quinta-feira, 8 de julho de 2010

G. K. Chesterton. O homem das cavernas. O homem não significa uma evolução


O incidente, de outro lado, impressionou-me como uma parábola. Muitas histórias modernas da humanidade começam pela palavra evolução. É que existe um não sei que de brando, de suave, de gradativo, de tranqüilizador, talvez, não só na palavra como na própria idéia.

http://www.permanencia.org.br/revista/Pensamento/chesterton1.htm

Desde logo, não é esta uma palavra prática, nem a idéia resultante uma idéia aproveitável. Ninguém poderá imaginar como o nada evolucionando pudesse se converter em alguma coisa. Nem mesmo se explicando como uma coisa pode se converter em outra. É muito mais lógico começar dizendo: “No princípio, Deus criou o céu e a terra”, mesmo quando só se queira dizer: “No princípio, certo poder inconcebível iniciou um processo inconcebível também”.
Porque Deus é, por natureza, um nome de mistério, e ninguém pode imaginar como foi criado o mundo, do mesmo modo que ninguém se sente capaz de criá-lo. Mas, a palavra “evolução” parece ter certa tendência a substituir “explicação”, e são muitos os que entendem que ela os dispensa de reflexionar, como são, também, muitos os que acreditam, de boa fé, já terem lido “A origem das espécies”.
Aquela noção de suavidade, de consolador, de gradativo e lento, constitui uma grande parte da sua grande ilusão. Digamos agora, que se trata tanto de uma ilusão como de um absurdo.

A lentidão nada tem que ver nesta questão. Um fato não é mais ou menos inteligível, segundo a velocidade em que se executa. Para um homem que não acredita nos milagres, um milagre lento será tão incrível como um outro imediato, fulminante. A feiticeira grega pôde converter os marinheiros em porcos ao simples contato da sua varinha mágica. Porém, ver um marinheiro desses, nosso amigo, convertendo-se paulatinamente, em porco, não seria, de certo, muito mais tranqüilizador. O nigromante medieval lançava-se no espaço, do alto de uma torre. Mas, ver um velho senhor passeando vagarosamente pelo espaço, também, despertaria a nossa atenção.
Não obstante, o materialismo histórico parece não poder despegar-se desse erro que consiste em acreditar que uma dificuldade fica iludida explicando-a por meio de um lento decorrer do tempo. A questão se estriba na falsa sensação de facilidade que se produz pela mera sugestão de ir devagar. Como se tranqüilizássemos a uma senhora idosa, que pela primeira vez toma um automóvel, assegurando-lhe que este irá devagarzinho.

Mr. H. G. Wells reconheceu-se profeta – e nesta questão o foi à sua custa. – É curioso: seu primeiro conto fantástico foi a mais completa resposta ao seu último livro de história. A máquina do tempo destruiu, antecipadamente, todas as conclusões fundadas na mera relatividade desse mesmo tempo. Naquela sublime fantasia o protagonista viu as árvores crescerem como foguetes, a vegetação estender-se como um incêndio verde, e o sol cruzar do Oriente para o Ocidente com a velocidade de um meteoro. Porém, a questão não está em como se produzem os fenômenos e sim no por quê se produzem. E este por quê não é nada mais do que uma questão religiosa ou, pelo menos, uma questão filosófica ou de metafísica.
Não se pode considerar resolvido o problema substituindo a mudança rápida das coisas por uma transformação lenta, como não se modifica essencialmente o argumento de uma película cinematográfica focando-a com mais ou menos velocidade.
O que se necessita para se defrontar com estes problemas da existência primitiva é alguma coisa assim como um espírito primitivo. Ao reconstituir esta visão das primeiras coisas eu pediria ao leitor que fizesse comigo uma espécie de experiência de simplicidade. E fique registrado que ao dizer simplicidade não quero dizer estupidez, e sim essa expressão de claridade que percebe melhor as coisas vivas do que as palavras de sentido duvidoso como a – “evolução”. Para isto, o melhor seria fazer girar a manivela da máquina do tempo um pouco mais depressa e ver crescer a erva e elevarem-se as árvores até o céu, se tal experiência pode dar uma idéia viva e gráfica de todo o problema. O que sabemos é que as árvores e a erva crescem e que ocorrem, paralelamente, um grande número de outras coisas extraordinárias. Que umas raras criaturas se mantêm no ar agitando uma espécie de leques de diferentes formas e tamanhos; que outras navegam imersas no mais profundo das águas, ao passo que há as que andam em cima da terra com quatro pés e, a mais rara de todas, a que caminha com dois.

