segunda-feira, 3 de outubro de 2011

O Despertar dos Mágicos (52). Os falsos messias que até agora vimos apenas fizeram prodígios de qualidade muito inferior


Deixamos ao leitor o cuidado de comparar as declarações de Mathers, chefe de uma pequena sociedade neopagã do fim do século XIX, e os ditos de um homem que, no momento em que Rauschning os coligia, se preparava para lançar o mundo numa aventura que provocou vinte milhões de mortos.

Louis Pauwels e Jacques Bergier. DIFEL

Pedimos--lhe que não despreze esta comparação e a sua lição, a pretexto de que a Golden Dawn e o nazismo são, aos olhos do historiador é razoável, coisas completamente diferentes. O historiador é razoável, mas a história não o é. São as mesmas crenças que animam os dois homens, as suas experiências fundamentais são idênticas, a mesma força os impele. Pertencem à mesma corrente de pensamento, à mesma religião. Essa religião ainda não foi verdadeiramente estudada. Nem a Igreja, nem o racionalismo, que é outra igreja, o permitiram. Nós entramos numa época do conhecimento na qual tais estudos se tornarão possíveis porque a realidade desvendará a sua faceta fantástica e idéias ou técnicas que nos pareciam anormais, desprezíveis ou odiosas, apresentar-se-ão úteis para a compreensão de um real cada vez menos tranqüilizador.
Não propomos ao leitor que estude uma filiação Rosa-Cruz-Bulwer Lytton-Litlle Mathers-Cowley-Hitler, ou qualquer outra filiação do mesmo gênero, onde também se encontraria Madame Blavatsky e Gurdjieff. O jogo das filiações é como o das influências em literatura. Acabado o jogo, o problema mantém-se. O do gênio em literatura. O do poder em História. A Golden Dawn não basta para explicar o grupo Tule, ou a Loja Luminosa, a Ahnenerbe. Existem, evidentemente, inúmeras interferências, passagens clandestinas ou declaradas de um grupo para outro. Não deixaremos de as assinalar. Isso é apaixonante, como toda a pequena história. Mas o nosso objetivo é a grande história.
Pensamos que essas sociedades, pequenas ou grandes, ramificadas ou não, conexas ou não, são as manifestações mais ou menos claras, mais ou menos importantes, de outro mundo diferente daquele em que vivemos. Digamos que é o mundo do Mal no sentido em que Machen o entendia. Mas também não conhecemos melhor o mundo do Bem. Vivemos entre dois mundos, tomando este no man's land pelo próprio planeta inteiro. O nazismo foi um dos raros momentos da história da nossa civilização em queuma porta se abriu sobre outra coisa, de forma ruidosa e visível. É bastante estranho que os homens finjam nada ter visto nem ouvido, além dos espetáculos e ruídos vulgares da desordem guerreira e política.
Todos estes movimentos: Rosa-Cruz moderna, Golden Dawn inglesa, Sociedade do Vril alemã (que nos conduzirão ao grupo Tule, no qual encontraremos Haushoffer, Hess, Hitler) tinham maiores ou menores ligações com a Sociedade Teosófica, poderosa e bem organizada. A teosofia juntava à magia neopagã uma solenidade oriental e uma terminologia hindu. Ou antes, abria os caminhos do Ocidente a um certo Oriente luciferino. Foi sob a designação de teosofismo que se acabou por descrever o vasto movimento de renascimento do mágico que impressionou muitas inteligências no início do século.
No seu estudo Le Théosophisme: histoire d'une pseudo-religíon, publicado em 1921, o filósofo René Guénon mostra-se profeta. Ele vê aumentarem os perigos por detrás da teosofia e os grupos iniciáticos neopagãos mais ou menos ligados à seita de Madame Blavatsky.
Escreve :
Os falsos messias que até agora vimos apenas fizeram prodígios de qualidade muito inferior, e aqueles que os seguiram provavelmente não eram muito difíceis de seduzir. Mas quem sabe o que o futuro nos reserva? Se pensarmos que esses falsos messias nunca foram senão instrumentos mais ou menos inconscientes entre as mãos daqueles que os suscitaram, e se nos reportarmos em especial à série de tentativas sucessivamente feitas pelos teosofistas, somos levados a pensar que tudo isso foram apenas ensaios, de certa maneira experiências, que se renovarão sob diversas formas até que o êxito seja alcançado, e que, entretanto, sempre conseguem provocar certa perturbação nos espíritos. Aliás, não acreditamos que os teosofistas, nem os ocultistas ou os espíritas sejam capazes de realizar, por eles próprios e com pleno êxito, tal empreendimento. Mas não haveria, atrás de todos esses movimentos, qualquer coisa de igualmente temível, que os seus chefes talvez nem conhecessem e de que eram, por sua vez, os simples instrumentos!
