sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

O Despertar dos Mágicos (17). A vidraria antiga é um assunto ainda pouco conhecido


Os Antigos, servindo-se de técnicas muito simples, obtinham resultados que podemos reproduzir, mas que, a maior parte das vezes, teríamos dificuldades em explicar, apesar do imenso arsenal teórico de que dispomos. Essa simplicidade era o dom por excelência da ciência antiga.

Louis Pauwels e Jacques Bergier. DIFEL

Pois sim, direis vós, mas e a energia nuclear? A essa objeção responderei com uma citação que nos deveria obrigar a refletir um pouco. Num livro precioso, quase desconhecido, mesmo de muitos especialistas, publicado há mais de oitenta anos e intitulado Les Atlantes, o autor, que prudentemente se escondeu sob o pseudônimo de Roisel, expôs os resultados de cinqüenta e seis anos de pesquisas e trabalhos sobre a ciência antiga. Ao explicar os conhecimentos científicos que atribui aos Atlantas, Roisel escreve estas linhas extraordinárias para a sua época: A conseqüência dessa atividade incessante é, de fato, o aparecimento da matéria, desse outro equilíbrio cuja ruptura igualmente determinaria poderosos fenômenos cósmicos. Se, devido a uma causa desconhecida, o nosso sistema solar se desagregasse, os átomos que o constituem, devido à independência adquirida, tornar-se-iam imediatamente ativos e brilhariam no espaço com uma luz inefável que anunciaria ao longe uma vasta destruição e a esperança num mundo novo. Parece-me que este último exemplo é suficiente para fazer compreender toda a profundidade da frase de Mademoiselle Bertin: Só é novo o que está esquecido.
Vejamos agora qual o interesse prático que apresenta para a indústria uma sondagem sistemática do passado. Quando digo que nos devemos debruçar com o maior interesse sobre os trabalhos antigos, não se trata de forma alguma de efetuar um trabalho de erudição. Apenas é necessário, em função de um problema concreto posto pela indústria, verificar nos documentos científicos e técnicos antigos se existem fatos significativos desprezados, ou então métodos esquecidos, mas dignos de interesse e que digam diretamente respeito à questão apresentada. As matérias plásticas, cuja invenção nós supomos muito recente, poderiam ter sido descobertas muito antes se se tivesse o cuidado de prosseguir certas experiências do químico Berzélius. Quanto à metalurgia, apontarei um fato de certa importância. No início das minhas investigações sobre certos processos químicos dos Antigos, fiquei bastante surpreendido por não poder reproduzir no laboratório experiências metalúrgicas que me pareciam descritas com muita clareza. Procurava, em vão, compreender os motivos de tal insucesso, pois cumprira as indicações e as proporções que eram dadas. Refletindo melhor, apercebi¬me que no entanto cometera um erro. Utilizara fundentes quimicamente puros, enquanto os Antigos se serviam de fundentes impuros, quer dizer, de sais obtidos a partir de produtos naturais e por conseqüência susceptíveis de provocar ações catalíticas. De fato, a experiência confirmou este ponto de vista. Os especialistas compreenderão as importantes perspectivas que estas observações apresentam. Poderiam fazer-se economias de combustível e de energia se fossem adaptados à metalurgia certos processos antigos que, quase todos, se baseiam sobre a ação de catalisadores. Neste ponto, as minhas experiências foram confirmadas, assim como os trabalhos do doutor Ménétrier sobre a ação catalítica dos oligoelementos e as pesquisas do alemão Mittasch sobre a catálise na química dos Antigos. Por vias diferentes obtiveram-se resultados convergentes. Essa convergência parece provar que a tecnologia chegou à altura de ter em conta a importância fundamental da noção de qualidade e do seu papel na produção de todos os fenômenos quantitativos susceptíveis de ser observados.
Os Antigos conheciam igualmente processos metalúrgicos que parecem esquecidos, como, por exemplo, temperar o cobre em certos banhos orgânicos. Desta forma, obtinham instrumentos extraordinariamente duros e penetrantes. Não eram menos hábeis em derreter esse metal, mesmo no estado de óxido. Darei apenas um exemplo. Um dos meus amigos, especialista da prospecção mineira, encontrava-se a noroeste de Agadès, em pleno Saara. Ali descobriu minerais de cobre que apresentavam indícios de fusão e crisóis que ainda continham metal. Mas não se tratava de um sulfureto, e sim de um óxido, quer dizer, de um corpo que, para a indústria atual, apresenta problemas de redução que não é possível resolver com uma simples fogueira de nômade.
No domínio das ligas de metais, que é um dos mais importantes da indústria atual, não escaparam aos Antigos muitos fatos significativos. Não só conheciam os processos de produzir diretamente, a partir de minerais complexos, ligas com singulares propriedades, processos a que a indústria soviética dedica, neste momento, grande interesse, como ainda utilizavam ligas raras, como seja o âmbar amarelo, que nós jamais tivemos a curiosidade de estudar seriamente, apesar de conhecermos as receitas de fabricação.
