quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

O Despertar dos Mágicos (3). James Blish, escritor americano, diz em homenagem a Einstein que este último engoliu Newton vivo.


É exatamente o assunto que será desenvolvido neste grande volume. É portanto necessário, pensava eu antes de o iniciar, projetar a inteligência muito longe em direção ao passado e muito longe em direção ao futuro para compreender o presente.

Louis Pauwels e Jacques Bergier. DIFEL

Apercebi-me de que tinha razão para não amar, outrora, as pessoas que são simplesmente modernas. Somente eu condenava-as sem saber porquê. Na verdade, são condenáveis porque o seu espírito apenas ocupa uma fração demasiado pequena do tempo. Mal surgem, tornam-se anacrônicas. O que é preciso ser, para estar presente, é contemporâneo do futuro.
E o próprio passado remoto pode ser interpretado como uma ressaca do futuro. Desde
então, quando interrogo o presente, obtenho respostas cheias de estranhezas e de promessas.
James Blish, escritor americano, diz em homenagem a Einstein que este último engoliu Newton vivo. Admirável fórmula! Se o nosso pensamento se eleva para uma visão mais alta da vida, é vivas que ele deve ter absorvido as verdades do plano inferior. Tal é a certeza que adquiri no decorrer das minhas pesquisas. Isto pode parecer banal, mas quando se viveu no meio de idéias que pretendiam estar acima de tudo, como seja a sabedoria de Guénon e o sistema Gurdjieff, e que ignoravam ou desprezavam a maior parte das realidades sociais e científicas, esta nova forma de julgar modifica a direção e os anseios do espírito. As coisas inferiores, já Platão dizia, devem encontrar-se entre as coisas superiores, embora num estado diferente. Agora tenho a convicção de que qualquer filosofia superior, na qual não continuem a existir as realidades do plano que ela pretende ultrapassar, é uma impostura.
Eis a razão que me levou a fazer uma longa digressão pelos domínios da física, da antropologia, das matemáticas, da biologia, antes de tentar novamente fazer uma idéia do homem, da sua natureza, dos seus poderes, do seu destino. Outrora, eu procurava conhecer e compreender o todo do homem, e desprezava a ciência. Julgava o espírito capaz de atingir altitudes sublimes. Mas que sabia eu das suas diligências no domínio científico? Não revelara ele alguns desses poderes nos quais eu me sentia inclinado a acreditar? Dizia para mim próprio: é necessário ultrapassar a contradição aparente entre materialismo e espiritualismo. Mas o progresso científico não nos conduziria a isso? E, nesse caso, não seria meu dever informar-me? Não seria, no fim de contas, uma atitude mais racional, para um ocidental do século XX, do que agarrar num bordãode peregrino e dirigir-se descalço para a Índia? Não haveria à minha volta número suficiente de homens e de livros onde colher informações? Não deveria eu, antes de mais nada, perscrutar a fundo o meu próprio terreno? Se a reflexão científica, nos seus aspectos extremos, tendia para uma revisão das idéias admitidas a respeito do homem então era necessário que eu o soubesse. E havia ainda outra necessidade. Depois disso, qualquer idéia que eu fizesse sobre o destino da inteligência, sobre o sentido da aventura humana, não poderia ser dada como válida senão na medida em que não fosse contra o movimento do conhecimento moderno.
Descobri o eco desta meditação nas seguintes palavras de Oppenheimer:
Atualmente vivemos num mundo em que poetas, historiadores, filósofos sentem orgulho em dizer que não quereriam sequer prever a hipótese de aprender fosse o que fosse relativo as ciências: vêem a ciência ao fundo de um longo túnel, longo demais para que um homem precavido lá meta a cabeça. A nossa filosofia - se é que temos uma -é portanto francamente anacrônica, e, estou convencido, perfeitamente inadaptada à nossa época. Ora, para um intelectual bem preparado, não é mais difícil, se realmente o deseja, compreender o sistema de pensamento que rege a física nuclear do que penetrar na economia marxista ou no tomismo. Não é mais difícil aprender a teoria da cibernética do que analisar as causas da revolução chinesa ou a experiência poética de Mallarmé. Na verdade, recusamo-nos a esse esforço, não por recearmos o esforço, mas porque pressentimos que ele provocaria uma mudança na forma de pensar e de exprimir, uma revisão dos valores até aqui admitidos.
E no entanto, prossegue Oppenheimer, há muito tempo já que uma compreensão mais subtil a respeito da natureza do conhecimento humano e das relações do homem com o
Universo deveria ter sido prescrita.
