domingo, 23 de outubro de 2011

O Despertar dos Mágicos (57). Hermes Trismegisto: O que está no céu é igual ao que está na Terra.


Não é por acaso que as Enéadas, de Plotino, foram cuidadosamente reeditadas na Alemanha e nos países ocupados. As Enéadas eram lidas nos pequenos grupos intelectuais místicos pró-alemães, durante a guerra, assim como liam os Índios, Nietzsche e os Tibetanos. Em frente de cada linha de Plotino. Por exemplo, na sua definição de astrologia, poderia colocar-se uma frase de Horbiger. Plotino fala das relações naturais e sobrenaturais do homem com o cosmos e de todas as partes do Universo entre elas:

Louis Pauwels e Jacques Bergier. DIFEL

Esse Universo é um animal único que contém em si todos os animais... Mesmo sem estar em contacto, as coisas agem e têm necessariamente uma ação à distância. . . O mundo é um animal único, e é esse o motivo por que é absolutamente necessário que esteja de acordo com ele próprio; não há acaso na sua vida, mas uma harmonia e uma ordem únicas.
E finalmente: Os acontecimentos deste mundo dão-se de acordo com as coisas celestes.
Mais perto de nós, William Blake, numa inspiração poético-religiosa, vê todo o Universo contido num grão de areia. É a idéia da reversibilidade do infinitamente pequeno e infinitamente grande e da unidade do Universo em todas as suas partes.
Segundo o Zohar: Tudo na Terra se passa como no céu.
Hermes Trismegisto: O que está no céu é igual ao que está na Terra.
E a antiga lei chinesa: As estrelas no seu percurso combatem pelo homem justo.
Chegamos às próprias bases do pensamento hitleriano.
Lamentamos que esse pensamento não tenha sido até aqui analisado desta forma. Contentaram-se em destacar os seus aspectos exteriores, as suas fórmulas políticas, as suas formas exotéricas. Não quer dizer, bem entendido, que procuremos revalorizar o nazismo, como é evidente. Mas esse pensamento inscreveu-se nos fatos. Agiu sobre os acontecimentos. Parece-nos que esses acontecimentos só se tornam verdadeiramente compreensíveis sob tal influência. Continuam a ser horríveis, mas, esclarecidos dessa forma, transformam-se noutra coisa além de dores infligidas aos homens por loucos e perversos. Dão à história uma certa amplitude; colocam-na de novo no nível em que deixa de ser absurda e merece ser vivida, mesmo no sofrimento, ao nível espiritual.
O que nós desejamos fazer compreender é que uma civilização totalmente diferente da nossa apareceu na Alemanha e se manteve durante alguns anos. Que uma civilização tão profundamente estranha se possa ter estabelecido de um momento para o outro não é, vendo bem, impensável. A nossa civilização humanista também se baseia num mistério. O mistério é que, entre nós, todas as idéias coexistem e que o conhecimento proporcionado por uma idéia acaba por beneficiar a idéia contrária.
Além disso, na nossa civilização tudo contribui para fazer compreender ao espírito que o espírito não é tudo. Uma conspiração inconsciente dos poderes materiais reduz os riscos, mantém o espírito dentro de limites nos quais o orgulho não é excluído, mas onde a ambição é moderada por um pouco de para que serve isso. No entanto, como Musil bem viu: Bastaria que se tomasse verdadeiramente a sério uma qualquer das idéias que influenciam a nossa vida, de tal forma que não subsistisse absolutamente nada que lhe fosse contrário, para que a nossa civilização deixasse de ser a nossa civilização. Foi o que se deu na Alemanha, pelo menos nas altas esferas dirigentes do socialismo mágico.
Estamos em relação mágica com o Universo, mas esquecemo-nos disso. A próxima mutação da raça humana criará seres conscientes dessa relação, homens-deuses. Essa mutação já faz sentir os seus efeitos em certas almas messiânicas que reatam laços com um passado muito longínquo e se recordam do tempo em que os gigantes influenciavam o percurso dos astros.
Horbiger e os seus discípulos, como já vimos, imaginam épocas de apogeu da humanidade: as épocas da lua baixa, no final do secundário e no final do terciário. Quando o satélite ameaça desmoronar-se sobre a Terra, quando gira a pouca distância do globo, os seres vivos estão no auge do seu poder vital e sem dúvida do seu poder espiritual. O rei-gigante, o homem-deus capta e orienta as forças psíquicas da comunidade ele dirige esse feixe de radiações de tal forma que o percurso dos astrosse mantenha e que a catástrofe seja adiada. É a função essencial do gigante-mago.
