segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

O Despertar dos Mágicos (5) O pressuposto idiota chamava-se Herbert George Wells.


Todos os dias, durante cinco anos, me sentei à secretária logo de madrugada, porque mais tarde esperavam-me longas horas de trabalho exterior. Sendo as coisas como são neste mundo a que não queremos fugir, a questão do tempo é uma questão de energia.

Louis Pauwels e Jacques Bergier. DIFEL

Mas ter-nos-iam sido necessários mais dez anos, muito dinheiro e uma numerosa equipa para podermos iniciar com êxito a nossa empresa. O que desejaríamos, se um dia pudéssemos dispor de algum dinheiro, arranjado aqui e além, era criar e dar vida a uma espécie de instituto onde os estudos, esboçados neste livro fossem continuados. Desejo que estas páginas nos auxiliem nesse sentido, se acaso têm algum valor.
Como diz Chesterton, a idéia que não procura tornar-se palavra é uma idéia inútil, e a palavra que não procura tornar-se ação é uma palavra inútil. Por diversas razões, as atividades exteriores de Bergier são numerosas; As minhas também, e de certa amplidão. Mas na minha infância vi pessoas morrerem de trabalho. Como consegue fazer tudo o que faz? Não sei, mas poderia responder pelas palavras do Zen: Caminho a pé e no entanto estou sentado sobre o dorso de um boi.
Inúmeras dificuldades, solicitações e incômodos de toda a espécie surgiram inopinadamente, chegando a fazer-me desesperar. Detesto a figura do criador grotescamente indiferente a tudo o que não seja a sua obra. Anima-me um amor mais vasto e a pequenez em,amor, mesmo que o preço seja uma bela obra parece-me uma contorção indigna. Mas devem compreender que nestas disposições, na confusão de uma vida largamente participante, corremos o risco do afogamento.
Ajudou-me um pensamento de Vicente de Paula: Os grandes propósitos são sempre atravessados por diversos obstáculos e dificuldades. A carne e o sangue dirão que é necessário abandonar a missão, evitemos portanto dar-lhes ouvidos. Deus jamais altera aquilo que uma vez decidiu, seja o que for que de contrário nos aconteça.
Naquele curso complementar de Juvisy, que evoquei no início deste prefácio, deram¬nos um dia para comentar a frase de V'tgny: Uma vida plena é um sonho de adolescente realizado na idade madura. Então eu sonhava aprofundar e honrar afilosofia de meu pai, que era uma filosofia do progresso. É, após bastantes fugas, oposições e desvios, o que tento fazer. Que a minha luta conceda paz às suas cinzas! Às suas cinzas hoje dispersas, como ele desejava, pensando, como eu penso também, que a matéria talvez não seja mais do que uma das máscaras entre todas as máscaras usadas pelo Grande Rosto.
PRIMEIRA PARTE
O FUTURO ANTERIOR
Homenagem ao leitor apressado. - Uma demissão em 1875. - As aves agourentas.
- Como o século XIX fechava as portas. - O fim das ciências e o recalcamento do fantástico. - Os desesperos de Poincaré. - Somos os nossos próprios avós. -Juventude!Juventude!
Como poderia um homem inteligente, hoje em dia, não se sentir apressado? Levante¬se, senhor, pois tem grandes coisas a fazer! Mas é necessário levantarmo-nos cada dia um pouco mais cedo. Acelerai os vossos aparelhos de ver, ouvir, pensar, recordar, imaginar. O nosso melhor leitor, para nós o mais precioso, devorar-nos-á em duas ou três horas. Conheço alguns homens que lêem com o máximo proveito cem páginas de matemática, filosofia, história ou arqueologia em vinte minutos. Os atores aprendem a colocar a voz. Quem nos ensinará a colocar a atenção? Há uma altura a partir da qual tudo muda de velocidade. Eu não sou neste trabalho, um desses escritores que desejam conservar o leitor a seu lado o mais tempo possível, entretendo-o.
Nada para o sono, tudo para o despertar. Despachem-se, escolham e partam! Lá fora há uma ocupação. Se for preciso, saltem capítulos, comecem por onde lhes apetecer, leiam em diagonal: isto é um instrumento com múltiplas aplicações, como a faca dos campistas. Por exemplo, se receiam chegar tarde demais ao âmago do assunto que lhes interessa, saltem estas primeiras páginas.
Saibam apenas que elas dão a conhecer a forma como o século XIX fechou as portas à realidade fantástica do homem, do mundo, do Universo; a maneira como o século XX as reabre, e como as nossas leis morais, as nossas filosofias e a nossa sociologia, que deviam ser contemporâneas do futuro, não o são, continuando acorrentadas a esse caduco século XIX. Não foi lançada a ponte entre a época das espingardas e a dos foguetões, mas pensa-se nisso. É para que se pense ainda mais que nós escrevemos. Apressados como estamos, não é sobre o passado que choramos, é sobre o presente, e com impaciência. Pronto. Já sabem o bastante para poderem folhear rapidamente este início se for necessário, e ler mais adiante.
A história esqueceu-se de o citar, o que é pena. Era diretor do Patent Office americano e foi ele que deu o sinal de alarme. Em 1875 pediu a sua demissão ao Secretário do Estado do Comércio. Ficar para quê? - dizia ele -, já não há mais nada para inventar.