É também a época em que uma extraordinária personagem, Rudolph Steiner, desenvolve na Suíça uma sociedade de investigações que se baseia na idéia de que o Universo inteiro está contido no espírito humano e que esse espírito é capaz de uma atividade sem nada de comum com o que a esse respeito nos diz a psicologia oficial. De fato, certas descobertas steinerianas, na biologia (os adubos que não destroem o solo), na medicina (utilização dos metais que alteram o metabolismo) e sobretudo em pedagogia (funcionam hoje na Europa numerosas escolas steinerianas), enriqueceram consideravelmente a humanidade. Rudolph Steiner pensava que há uma forma negra e uma forma branca de investigação mágica. Achava que o teosofismo e as diversas sociedades neopagãs provinham do grande mundo subterrâneo do Mal e anunciavam uma era demoníaca. Apressava-se a estabelecer, no âmago do seu próprio ensinamento, uma doutrina moral incitando os iniciados a só utilizarem forças benéficas. Ele pretendia criar uma sociedade de benevolentes.
Não vamos pôr a questão de saber se Steiner tinha ou não razão, se era ou não senhor da verdade. O que nos impressiona é que as primeiras equipas nazistas parecem ter considerado Steiner o seu inimigo número um. Logo de início, os seus agentes dispersam por meio da violência as reuniões de steinerianos, ameaçam de morte os discípulos, obrigam-nos a fugir da Alemanha e, em 1924, na Suíça, em Dornach, deitam fogo ao centro edificado por Steiner. Os arquivos ardem, Steiner já não está em condições de trabalhar e morre de desgosto um ano mais tarde.
Até agora descrevemos os antecedentes do fantástico hitleriano. Agora, vamos realmente entrar no assunto. Floresceram duas teorias na Alemanha nazista: a teoria do Mundo gelado e a teoria da Terra oca. São duas explicações do Mundo e do homem que confirmam dados tradicionais, justificam mitos, verificam um certo número de verdades defendidas por grupos iniciáticos, desde os Teósofos a Gurdjieff. Mas essas teorias foram expressas com grande aparato político-científico. Quase expulsaram da Alemanha a ciência moderna tal como nós a consideramos. Foram aceites por muitos espíritos. Além disso, determinaram certas decisões militares de Hitler, influenciaram por vezes a marcha da guerra e contribuíram sem dúvida para a catástrofe final. Foi levado por essas teorias e especialmente pela idéia do dilúvio sacrificial que Hitler pretendeu arrastar todo o povo alemão para a destruição.
Não sabemos por que razão essas teorias, tão poderosamente afirmadas, às quais aderiram dezenas de homens e de grandes espíritos, pelas quais se fizeram grandes sacrifícios materiais e humanos, ainda não foram estudadas entre nós e continuam mesmo desconhecidas.
Ei-las a seguir, com a sua gênese, a sua história, as suas aplicações e a sua posteridade.
Um ultimato aos cientistas. - O profeta Horbiger Copérnico do século XX. - A teoria do mundo gelado. -História do sistema solar. - O fim do Mundo. - A Terra e as suas quatro luas. -Aparição dos gigantes. -As luas, os gigantes e os homens.
- A civilização da Atlântida. As cinco cidades de há 300 000 anos. - De Tiahuanaco às múmias tibetanas. - A segunda Atlântida. -O Dilúvio. - Degenerescência e cristandade. - Aproximamo-nos de outra era. - A lei do gelo e do fogo.
Numa manhã de Verão de 1925, o carteiro entregou uma carta em casa de todos os sábios da Alemanha e da Áustria. Apenas o tempo de a abrir: a idéia da ciência tranqüila morrera, os sonhos e os gritos dos condenados enchiam de súbito os laboratórios e as bibliotecas. A carta era um ultimato:
Agora é preciso escolher, estar conosco ou contra nós. Ao mesmo tempo que Hitler limpará a política, Hans Horbiger expulsará as falsas ciências. A doutrina do gelo eterno será o sinal da regeneração do povo alemão! Atenção! Coloquem-se do nosso lado antes que seja demasiado tarde!
O homem que assim ousava ameaçar os sábios, Hans Horbiger, tinha sessenta e cinco anos. Era uma espécie de profeta furioso. Usava uma imensa barba branca e tinha uma
letra capaz de desencorajar o melhor grafólogo. A sua doutrina começava a ser conhecida por um vasto público sob o nome de Well.