Em certa medida, ele ' mantém no seu lugar o sistema solar. Ele dirige uma espécie de central de energia psíquica: é ali o seu reino. Essa energia participa da energia cósmica. Desta forma, o calendário monumental de Tiahuanaco, que deve ter sido elaborado durante a civilização dos gigantes, não seria feito para registrar o tempo e os movimentos dos astros, mas para criar o tempo e para manter esses movimentos. Trata-se de prolongar ao máximo o período em que a lua está a alguns raios terrestres do globo, e pode ser que toda a atividade dos homens, sob a direção dos gigantes, fosse uma atividade de concentração da energia psíquica, a fim de preservar a harmonia das coisas terrestres e celestes. As sociedades humanas excitadas pelos gigantes são uma espécie de dínamos. Produzem forças que irão ter o seu papel no equilíbrio das forças universais. O homem, e mais especialmente o gigante é responsável por todo o cosmos. Há uma estranha semelhança entre esta visão e a de Gurdjieff. É sabido que este célebre taumaturgo afirmava ter aprendido, em centros iniciáticos do Oriente, certo número de segredos sobre as origens do nosso mundo e a respeito de grandes civilizações submersas há centenas de milhares de anos. Na sua famosa obra All and Everything, sob a forma imaginativa de que tanto gostava, pode ler-se:
Essa Comissão (dos anjos arquitetos criadores do sistema solar), tendo calculado todos os fatos conhecidos, chegou à conclusão de que, embora os fragmentos projetados para longe do planeta Terra se possam manter algum tempo na sua posição atual, todavia, no futuro, devido ao que se chama as deslocações tastartoonarianas, esses fragmentos satélites poderiam vir a mudar de posição e provocar grande número de calamidades irreparáveis. Portanto, os altos comissários resolveram tomar medidas para impedir essa eventualidade. A medida mais eficaz, segundo decidiram, seria que o planeta Terra enviasse constantemente a esses fragmentos-satélites, para os manter no seu lugar, as vibrações denominadas askokinns.
Portanto os homens acham-se dotados de um órgão especial, emissor de forçaspsíquicas destinadas a preservar o equilíbrio do cosmos. É aquilo a que vagamente chamamos a alma, e todas religiões não seriam mais do que a recordação degenerada dessa função primordial: participar do equilíbrio das energias cósmicas.
Na primeira América, recorda Denis Saurat, grandes iniciados executavam com raquetes e bolas uma cerimônia sagrada: as bolas descreviam no ar o mesmo percurso dos astros no céu.
Se um desajeitado deixava cair ou perder a bola, causava catástrofes astronômicas: matavam-no então, e arrancavam-lhe coração. A recordação dessa função primordial perde-se em lendas e superstições, desde o Faraó que, pela sua força mágica, faz encher o Nilo cada ano, até às orações do Ocidente pagão para fazer mudar o vento ou cessar o granizo e às práticas encantatórias dos feiticeiros polinésios para que a chuva caia. A origem de qualquer grande religião estaria nessa necessidade de que os homens das antigas épocas e os seus reis tinham consciência: manter aquilo a que Gurdjieff chama o movimento cósmico da harmonia geral.
Na luta entre o gelo e o fogo, que é a chave da vida universal, existem ciclos sobre a Terra. Horbiger afirma que sofremos, de seis mil em seis mil anos, uma ofensiva de gelo. Produzem-se dilúvios e grandes catástrofes. Mas no seio da humanidade dá-se, todos os setecentos anos, uma explosão de fogo. Quer dizer que todos os setecentos anos o homem retoma consciência da sua responsabilidade nesta luta cósmica. Volta a ser, no sentido total da palavra, religioso. Retoma contacto com as inteligências há muito submersas. Prepara-se para as futuras mutações. A sua alma adquire as dimensões do cosmos.
Recupera o sentido da epopéia universal. É novamente capaz de fazer a distinção entre o que vem do homem-deus e o que vem do homem-escravo e de rejeitar da humanidade o que pertence às espécies condenadas. Torna-se novamente implacável e flamejante. Volta a ser fiel à função para que os gigantes o destinaram. Não conseguimos compreender de que forma é que Horbiger justificava esses ciclos, e como adaptava essa afirmação ao conjunto do seu sistema. Mas Horbiger declarava, como Hitler, aliás, que a preocupação pela coerência é um vício mortal. O que conta é o que provoca o movimento. O crime também é movimento: um crime contra o espírito é um benefício. Enfim, Horbiger tivera consciência desses ciclos por inspiração. Isso ultrapassava em autoridade o raciocínio. A última explosão de fogo dera-se com a aparição dos cavaleiros tectônicos. Estávamos agora sob uma nova explosão. Esta coincidia com a fundação da Ordem Negra nazista.
