segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

O Despertar dos Mágicos (18). Bem vistas as coisas, somos dirigidos por amadores e por pessoas de segunda categoria.


O saber e o poder ocultam-se. - Uma visão da guerra revolucionária. - A técnica ressuscita as Guildas. O regresso à idade dos Adeptos. -Um romancista falara verdade: existem Centrais de Energia. - Da monarquia à criptocracia. -A sociedade secreta, futura forma de governo. - A própria inteligência é uma sociedade secreta. - Batem à porta.

Louis Pauwels e Jacques Bergier. DIFEL

Num artigo muito estranho, mas que, segundo parece refletia a opinião de muitos intelectuais franceses, Jean-Paul Sartre recusava pura e simplesmente à bomba H o direito de existência.
A existência, na teoria daquele filósofo, precede a essência. Mas surge um fenômeno cuja essência não lhe convém: e ele recusa a existência. Singular contradição! A bomba H, escrevia Jean-Paul Sartre, é contra a história. De que forma um fato de civilização poderia ser contra a história? O que é a história? Para Sartre é o movimento que deve necessariamente conduzir as multidões ao poder. O que é a bomba H? Uma reserva de poder manejável por alguns homens. Uma sociedade muito limitada de sábios, técnicos, políticos, que pode decidir da sorte da humanidade. aspira a ser dirigente complica ao máximo o sistema que deseja destruir para o chamar a si sem reações de defesa, da mesma forma que a aranha envolve a presa. Os homens ditos de poder, possessores e governantes, não passam de intermediários numa época que é igualmente intermediária.
- Ao passo que as armas soberanas se multiplicam, a guerra muda de aspecto. Trava¬se um combate sem interrupção, sob a forma de guerrilhas, de revoluções palacianas, de emboscadas, de maquis, de artigos, de livros, de discursos.
A guerra revolucionária substitui a guerra simples. Esta mudança de formas de guerra corresponde a uma mudança de objetivos da humanidade. As guerras eram feitas para o haver. A guerra revolucionária é feita para o ser. Outrora a humanidade dilacerava-se pela divisão da terra e para nela viver o melhor possível. Para que alguns dividam entre si os bens terrenos e deles gozem. Agora, através deste incessante combate que se assemelha à dança dos insetos que apalpam mutuamente as suas antenas, tudo se passa como se a humanidade procurasse a união, o ajuntamento, a unidade para modificar a Terra. Ao desejo de gozar substitui-se o propósito de realizar. Os homens de ciência, que também aperfeiçoaram as armas psicológicas, não são estranhos a esta profunda alteração. A guerra revolucionária corresponde ao aparecimento de um espírito novo: o espírito operário.
O espírito dos operários da Terra. É neste sentido que a história é um movimento messiânico das massas. Esse movimento coincide com a concentração do saber. Tal é a fase que atravessamos, na aventura de uma humanização crescente, de uma contínua assunção do espírito.
Detenhamo-nos nos fatos aparentes. Achar-nos-emos transportados à época das sociedades secretas. Quando atingirmos os fatos mais importantes, e portanto menos visíveis, chegaremos à conclusão de que penetramos igualmente na época dos Adeptos. Os Adeptos irradiavam a sua sabedoria sobre um conjunto de sociedades organizadas com o fim de manter secretas as técnicas. Não é impossível imaginar um mundo muito próximo construído à base deste modelo. Tendo em conta, porém, que a história não se repete. Ou antes, quando passa por um período idêntico, é num grau mais elevado da espiral.
Historicamente, a conservação das técnicas foi um dos fins das sociedades secretas. Os sacerdotes egípcios guardavam zelosamente as leis da geometria plana. Recentes pesquisas revelaram a existência, em Bagdá, de uma sociedade que conserva o segredo da pilha elétrica e o monopólio da galvanoplastia há dois mil anos. Na Idade Média, em França, na Alemanha, na Espanha, formaram-se corporações de técnicos. Observai a história da Alquimia. Vede o segredo da coloração do vidro em vermelho devido à introdução do ouro no momento da fusão. Vede o segredo das misturas incendiárias o óleo de linhaça com a gelatina antecessor do napalm.
Nem todos os segredos da Idade Média foram encontrados: o do vidro mineral flexível,
o do processo simples para obter a luz fria, etc. Hoje assistimos igualmente ao aparecimento de grupos de técnicos que não divulgam os segredos de fabricação, quer se trate de técnicas artesanais, como a fabricação das harmônicas, dos berlindes de vidro, ou de técnicas industriais, como a produção de gasolina sintética. Nas grandes fábricas atômicas americanas, os físicos usam distintivos indicando o seu grau de saber e de responsabilidade. Só é permitido dirigir a palavra ao portador do mesmo distintivo.
Existem clubes e as amizades e os amores formam-se no interior de cada categoria. Desta forma constituem-se círculos fechados semelhantes às corporações da Idade Média, quer se trate de aviação a jacto, de ciclotrons ou de eletrônica. Em 1956, trinta e cinco estudantes chineses, saídos do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, pediram para regressar a casa. Não tinham trabalhado em problemas militares, no entanto pensou-se que sabiam demais. O regresso foi-lhes proibido. O governo chinês, muito desejoso de recuperar esses jovens esclarecidos, propôs, em troca, aviadores americanos detidos sob a acusação de espionagem.