Estes são fatos e não teorias. Comparados com eles, a evolução, o átomo e até o sistema solar, não são mais que hipóteses. O tema, pois é histórico e não filosófico. Só é necessário relevar que nenhum filósofo nega que existe um mistério nas duas grandes transições: - a origem do universo e a origem do princípio da vida. Muitos outros acrescentam, ainda, a esses, com razão, um terceiro vinculado à origem do homem.
Em outras palavras: foi construída uma terceira ponte sobre um terceiro abismo do incompreensível quando se produziu o fenômeno que chamamos razão e o que chamamos vontade. O homem não significa uma evolução senão – uma revolução. Que tenha uma espinha dorsal e outras partes da estrutura semelhante às dos pássaros e peixes, isto é óbvio, seja qual for a significação do fato. Mas se o considerarmos como um quadrúpede que se mantém de pé sobre as patas de trás, as conseqüências dessa nossa consideração serão mais fantásticas que se o figurássemos, de pé, ou erguido, sobre a cabeça.

Apresentarei um exemplo que sirva de introdução à teoria do homem, ao mesmo tempo em que ilustre o meu asserto de que é necessária uma certa ingenuidade infantil para compreender devidamente a infância do mundo. Ilustrará, também, minha afirmativa de que um misto de ciência popular e de sabedoria de jornal tem confundido de tal maneira os fatos, acerca das primeiras coisas, por forma que já nem mais acertamos em ver quais delas foram, em verdade, as primeiras. Ilustrará, ainda, conquanto só no sentido mais conveniente tudo quanto quero dizer ao falar da necessidade de ver as ásperas diferenças que dão forma à história, ao invés de nos engolfarmos em todas essas generalizações sobre a lentidão e identidade. Porque, com efeito, necessitamos do que chama Mr. Wells – um esboço da história. Nesse ponto, podemos nos arriscar a dizer, com a frase de Mr. Montalini – que a história evolucionista não tem esboço. – Sobretudo, enfim, meu exemplo ilustrará a asserção de que – quanto mais consideramos o homem como animal, menos animal ele nos parece.

Novelas e jornais nos falam freqüentemente de um personagem popular chamado cavernícola, isto é, o homem das cavernas. Tem se tornado muitíssimo nosso familiar tanto no seu aspecto público como no privado. Fala-se muito a sério da sua psicologia nas novelas psicológicas e na medicina desse mesmo gênero. Parece, segundo todas as minhas leituras, que o homem das cavernas passava a vida surrando a sua mulher, em particular, e, em geral, a todas as mulheres que lhe chegavam ao alcance.
Até agora, não me pude convencer da verdade desse asserto. Não sei em notícia de que jornal primitivo ou processo de divórcio pré-histórico se funda.

Tão pouco acerto em achar a probabilidade disso, ainda considerando o fato a priori. Dizem-nos, sempre, de uma maneira gratuita, sem explicação nem autoridade, que o homem primitivo fazia a corte à sua mulher dando-lhe pauladas na cabeça.
É um pouco estranho, não resta dúvida, que aquelas damas insistissem na necessidade de apanhar antes de se entregarem ao homem. Não compreenderei nunca em como sendo o homem tão rude era a mulher tão sagaz.

Concedamos que o homem primitivo fosse uma besta. Porém, nada nos induz a crer que fosse ele mais besta do que as próprias bestas. E é bem certo que o amor entre as girafas e os românticos idílios entre os hipopótamos decorriam sem necessidade daqueles cavalheiros recorrerem a tais processos de carícias.
Mas, o mais curioso é isto: - que enquanto dez mil línguas, mais ou menos científicas e literárias, se ocupam desse pobre homem, no seu aspecto feroz, esquecem ou desdenham o único aspecto em que ele nos aparece como criatura sensível e digna de estimação. Realmente, têm-se interessado por tudo que se refere ao homem das cavernas, menos pelo que ele fez nessas cavernas. E, entretanto, não nos faltam evidências palpáveis de que ele fez nelas alguma coisa de importante. Não é muito, como não o é quanto se refere à idade pré-histórica: mas, diz respeito ao verdadeiro homem das cavernas e não ao personagem literário a que se dá esse nome, acompanhando do seu inseparável porrete. O que se encontrou nas cavernas não foi esse pedaço de pau, com as cabeças amassadas das mulheres. A caverna não era assim, uma alcova de Barba Azul, cheia de esqueletos de esposas assassinadas.