Rauschning, que se sentia desorientado, pois não possuía nenhuma das chaves do pensamento do Führer e se mantinha um bom aristocrata humanista, anotava as frases que Hitler por vezes deixava escapar na sua presença.
Um tema que aparecia constantemente nas suas conversas era o que ele chamava a curva decisiva do mundo, ou a charneira do tempo. Dar-se-ia uma alteração no planeta que nós, os não iniciados, não podíamos compreender na sua amplitude, (A quarta lua reaproximar-se-á da Terra e a gravitação está alterada. As águas subirão, os seres conhecerão um período de gigantismo. Sob a ação dos raios cósmicos mais fortes produzir-se-ão mutações. O Mundo entrará numa nova fase atlantidiana). Hitler falava como um vidente. Ele imaginava uma mística biológica, ou, se assim o desejam, uma biologia mística que formava a base das suas inspirações. Ele inventara uma terminologia pessoal. A falsa rota do espírito era que o homem abandonasse a sua vocação divina. Adquirir a visão mágica parecia-lhe o objetivo da evolução humana. Acreditava que ele próprio estava no limiar desse saber mágico, fonte dos seus êxitos presentes e futuros. Um professor de Munique, (não de Munique, mas austríaco; trata¬se de Horbiger, a que Rauschning se refere de ouvido) dessa época escrevera, além de certo número de obras científicas, alguns ensaios bastante estranhos sobre o mundo primitivo, a formação das lendas, a interpretação dos sonhos entre os povos das primeiras épocas, sobre os seus conhecimentos intuitivos e uma espécie de poder transcendente que teriam exercido para modificar as leis da natureza. Havia também referência, no meio dessa baralhada, ao olho de Ciclope, o olho frontal que em seguida se atrofiara para formar a glândula pineal. Tais idéias fascinavam Hitler. Gostava de as aprofundar. Não sabia explicar a maravilha do seu próprio destino senão pela ação das forças ocultas. Atribuía a essas forças a sua vocação sobre-humana de anunciar à humanidade o novo evangelho.
A espécie humana, dizia ele, fazia desde a origem uma prodigiosa experiência cíclica. Era submetida a provas de aperfeiçoamento de um milênio a outro. O período solar, (O período sob a influência do Sol. Os períodos áureos ficam sob a influência da Lua, quando se aproxima da Terra), do homem atingia o seu termo: já se podiam vislumbrar as primeiras amostras do super-homem. Uma espécie nova se anunciava, que iria expulsar a antiga humanidade. Assim como, de acordo com a imortal sabedoria dos velhos povos nórdicos, o mundo devia ser constantemente rejuvenescido pelo desmoronar das eras extintas e pelo crepúsculo dos deuses, assim como os solstícios representavam nas velhas mitologias o símbolo do ritmo vital, não em linha direita e contínua, mas em espiral, assim também a humanidade progredia por uma série de saltos e de retornos.
Quando Hitler se me dirigia, prossegue Rauschning, tentava exprimir a sua vocação de anunciador de uma nova humanidade I em termos racionais e concretos. Dizia ele:
A criação não está terminada. O homem atinge nitidamente uma fase de metamorfose. A antiga espécie humana já entrou no estádio do enfraquecimento e da sobrevivência. A humanidade transpõe um escalão todos os setecentos anos, e o motivo da luta, que só se realizará muito mais tarde, é o advento dos Filhos de Deus. Toda a força criadora se concentrará numa nova espécie. As duas variedades evoluirão rapidamente em discordância. Uma desaparecerá e a outra desenvolver-se-á. Ultrapassará infinita mente o homem atual. . . Compreende agora o sentido profundo do nosso movimento nacional-socialista? Aquele que só compreende o nacional-socialismo como um movimento político pouco sabe. . .
Rauschning, da mesma forma que os outros, não reuniu a doutrina racial ao sistema geral de Horbiger. No entanto, em certa medida, está-lhe ligada. Ela faz parte do esoterismo nazista de que veremos, daqui a pouco, outros aspectos. Existia um racismo de propaganda: é aquele que os historiadores descreveram e que os tribunais, exprimindo a consciência popular, condenaram justamente. Mas havia outro racismo, mais profundo, e sem dúvida mais horrível. Esse ficou fora do entendimento dos historiadores e dos povos, e não podia haver uma linguagem comum entre esses racistas, por um lado, as suas vítimas e os seus juízes por outro.

Imagem: Tábua da Esmeralda – Hermes Trimegisto. [Tabula Esmeragdina]
akhen777.wordpress.com