quarta-feira, 18 de maio de 2011

O Despertar dos Mágicos (43). O Novo Vaticano, anunciou, encarregara¬ o de ser o advogado da canonização de Leibowitz


Frei Francis soltou um profundo suspiro e perdeu os sentidos, fulminado pela emoção. O Padre abençoou-o, depois reanimou-o e permitiu que pronunciasse os seus votos perpétuos: pobreza, castidade, obediência - e observância da regra. Pouco tempo depois, o novo professor da Ordem Albertiana dos Frades de Leibowitz foi afetado à sala dos copistas, sob a vigilância de um velho monge chamado Horner, e começou a ornamentar conscienciosamente as páginas de um tratado de álgebra com belas iluminuras representando ramos de oliveira e querubins bochechudos.

Louis Pauwels e Jacques Bergier. DIFEL

-Se assim o deseja - participou-lhe o velho Horner na sua voz cansada -, pode dedicar cinco horas por semana a qualquer ocupação à vossa escolha, sob reserva de aprovação, evidentemente. Caso contrário, utilizará essas horas de labor facultativo copiando a Summa Theological, assim como os fragmentos da Enciclopédia Britânnica que nos vieram parar às mãos. Depois de ter refletido no assunto, o jovem monge perguntou :
Ser-me-ia permitido consagrar essas horas a fazer uma bela cópia do documento de Leibowitz?
Não sei, meu filho - replicou Frei Horner franzindo o sobrolho. - Trata-se de um assunto a respeito do qual o nosso excelente Padre se mostra um pouco irritado, como sabe... Enfim, concluiu perante as súplicas do jovem copista, acedo apesar de tudo a dar-lhe o meu consentimento, pois é um trabalho que não lhe tomará muito tempo.

Frei Francis arranjou portanto o mais belo pergaminho que pôde encontrar e passou longas semanas a raspar e polir a pele com uma pedra lisa, até que conseguiu dar-lhe uma resplandecente brancura de neve. Depois consagrou outras semanas a estudar as cópias do precioso documento, até que decorou todo o traçado, todo o misterioso emaranhado de linhas geométricas e de símbolos incompreensíveis. Por fim, sentiu-se capaz de reproduzir de olhos fechados a espantosa complexidade do documento. Então, ainda passou várias semanas a revistar a biblioteca do mosteiro em busca de documentos que lhe permitissem fazer uma idéia, mesmo vaga, do significado do plano.
Frei Jeris, um jovem monge que também trabalhava na sala dos copistas e troçara muitas vezes dele e das suas milagrosas aparições no deserto, surpreendeu-o entregue a essa tarefa.
-Posso perguntar-lhe - disse inclinando-se-lhe por cima do ombro - o significado da menção Mecanismo de Controle Transitorial para Elemento 6-B?
É evidentemente o nome do objeto que o esquema representa - replicou Frei Francis num tom um pouco seco -, pois Frei Jeris apenas lera em voz alta o título do documento.
Sem dúvida. . . Mas então o que representa esse esquema?
-Mas... o mecanismo de controlo transitorial de um elemento 6-B, evidentemente!
Frei Jeris soltou uma gargalhada, e o jovem copista sentiu-se corar.
-Suponho - continuou que o esquema representa na realidade qualquer conceito abstrato. Na minha opinião, este Mecanismo de Controlo Transitorial devia ser uma abstração transcendental.
-E em que categoria de conhecimento classificaria a vossa abstração? - perguntou Jeris, sempre sarcástico.
-Bom, vejamos... -Frei Francis hesitou um momento, depois continuou: - tendo em conta os trabalhos que o Bem-Aventurado Leibowitz realizava antes de se dedicar à religião, parece-me que o conceito de que aqui se trata se referia a essa arte hoje esquecida e a que outrora se chamava eletrônica.
De fato, essa palavra figura nos textos escritos que nos foram transmitidos. Mas o que é que significa exatamente?
Os textos também no-lo dizem: o objetivo da eletrônica era a utilização do Eléctron, que um dos manuscritos em nosso poder, infelizmente em fragmentos, nos define como uma porção do Nada Negativamente Carregada. (Definição exata (dada pelo Pr. Léon Brillouin, depois retomada por Robert Andrews Mullikan, prêmio Nobel) . De fato é incompreensível, caso não se possua o contexto, isto é, toda a complexa estrutura da nossa física.)