Doze anos depois, em 1877, o ilustre químico Marcellin Berthelot escrevia: De futuro o Universo não terá mistério. Para obter do mundo uma imagem coerente, a ciência libertara-se totalmente. A perfeição pela omissão. A matéria era constituída por um certo número de elementos impossíveis de transformar uns nos outros. Mas enquanto Berthelot rebatia no seu sábio trabalho as fantasias alquímicas, os elementos, que o ignoravam, continuavam a sofrer alterações sob o efeito da radioatividade natural. Em 1852, o fenômeno fora descrito por Reichenbach, mas imediatamente rejeitado. Certos trabalhos, com data de 1870, evocavam um quarto estado da matéria constatado por ocasião da descarga dos gases. Mas era necessário recalcar qualquer mistério. Recalcamento: é a palavra. Há que fazer a psicanálise de uma certa forma de pensar do século XIX.
Um alemão, cujo nome era Zeppelin, de regresso ao seu país após ter combatido nas fileiras sulistas, tentou interessar alguns industriais pela direção dos balões. Desgraçado! Não sabe então que há três assuntos a respeito dos quais a Academia das Ciências francesa já não admite que se fale: a quadratura do círculo, o túnel sob a Mancha e a direção dos balões. Outro alemão, Herman Gaswindt, propunha construir máquinas voadoras mais pesadas do que o ar, propulsionadas por foguetões. Sobre o quinto manuscrito, o ministro da guerra alemão, depois de ouvir a opinião dos técnicos, escreveu, com a suavidade da sua raça e do seu cargo: Quando será que esta ave agourenta morrerá de vez!
Os Russos, esses tinham-se desembaraçado de outra ave agourenta, Kibaltchich,igualmente partidário das máquinas voadoras com foguetões. Pelotão de execução. É verdade que Kibaltchich se servira das suas qualidades de técnico para fabricar uma bomba que acabava de reduzir a pedacinhos o imperador Alexandre II.
Mas não havia motivos para expor no pelourinho o professor Langley, do Smithsonian Institute americano, o qual propunha máquinas voadoras acionadas pelos motores de explosão de fabrico muito recente. Desonraram-no, arruinaram-no, expulsaram-no do Smithsonian. O professor Simon Newcomb demonstrou matematicamente a impossibilidade do mais pesado que o ar. Alguns meses antes da morte de Langley, que morria de desgosto, um garoto inglês regressou um dia da escola a soluçar. Mostrara aos camaradas a fotografia de uma maquete, que Langley acabava de enviar a seu pai. Proclamara que os homens acabariam por voar. Os camaradas tinham feito troça. E o professor dissera: Meu amigo, será caso que o seu pai seja um idiota? O pressuposto idiota chamava-se Herbert George Wells.
Todas as portas se iam fechando com um ruído seco.
De fato, apenas restava pedir a demissão e o Sr. Brunetière podia falar tranquilamente, em 1895, de A falência da ciência.
O célebre professor Lippmann, nessa mesma altura, declarava a um dos seus alunos que a Física estava concluída, classificada arrumada, completa, e que seria melhor enveredar por outros caminhos. O aluno chamava-se Helbronner e viria a ser o maior professor de química-física da Europa, e a fazer notáveis descobertas relativas ao ar líquido, ao ultravioleta e aos metais coloidais. Moissan, químico genial, era obrigado à autocrítica e teria de declarar publicamente que não fabricara diamantes, que se tratava de um erro experimental. Inútil procurar mais longe: as maravilhas do século eram a máquina a vapor e a lâmpada de gás, jamais a humanidade faria uma invenção mais importante. A eletricidade? Simples curiosidade técnica. Um inglês louco, Maxwell, pretendera que por meio da eletricidade se poderiam produzir raios luminosos invisíveis: uma brincadeira. Alguns anos mais tarde, Ambrose Bierce poderia escrever no seu Dicionário do Diabo: Não se sabe o que é a eletricidade, mas em todo o caso ela ilumina melhor do que um cavalo-vapor e é mais veloz do que um bico de gás.
Quanto à energia, era uma entidade completamente independente da matéria, e sem o menor mistério. Era composta por fluidos. Os fluidos desempenhavam todas as funções, deixavam-se descrever por equações de grande beleza formal e satisfaziam o pensamento: fluido elétrico, luminoso, calorífico, etc. Uma progressão contínua e clara: a matéria com os seus três estados (sólido, líquido, gasoso) e os diversos fluidos energéticos, mais subtis ainda do que os gases. Bastava pôr de parte como fantasia filosófica as novas teorias do átomo para conservar uma imagem científica do mundo. Estava-se muito longe dos grãos de energia de Planck e Einstein.
O alemão Clausius demonstrava que nenhuma fonte de energia além do fogo era concebível. E a energia, se se conserva em quantidade, degrada-se em qualidade. O Universo foi construído um belo dia como um relógio. Parará quando a mola estiver frouxa. Nada a esperar, não há surpresas. Neste universo de destino revisível, a vida surgira por acaso e evoluíra simplesmente devido às regras das seleções naturais.

Imagem: blogheydog.blogspot.com