quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

O Despertar dos Mágicos (8). Os filósofos literários disseram-nos que o homem é incapaz de compreender o mundo.


Nesse caso todo o Universo se tornaria acessível: haveria possibilidades, durante o espaço de uma vida humana, de atingir a estrela mais longínqua. Se tais equações fossem confirmadas, o pensamento humano seria alterado.

Louis Pauwels e Jacques Bergier. DIFEL

Se o homem não está limitado a esta terra, novas interrogações se terão de fazer a respeito do sentido profundo da iniciação e dos eventuais contactos com inteligências do Exterior. Em que ponto estamos nós ainda? Em matéria de pesquisa sobre as estruturas do espaço e do tempo, as nossas noções de passado e de futuro já não servem.
Ao nível da partícula, o tempo circula simultaneamente nos dois sentidos: futuro e passado. A uma velocidade extrema, limite da velocidade da luz, o que é o tempo? Estamos em Londres, em Outubro de 1944. Um foguetão V2, voando a 5000 quilômetros à hora, está sobre a cidade. Ele vai cair. Mas vai a que é que se aplica? Para os habitantes do prédio que será destruído dentro de instantes, e que apenas possuem olhos e ouvidos, o V2 vai cair. Mas para o operador de radar, que se serve de ondas que se propulsam a 300 000 quilômetros por segundo (velocidade em relação à qual o foguetão é uma lesma), a trajetória da bomba já está fixada. Ele observa: mas não pode fazer coisa alguma.
À escala humana, já nada pode interceptar o instrumento de morte, nem evitar seja o que for. Para o operador o foguetão já caiu. À velocidade do radar, praticamente o tempo não corre. Os habitantes do prédio vão morrer. No super-olho do radar já estão mortos. Outro exemplo: encontram-se nos raios cósmicos, quando estes atingem a superfície da Terra, algumas partículas, os mesons rodariam com tal velocidade que para elas o tempo teria praticamente deixado de correr. Desta forma, uma vida de um milésimo de segundo poderia ser mantida e observada durante minutos ou horas.
É preciso não supor que o tempo decorrido regressa ao nada; o tempo é uno e eterno, o passado, o presente e o futuro não passam de aspectos diferentes -gravuras diferentes, se preferem – de um registro contínuo e invariável da existência perpétua. Para os discípulos atuais de Einstein, apenas existiria verdadeiramente um eterno presente.
Era o que os antigos místicos diziam. Se o futuro já existe, a precognição também. Toda a aventura do conhecimento antecipado é orientada no sentido de uma descrição das leis da física, mas igualmente da biologia e da psicologia no continuo de quatro dimensões, quer dizer, no eterno presente. Passado, presente e futuro são. Talvez seja apenas a consciência que se desloca. Pela primeira vez, a consciência é admitida sem discussão nas equações de física teórica. Neste eterno presente, a matéria surge como um delgado fio estendido entre o passado e o futuro. Ao longo desse fio desliza a consciência humana. Por que meios é ela capaz de modificar ' Eric Temple Bell: Le Flot du Temps, Gallimard edit., Paris as tensões desse fio, de forma a controlar os acontecimentos? Sabê-lo-emos um dia e então a psicologia fará parte da física.
A liberdade é provavelmente conciliável com este eterno presente. O viajante que sobe o Sena de barco sabe antecipadamente as pontes que encontrará. Nem por isso é menos senhor das suas ações, nem menos capaz de prever o que poderá acontecer inopinadamente. Liberdade de vir a ser, no centro de uma eternidade que é. Visão dupla, admirável visão do destino humano ligado à totalidade do Universo!
Se eu pudesse recomeçar a minha vida, com certeza não escolheria ser escritor e passar os meus dias numa sociedade retardatária na qual a aventura dormita debaixo das camas, como um cão. Ser-me-ia necessária uma aventura-leão. Far-me-ia físico teórico, para viver no âmago ardente do verdadeiro romanesco. O moderno mundo da física desmente terminantemente as filosofias do desespero e do absurdo. Ciência sem consciência não passa de uma ruína da alma.
Mas consciência sem ciência é ruína idêntica. Aquelas filosofias que atravessaram a Europa no século XX eram fantasmas do século XIX, vestidos à moda atual. Um conhecimento real, objetivo, do fato técnico e científico, que tarde ou cedo arrasta o fato social, ensina-nos que há uma direção nítida na história humana, um acréscimo do poder do homem, uma subida do espírito geral, uma enorme forja das massas que as transforma em consciência ativa, o acesso a uma civilização na qual a vida será tão superior à nossa como a nossa em relação à dos animais.
Os filósofos literários disseram-nos que o homem é incapaz de compreender o mundo. Já André Maurois, em Les Nouveaux Discours du Docteur O Grady, escrevia: Tem de admitir, no entanto, doutor, que o homem do século XIX podia acreditar que, um dia, a ciência explicaria o mundo. Renan, Berthelot, Taine também esperavam o mesmo, no princípio da sua vida. O homem do século já não tem tais esperanças. Sabe que as descobertas só fazem recuar o mistério. Quanto ao progresso, nós constatamos que os direitos do homem só provocaram fome, terror, desordem, tortura e confusão de espírito. Que esperança resta? Para que vive, doutor? Ora o problema já não se punha desta forma.