Era uma explicação do cosmos em contradição com a astronomia e as matemáticas oficiais, mas que justificava antigos mitos. No entanto Horbiger considerava-se a ele próprio como um sábio. A ciência
Mas a ciência devia mudar de via e de métodos objetiva é uma invenção perniciosa, um totem de decadência. Pensava, como Hitler, que a questão prévia a qualquer atividade científica é saber quem quer saber. Só o profeta pode reclamar a ciência, pois ele é, em virtude da inspiração, elevado a um nível superior de consciência. Era o que pretendia dizer o iniciado Rabelais ao escrever: Ciência sem consciência é apenas ruína da alma. Ele pretendia dizer: ciência sem consciência superior. Tinham falsificado a sua mensagem, em proveito de uma pequena consciência humanista primária. Quando o profeta quer saber, pode então tratar-se de ciência, mas é uma coisa diferente daquilo a que vulgarmente se chama ciência. Por isso Hans Horbiger não podia suportar a menor dúvida, o menor esboço de contradição. Agitava-o um furor sagrado: Têm confiança nas equações e não têm em mim!, berrava. De quanto tempo precisarão ainda para compreender que as matemáticas representam uma mensagem sem valor?
Na Alemanha do Herr Doktor, cientista e técnico, Hans Horbiger, com gritos e murros, abria caminho ao saber inspirado, ao conhecimento irracional, às visões. Não era o único; mas nesse domínio era o que mais se distinguia. Hitler e Himmler tinham-se unido a um astrólogo, mas não o divulgavam. Esse astrólogo chamava-se Führer. Mais tarde, após a tomada do poder, e como que para afirmar a sua vontade, não só de reinar, como de modificar a vida, eles próprios ousariam provocar os sábios. Nomeariam Führer plenipotenciário das matemáticas, da astronomia e da física.
De momento, Hans Horbiger organizava, nos domínios da inteligência, um sistema comparável ao dos agitadores políticos. Parecia dispor de grandes possibilidades financeiras. Agia como um chefe de partido. Criava um movimento, com serviços de informações, recrutamento e quotizações, propagandistas e agentes escolhidos entre a juventude hitleriana. As paredes estavam cobertas de cartazes, inundavam os jornais de editais, distribuíam panfletos em massa, organizavam-se meetings. As reuniões e conferências de astrônomos eram interrompidas pelos partidários que gritavam: Fora os sábios ortodoxos! Sigam Horbiger! Os professores eram molestados nas ruas. Os diretores dos institutos científicos recebiam cartões: Quando ganharmos, o senhor e os seus semelhantes irão mendigar pelos passeios. Homens de negócios, industriais, antes de contratarem um empregado obrigavam-no a assinar uma declaração: Juro ter confiança na teoria do gelo eterno. Horbiger escrevia aos grandes engenheiros: Ou aprenderá a acreditar em mim, ou será tratado como inimigo.
Em poucos anos, o movimento publicou três grandes volumes de doutrina, quarenta livros populares, centenas de brochuras. Editavam um magazine mensal de grande tiragem: A Chave dos Acontecimentos Mundiais. Já recrutara dezenas de milhares de aderentes. Viria a representar um papel importante na história das idéias e na própria história.
Ao princípio, os sábios protestavam, publicavam cartas e artigos para demonstrar as impossibilidades do sistema Horbiger. Depois alarmaram-se quando a Well tomou proporções de um vasto movimento popular. A seguir à subida ao poder de Hitler a resistência diminuiu, embora as universidades continuassem a ensinar a astronomia
ortodoxa. Sábios de renome aderiram à doutrina do gelo eterno, como, por exemplo, Lenard, que, juntamente com Roentgen, descobrira os raios X, o físico Oberth, e Stark, cujas investigações sobre a espectroscopia eram mundialmente conhecidas. Hitler protegia abertamente Horbiger e acreditava nele.
Os nossos antepassados nórdicos tornaram-se fortes devido à neve e ao gelo, declarava um panfleto popular da Well, e é esse motivo por que a crença no gelo mundial é a herança natural do homem nórdico. Um austríaco, Hitler, expulsou os políticos judeus, um segundo austríaco, Horbiger, expulsará os sábios judeus. Com a sua própria vida, o Führer provou que um amador é superior a um profissional. Foi preciso outro amador para nos dar uma compreensão completa do Universo.
Hitler e Horbiger os dois maiores austríacos, encontraram-se várias vezes. O chefe nazista escutava aquele sábio visionário com deferência. Horbiger não admitia que o interrompessem no seu discurso e respondia com firmeza a Hitler: Maul zu! Cala a boca! Levou ao extremo a convicção de Hitler: o povo alemão, no seu messianismo, era envenenado pela ciência ocidental, tacanha, debilitante, separada da carne e da alma. Criações recentes, como a psicanálise, a serologia e a relatividade eram máquinas de guerra dirigidas contra o espírito de Parsifal. A doutrina do gelo mundial forneceria o contraveneno necessário. Essa doutrina destruía a astronomia aceite: o resto do edifício desmoronar-se-ia em seguida por si próprio, e era preciso que se desmoronasse para que renascesse a magia, único valor dinâmico. Os teóricos do nacional-socialismo e os do gelo eterno reuniram-se em conferências: Rosenberg e Horbiger, rodeados pelos seus melhores discípulos.