A sua subtileza impressiona-me - extasiou-se Jeris.Posso ainda perguntar-lhe o que é a negação do nada?
Frei Francis, cada vez mais corado, embasbacou.
- A torção negativa do nada - prosseguiu o impiedoso Jeris - deve apesar de tudo ir dar a qualquer coisa de positivo. Portanto, Frei Francis, suponho que acabará por nos criar essa qualquer coisa, se nisso empenhar todos os seus esforços. Graças a si, não há dúvida de que acabaremos por possuir esse famoso Elétron. Mas que faremos então dele? Onde o meteremos? Em cima do altar-mor, talvez?
-Não faço a menor idéia - replicou Francis, que começava a enervar-se -; e também ignoro o que era um Elétron, assim como a utilidade que poderia ter. Tenho apenas a profunda convicção de que deve ter existido, numa determinada época, e é tudo.
Soltando um riso trocista, Jeris o iconoclasta deixou-o e regressou ao seu trabalho. Esse incidente entristecera Frei Francis, sem no entanto o afastar do projeto que acalentava. Assim que assimilou as informações que a biblioteca do Mosteiro lhe podia fornecer sobre a arte perdida em que Leibowitz se celebrizara, esboçou alguns anteprojetos do plano que queria reproduzir sobre o pergaminho.
O próprio esquema, visto que não conseguia penetrar-lhe o significado, seria reproduzido com todo o cuidado, tal como se apresentava no documento original. Para isso empregaria tinta preta; em contrapartida, utilizaria tintas de cor e caracteres de fantasia altamente decorativos para reproduzir os números e as legendas do plano. Decidiu igualmente quebrar a austera e geométrica monotonia da sua reprodução ornamentando-a com pombas e querubins, parras verdejantes, frutos dourados e aves multicolores - até mesmo de uma artificiosa serpente. Ao alto da obra desenharia uma representação simbólica da Santíssima Trindade, e em baixo, para fazer simetria, um desenho da cota de malha que servia de emblema à Ordem. O Mecanismo de Controlo Transitorial do Bem-Aventurado Leibowitz estaria desta forma dignificado como convinha e a sua mensagem dirigir-se-ia tanto aos olhos como ao espírito. Assim que terminou o esboço preliminar, submeteu-o timidamente à opinião de Frei Horner.
-Apercebo-me - disse o velho monge com certo ar de remorso - de que este trabalho o ocupará muito mais tempo '; do que pensei... Mas pouco importa: continue. O desenho é belo, realmente muito belo.

- Obrigado, meu irmão.
Frei Horner teve um piscar de olhos para o jovem religioso:
- Disseram-me - murmurou em tom de confidência que decidiram ativar as formalidades necessárias para a canonização do Bem-Aventurado Leibowitz. Portanto, é provável que atualmente o nosso bondoso Padre se sinta muito menos inquieto com aquilo que sabemos.

Evidentemente, todos estavam ao corrente dessa importante notícia. A beatificação de Leibowitz há muito que era um fato consumado, mas as últimas formalidades que fariam dele um santo podiam exigir ainda um bom número de anos. Além disso, havia sempre a recear que o Advogado do Diabo descobrisse qualquer motivo que tornasse impossível a Canonização projetada.
Ao fim de vários meses, Frei Francis começou finalmente a trabalhar sobre o seu belo pergaminho, traçando amorosamente os finos arabescos, as volutas complicadas e as elegantes iluminuras, realçadas por folhas douradas. Era um trabalho de grande fôlego que ele empreendera, um trabalho que exigia vários anos para ser levado a bom fim. Os olhos do copista, como é natural, foram submetidos a uma rude prova e por vezes viu-se obrigado a interromper o seu labor durante longas semanas, com receio de que um descuido motivado pela fadiga fosse estragar todo conjunto. Todavia, pouco a pouco, a obra criava forma, e apresentava uma beleza tão grandiosa que todos os monges da abadia se empenhavam em a contemplar com admiração. Apenas o céptico Frei Jeris continuava a criticar.
Pergunto a mim próprio, dizia ele, porque não emprega o tempo num trabalho útil.
Quanto a ele, era nesse gênero de trabalhos que ocupava o seu tempo, visto que fabricava abajours de pergaminho ornamentado para as candeias de azeite da capela. Entretanto, o velho Frei Horner adoeceu e começou a enfraquecer rapidamente. Nos primeiros dias do Advento, os seus irmãos cantaram em sua intenção a Missa dos Defuntos e confiaram-lhe os despojos à terra original. O Abade escolheu Frei Jeris para suceder ao defunto na vigilância dos copistas e o invejoso imediatamente aproveitou o fato para ordenar a Frei Francis que abandonasse a sua obra-prima. Já era tempo, disse-lhe, de acabar com aquelas infantilidades; agora era altura ' de fabricar abajours. Frei Francis colocou em lugar seguro o fruto das suas vigílias e obedeceu sem recalcitrar.
Enquanto pintava os seus abajours, consolava-se pensando que todos somos mortais... Um dia, sem dúvida, a alma de Frei Jeris iria juntar-se no Paraíso à alma de Frei Horner, pois no fim de contas a sala dos copistas nunca fora mais do que a antecâmara da Vida Eterna. Então, se essa fosse a vontade de Deus, ser-lhe-ia permitido continuar a obra-prima interrompida. . . No entanto, a divina Providência encarregou-se do caso muito antes da morte de Frei Jeris. Logo no Verão seguinte apresentou-se à porta do mosteiro um bispo que cavalgava montado numa mula, acompanhado por um numeroso séqüito de dignitários eclesiásticos. O Novo Vaticano, anunciou, encarregara¬ o de ser o advogado da canonização de Leibowitz e vinha recolher junto do Padre Abade todas as informações susceptíveis de o auxiliar na sua missão; em particular, desejava esclarecimentos a respeito de uma aparição terrestre do Bem-Aventurado, com que fora agraciado um certo Frei Francis Gerard de L'Utah.
Imagem: seboeacervo.blogspot.com