Resolvi-me portanto a pesquisar o tesouro das ciências e das técnicas atuais, seguramente de forma inexperiente, com uma ingenuidade e uma admiração talvez perigosas, mas propícias ao desabrochar de comparações, de correspondências, de aproximações esclarecedoras. Foi então que recuperei um certo número de convicções que tivera, outrora, em relação ao esoterismo, à mística, à grandeza infinita do homem. Mas recuperei-as num estado diferente. Atualmente eram convicções que tinham absorvido com vida as formas e as obras da inteligência humana do meu tempo, aplicada ao estudo das realidades. Já não eram reacionárias, reduziam os antagonismos em vez de os excitar. Conflitos muito pesados, como sejam entre materialismo e espiritualismo, vida individual e vida coletiva, fundiam-se sob o efeito de uma alta temperatura. Neste caso, elas já não eram o resultado de uma opção, e portanto de uma ruptura, mas de um devir, de uma ultrapassagem, de uma renovação, por assim dizer, da Existência.
As reviravoltas das abelhas, tão rápidas e incoerentes, parecem desenhar no espaço figuras matemáticas precisas e constituem uma linguagem. Idealizo escrever um romance no qual todos os encontros que um homem tem durante a sua existência, fugazes ou importantes, conduzidos por aquilo a que chamamos o acaso, ou pela necessidade, desenhassem igualmente figuras, exprimissem ritmos e fossem o que talvez sejam: um discurso sabiamente planeado, dedicado a uma alma para que se realize totalmente, e de que esta não apreende, ao longo da vida, mais do que algumas palavras sem continuidade.
Por vezes julgo abranger o sentido deste bailado humano à minha volta, adivinhar que alguém me fala através do movimento dos seres que se aproximam, se detêm ou se afastam. Depois perco o fio à meada, como toda a gente, até à próxima grande e no entanto fragmentária evidência.
Acabava de abandonar Gurdjieff. Liguei-me a André Breton por uma intensa amizade. Foi por seu intermédio que conheci René Alleau, historiador de Alquimia. Um dia em que procurava um vulgarizador científico para uma coleção de obras da atualidade, Alleau apresentou-me Bergier. Tratava-se de questões alimentares, e eu fazia pouco caso da ciência, vulgarizada ou não. Ora esse encontro absolutamente fortuito viria a influenciar durante muito tempo a minha vida, a reunir e orientar todas as grandes influências intelectuais ou espirituais que se tinham exercido em mim, de Vivekananda a Guénon, de Guénon a Gurdjieff, de Gurdjieff a Breton, e conduzir-me-ia na idade madura ao ponto de partida: meu pai.
Em cinco anos de estudos e reflexões, no decorrer dos quais os nossos dois espíritos, bastante dessemelhantes, se sentiram sempre felizes em conjunto, parece-me que descobrimos um novo ponto de vista e rico em possibilidades. Era o que faziam, à sua maneira, os surrealistas há trinta anos atrás. Mas, ao contrário deles, não foi no sono e na infraconsciência que procuramos. Foi na outra extremidade: do lado da ultraconsciência e da vigília superior. Resolvemos chamar à escola que iniciávamos a escola do realismo fantástico. Ela não manifesta em coisa alguma preferência pelo insólito, o exotismo intelectual, o barroco, o pitoresco. O viajante caiu morto, ferido pelo pitoresco, disse Max Jacob. Nós não procuramos a fuga a este mundo. Não exploramos os arrabaldes longínquos da realidade, tentamos pelo contrário, instalar-nos no centro. Cremos que é no próprio centro da realidade que a inteligência, por muito pouco
excitada que seja, descobre o fantástico. Um fantástico que não convida a evasão, mas antes a uma mais profunda adesão.
É por falta de imaginação que os letrados, os artistas vão procurar o fantástico fora da realidade, entre as nuvens. Trazem apenas um subproduto. O fantástico, à semelhança das outras matérias preciosas, deve ser arrancado às entranhas da terra, do real. E a verdadeira imaginação é coisa muito diferente de uma fuga para o irreal. Nenhuma faculdade do espírito se afunda e penetra mais que a imaginação: é ela a grande mergulhadora.
Geralmente o fantástico é definido como uma violação das leis naturais, como a aparição do impossível. Para nós não é nada disso. O fantástico é uma manifestação das leis naturais, um resultado do contacto com a realidade quando esta nos chega diretamente, e não filtrada pelo véu do sono intelectual, pelos hábitos, os preconceitos, os conformismos.
A ciência moderna ensina-nos que para além do visível simples está o invisível complicado. Uma mesa, uma cadeira, o céu estrelado são na verdade radicalmente diferentes da idéia que deles fazemos: sistemas em rotação, energias em suspenso, etc. Era neste sentido que Valéry dizia que, no conhecimento moderno, o maravilhoso e
o positivo contraíram uma espantosa aliança.
O que sobressai claramente, como se verá, segundo espero, neste livro, é que esse contrato entre o maravilhoso e o positivo não é apenas válido no domínio das ciências físicas e matemáticas.