Sem que os palradores se apercebessem, o círculo fechava-se à volta do mistério e o progresso incriminado abria as portas do céu. Já não é Berthelot ou Taine a fazer previsões a respeito do futuro da humanidade, mas sim homens como Teilhard de Chardin.
De um recente confronto entre sábios de diversas disciplinas sobressai a seguinte idéia: talvez um dia os derradeiros segredos das partículas elementares nos venham a ser revelados pelo comportamento profundo do cérebro, pois ele é o resultado e a conclusão das reações mais complexas na nossa região do Universo, e talvez contenha em si próprio as leis mais íntimas dessa região.
O mundo não é absurdo e o espírito não é de forma alguma inapto para o compreender. Antes pelo contrário, pode ser que o espírito humano já tenha compreendido o mundo, mas que ainda o não saiba...
Reflexões apressadas sobre os atrasos da sociologia. - Um diálogo de surdos. -Os planetários e os provincianos. Um cavaleiro que regressou para junto de nós. - Um pouco de Lirismo.
Na física, nas matemáticas e na biologia modernas a vista espraia-se até ao infinito. Mas a sociologia tem sempre o horizonte tapado pelos monumentos do século passado. Recordo-me do nosso triste espanto quando seguimos, Bergier e eu, em 1957, a correspondência entre o célebre economista soviético Eugênio Varga e a revista americana Fortune. Esta luxuosa publicação exprime as opiniões do capitalismo esclarecido. Varga é um espírito sólido e goza da consideração do supremo poder. Podia esperar-se, de um diálogo público entre estas duas autoridades, um auxílio sério para a compreensão da nossa época. Ora o resultado foi terrivelmente decepcionante.
Varga seguia à letra o seu evangelho. Marx anunciava uma inevitável crise do capitalismo. Via essa crise muito próxima. O fato de a situação econômica dos Estados Unidos melhorar constantemente e de o grande problema ser agora a utilização racional dos períodos de descanso não impressionava de forma alguma esse teórico que, na época do radar, continuava a ver as coisas pelos mesmos prismas de Karl.
A idéia de que o desmoronamento anunciado poderia não se produzir segundo o esquema fixado, e de que talvez estivesse prestes a surgir uma nova sociedade além-Atlântico, nem por um momento lhe passava pela cabeça. Por outro lado, a redação da Fortune também não previa uma mudança de sociedade na U.R.S.S., e explicava que a América de 1957 exprimia um ideal perfeito, definitivo.
Tudo o que os Russos podiam esperar era aceder a esse estado se tivessem juízo, dentro de um século ou século e meio. Nada inquietava ou perturbava os adversários teóricos de Varga, nem a multiplicidade de cultos novos entre os intelectuais americanos (Oppenheimer, Aldous Huxley, Gerald Heard, Henri Miller e muitos outros, tentados pelas antigas filosofias orientais), nem a existência, nas grandes cidades, de milhares de jovens rebeldes sem motivo, agrupados em gangs, nem os vinte milhões de indivíduos que apenas resistiam ao ambiente tomando drogas tão perigosas como a morfina ou o ópio.
O problema de um objetivo na vida não parecia atingi-los. Quando todas as famílias americanas possuírem dois automóveis, será necessário que comprem um terceiro. Quando o mercado dos postos de televisão estiver saturado, será necessário equipar os automóveis. E, no entanto, em relação aos sociólogos, aos economistas e aos pensadores do nosso país, Eugênio Varga e a direção da Fortune estão avançados. O complexo de decadência não os paralisa. Eles não se entregam a uma deleitação morosa.
Não pensam que o mundo é absurdo e que a vida não merece ser vivida. Acreditam com firmeza na virtude do progresso, caminham a direito para um aumento indefinido do poder do homem sobre a natureza. Têm dinamismo e grandeza. Têm vistas largas e grandiosas. Seria desagradável declararmos que Varga é partidário da empresa livre e que a redação da Fortune é composta por progressistas.
E no entanto, no significado europeu, estritamente doutrinal, isso é verdade. Eugênio Varga não é comunista. A Fortune não é capitalista, se nos basearmos nas nossas maneiras de ver acanhadas, provincianas. O russo e o americano responsáveis têm em comum a ambição, a ânsia de poder e um inquebrantável otimismo. Estas forças, manejando a alavanca das ciências e das técnicas, fazem saltar os quadros da sociologia elaborados no século XIX. Se a Europa Ocidental se devesse afundar e perder em conflitos bizantinos -praza a Deus que não! -, nem por isso a marcha da humanidade para a frente deixaria de prosseguir, fazendo explodir os alicerces, estabelecendo uma nova força de civilização entre os dois recentes pólos da consciência ativa que são Chicago e Tachkent, ao mesmo tempo que as imensas multidões do Oriente; e depois da África, passarão pela forja.

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