurdjieff não existe intercessão material entre o aluno a quem se persuadiu da sua inutilidade e a energia que ele deve possuir para passar ao ser real. Essa energia - essa vontade da vontade, diz Gurdjieff - deve o aluno encontrá-la em si próprio, apenas em si próprio. Ora tal caminhada é parcialmente falsa e só pode conduzir ao desespero. Essa energia existe fora do homem, e é preciso captá-la. O católico engole a hóstia: captação ritual dessa energia. Mas se não tiverdes fé? Se não tendes fé, arranjai uma fogueira: é o princípio de toda a alquimia. Uma autêntica fogueira. Uma fogueira material. Tudo começa, tudo acontece pelo contacto com a matéria.
3º - Gurdjieff não vivia só, mas sempre rodeado, sempre em falanstério. Há um caminho na solidão, há regatos no deserto. Não há caminho nem regatos no homem misturado com os outros Faço perguntas a respeito da alquimia que devem parecer-lhe de uma assustadora estupidez. Sem o deixar transparecer responde:
Nada além da matéria, apenas o contacto com a matéria, o trabalho sobre a matéria, o trabalho com as mãos. Insiste muito neste ponto:
Gosta de jardinagem? Eis um belo começo, a alquimia é parecida com a jardinagem.
Gosta de pesca? A alquimia tem qualquer coisa de comum com a pesca.

Trabalho de mulher e brincadeira de criança.
Não é possível ensinar alquimia. Todas as grandes obras literárias que resistiram aos séculos têm qualquer coisa desse ensinamento. São a obra de homens adultos -verdadeiramente adultos - que falaram para as crianças, mas respeitando as leis do conhecimento adulto. Jamais se apanha uma grande obra em falta a respeito dos princípios. Mas o conhecimento desses princípios e o caminho que leva a esse conhecimento devem manter-se secretos. No entanto, há um dever de auxilio mútuo para os investigadores do primeiro grau.

Imagem: ideiasfixas2.blogs.sapo.pt