A vigilância das técnicas e segredos científicos não pode ser confiada à polícia. Ou antes, atualmente, os especialistas da segurança são obrigados a estudar as ciências e as técnicas que têm como missão vigiar. Ensina-se a esses especialistas a trabalhar nos laboratórios nucleares, e aos físicos nucleares a assegurarem, eles próprios, a sua segurança. Desta forma vemos surgir uma casta mais poderosa do que os governos e as polícias políticas.
Enfim, o quadro ficará completo se pensarmos nos agrupamentos de técnicos dispostos a trabalhar para os países que melhor pagam. São os novos mercenários. São as espadas que se alugam da nossa civilização, em que o condottière usa blusão branco. A África do Sul, a Argentina, a Índia são os seus melhores terrenos de ação. Aí constroem verdadeiros impérios.
Voltemos aos fatos menos visíveis, mas mais importantes.
Neles veremos o regresso à época dos Adeptos. Não há no Universo coisa alguma que possa resistir ao ardor convergente de um número suficientemente grande de inteligências agrupadas e organizadas, dizia, confidencialmente, Teilhard de Chardin a Georges Magloire.
Há mais de cinqüenta anos, John Buchan, que representou, em Inglaterra, um papel importante como político, escrevia um romance que era ao mesmo tempo uma mensagem dirigida a certos espíritos esclarecidos. Nesse romance intitulado, e não sem motivo, A Central de Energia, o herói encontra um senhor distinto e discreto que lhe diz, num tom de conversa de golfo, frases bastante desconcertantes:
Evidentemente, disse eu, há inúmeras vigas-mestras na civilização, e se as destruíssemos seria o seu desmoronamento. Mas elas aguentam-se bem.
Não muito... Pense que a fragilidade da máquina se torna cada vez maior. À medida que a vida se complica, o mecanismo torna-se mais inextricável e por conseqüência mais vulnerável. As vossas supostas sanções multiplicam-se tão desmedidamente que cada uma delas é precária. Nos séculos de obscurantismo existia uma força única: o medo de Deus e da sua Igreja. Atualmente há uma infinidade de pequenas divindades, igualmente delicadas e frágeis e cuja única força é devida ao nosso tácito consentimento em não as discutir.
Esquece-se de uma coisa, repliquei, o fato de que os homens estão realmente de acordo em manter a máquina em andamento. Era isso a que eu há pouco chamava a boa vontade civilizada.
Pôs o dedo sobre o único ponto importante. A civilização é uma conspiração. Para que serviria a vossa polícia se cada criminoso encontrasse um asilo do outro lado do mar, ou os seus tribunais, se houvesse outros que não reconhecessem as suas decisões? A vida moderna é o pacto não formulado dos possessores para manter as suas pretensões. E esse pacto será eficaz até ao dia em que se fizer outro que os despoje. - Não discutiremos o indiscutível, disse eu. Mas eu supunha que o interesse geral levava os espíritos mais esclarecidos a fazer parte daquilo a que chama uma conspiração.
Não sei, disse ele lentamente. São de fato os espíritos mais esclarecidos que aderem a esse pacto? Examine a conduta do governo. Bem vistas as coisas, somos dirigidos por amadores e por pessoas de segunda categoria. Os métodos das nossas administrações arrastariam para a falência qualquer empresa particular. Os métodos do Parlamento - desculpe-me - fariam vergonha a qualquer assembléia de acionistas. Os nossos dirigentes simulam adquirir a sabedoria por meio da experiência, mas estão longe do que seria capaz de fazer um homem de negócios, e quanto à sabedoria, quando a adquirem, não têm coragem de a pôr em prática. Qual é o atrativo que vê, para um homem de gênio, em vender o cérebro aos nossos miseráveis governantes? E no entanto o saber é a única força - agora e sempre. Um pequeno dispositivo mecânico afundará esquadras completas. Uma nova combinação química poderá alterar todas as leis de guerra. E o mesmo se passa no comércio. Bastarão algumas pequeníssimas alterações para reduzir a Grã-Bretanha ao nível da República do Equador, ou para dar à China a chave da riqueza mundial. E no entanto não desejamos imaginar que estas alterações sejam possíveis. Tomamos os nossos castelos de cartas pelas muralhas do Universo.

Jamais tive o dom da palavra, mas admiro-o nos outros. Um discurso neste gênero produz um encantamento nocivo, uma espécie de embriaguez, que quase nos envergonha. Sentia-me interessado e meio seduzido.
-mas, vejamos, disse eu, o primeiro cuidado do inventor é tornar pública a sua invenção. Como deseja honras e glória, pretende receber dinheiro por essa invenção. Ela passa a fazer parte integrante da ciência mundial e por conseqüência todo o resto se modifica. Foi o que se passou com a eletricidade. Chamais à nossa civilização uma máquina, mas ela é bem mais dócil do que uma máquina. Possui o poder de adaptação de um organismo vivo.

Imagem: insolito.no.sapo.pt

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