Insistirei apenas sobre as perspectivas do domínio farmacêutico e médico, quase inexplorado e propício a tantas investigações. Apontarei simplesmente a importância do tratamento das queimaduras, questão tanto mais grave quanto é certo que os acidentes de automóvel e de avião obrigam a pensar nela, praticamente, a cada minuto. Foi na Idade Média, época incessantemente devastada por incêndios, que se descobriram os melhores remédios contra as queimaduras, receitas essas completamente esquecidas. A este respeito, convém saber que certos produtos da antiga farmacopéia não só acalmavam as dores, como permitiam evitar as cicatrizes e regenerar as células.
Quanto aos corantes e aos vernizes, seria supérfluo recordar a excelente qualidade das matérias elaboradas segundo os processos dos Antigos. As admiráveis cores utilizadas pelos pintores da Idade Média não se perderam, como geralmente se supõe; há em França pelo menos um manuscrito que explica a sua composição. Jamais alguém pensou em adaptar e verificar esses processos. Ora os pintores modernos, se daqui a um século ainda fossem vivos, não reconheceriam os seus quadros, pois as cores utilizadas atualmente não duram. Aliás, os amarelos de Van Gogh já perderam, segundo parece, a extraordinária luminosidade que os caracterizava.
Tratar-se-á de minas? A este respeito, falarei apenas de uma relação entre a investigação médica e a exploração mineira. As aplicações terapêuticas das plantas, a que se chama fitoterapia, muito conhecida dos Antigos, de fato está ligada a uma ciência nova, a biogeoquímica. Esta disciplina propõe-se revelar as anomalias positivas relativas aos indícios de metais nas plantas e que indicam a proximidade de camadas de minérios. Desta forma é possível determinar particulares afinidades de certas plantas com certos metais e, por conseqüência, esses dados podem ser utilizados tanto no plano da exploração mineira como no domínio da ação terapêutica. Isso é mais um exemplo característico de um fato que me parece ser o mais importante da história atual das técnicas, como seja a convergência das diversas disciplinas científicas, o que implica a existência de sínteses constantes.
Citemos ainda algumas outras tendências de pesquisas e aplicações industriais: os adubos, vasto domínio em que os antigos químicos obtiveram resultados geralmente ignorados. Penso especialmente naquilo a que eles chamavam a essência da fecundidade, produto composto por certos sais misturados a estrumes digeridos ou destilados.
A vidraria antiga é um assunto ainda pouco conhecido: os Romanos já utilizavam os sobrados em vidro; aliás, o estudo dos antigos processos de vidraceiros poderia proporcionar um precioso auxílio para a solução de problemas ultramodernos, como a dispersão das terras raras e do paládio no vidro, o que permitiria obter tubos fluorescentes de luz negra.
Quanto à indústria têxtil, apesar do triunfo dos plásticos, ou talvez justamente devido a esse triunfo, deveria orientar-se para a produção, para o comércio de luxo, de tecidos de muito boa qualidade, que poderiam ser tintos segundo as normas antigas, ou então tentar o fabrico daquele pano raro que era conhecido sob o nome de Pilema. Tratava-se de tecidos de linho ou lã preparados com certos ácidos e que resistiam ao gume do ferro e à ação do fogo. Aliás, o processo foi conhecido dos Gauleses, que o utilizavam no fabrico de couraças.
A indústria do mobiliário, devido ao preço ainda muito elevado dos revestimentos plásticos, também poderia encontrar soluções vantajosas adaptando processos antigos que aumentavam consideravelmente, devido a uma espécie de imersão, a resistência da madeira a diversos agentes físicos e químicos. As empresas de trabalhos públicos teriam interesse em prosseguir o estudo de cimentos especiais cujas proporções são indicadas nos tratados dos séculos XV e XVI e que apresentam características muito superiores às do cimento moderno. A indústria soviética utilizou recentemente, na fabricação utensílios cortantes, uma cerâmica mais dura que os metais. Esse endurecimento poderia igualmente ser estudado à luz dos antigos processos de imersão.
Enfim, sem poder insistir sobre este problema, indicarei um resumo de investigações físicas que poderiam ter conseqüências profundas. Refiro-me a trabalhos relativos à energia magnética terrestre. Neste sentido, há observações muito antigas que jamais
foram seriamente verificadas, apesar do seu incontestável interesse. Quer se tratasse, finalmente, das experiências do passado ou das possibilidades do futuro, creio que o realismo profundo ensina a desviar-nos do presente. Esta afirmação pode parecer paradoxal, mas basta refletir para compreender que o presente é apenas um ponto de contacto entre a linha do passado e a do futuro. Firmemente apoiados sobre a experiência ancestral, devemos olhar para a frente e não para baixo, sem levar exageradamente em conta o breve intervalo de desequilíbrio durante o qual atravessamos o espaço e a duração. Prova-o o movimento da marcha e a lucidez do nosso olhar deve manter sempre igual a balança entre aquilo que foi e o que vai ser.