segunda-feira, 16 de maio de 2011

O Despertar dos Mágicos (41). dali para o futuro, qualquer propagador de notícias milagrosas sofreria um castigo.


Dos outros dois papéis que a caixa continha, um, apertado em forma de pequeno rolo, ameaçava desfazer-se se se tentasse desenrolá-lo. Frei Francis só lhe conseguiu decifrar duas palavras: Aposta Mútua, z e voltou a colocá-lo na caixa para o examinar mais tarde, depois de submetido a um tratamento conservador apropriado.

Louis Pauwels e Jacques Bergier. DIFEL

O segundo documento compunha-se de um grande papel dobrado várias vezes, e tão quebradiço no sítio dos vincos que o religioso teve de contentar-se em afastar cuidadosamente as pontas para lançar uma olhadela.
Era um plano, um emaranhado confuso de linhas brancas, traçadas sobre fundo azul!
Um novo arrepio percorreu a espinha de Frei Francis: era um azul que ali estava - um desses documentos antigos e raríssimos que os arqueólogos tanto apreciavam e que os sábios e intérpretes especializados encontravam por vezes tanta dificuldade em decifrar!
Mas a inacreditável bênção que semelhante descoberta representava não ficava por ali: entre as palavras traçadas num dos ângulos inferiores do documento, eis, de fato, que Frei Francis descobre subitamente o próprio nome do fundador da sua ordem: o Bem-Aventurado Leibowitz em pessoa!
As mãos do jovem monge começaram a tremer tanto, na sua alegria, que correu o risco de rasgar o inestimável papel. As últimas palavras que o peregrino lhe dirigira voltaram¬lhe então à memória: Oxalá encontres a Voz que procuras! Era de fato uma voz que acabava de descobrir, uma voz com V maiúsculo, semelhante ao que as asas de uma pomba formam quando esta desliza em direção à Terra vinda do Céu, um V maiúsculo como o de Trere dignum, ou Vidi aquam, um V majestoso e solene, como os que ornamentam as grandes páginas do Missal - em suma, um V como o de Vocação!
Após um último olhar ao papel azul para ter a certeza de que não sonhava, o religioso entoou as suas ações de graças: a Beate Leibowitz, ora pro me... Sancte Leibowitz, exaudi me... - e esta última fórmula não deixava de revelar certa audácia, visto que o fundador da Ordem ainda aguardava ser canonizado!
Esquecido das prescrições do Abade, Frei Francis ergueu-se de um salto e investigou o horizonte do lado do sul, na direção em que seguira o velho caminhante com tanga de juta. Mas o peregrino há muito que desaparecera. . . Era com certeza um anjo do Senhor, pensou Frei Francis, e - quem sabe? - talvez o Bem-Aventurado Leibowitz em pessoa. . . Não lhe indicara ele o local onde descobrira o milagroso tesouro, aconselhando-o a deslocar determinada pedra no momento em que lhe dirigia proféticas despedidas?. . .
O jovem frade continuou mergulhado nas suas exaltantes reflexões até à hora em que o Sol-posto ensangüentou as montanhas, enquanto as sombras do crepúsculo o rodeavam. Só então a noite que se aproximava lhe interrompeu a meditação. Disse para consigo que a inestimável dádiva que acabava de receber certamente não o colocaria ao abrigo dos lobos, pelo que se apressou a terminar a muralha protetora. Depois, como as estrelas apareciam, reanimou o lume e juntou as pequenas bagas cor de violeta dos cactos, que constituíam a sua refeição. Era este o seu único alimento, à exceção da mão-cheia de trigo seco que um padre lhe levava todos os domingos. Por isso acontecia-lhe lançar um olhar ávido aos lagartos que percorriam os rochedos vizinhos - e os seus sonhos eram frequentemente povoados de pesadelos gulosos.
Naquela noite, no entanto, a fome passara para o segundo plano das suas preocupações. O que teria desejado, antes de mais, era dirigir-se a toda a pressa à abadia para participar aos seus irmãos o maravilhoso encontro que tivera e a milagrosa descoberta que fizera. Mas, evidentemente, era problema que nem se podia pôr. Quer tivesse ou não vocação, teria de permanecer ali até ao fim da Quaresma e continuar a agir como se nada de extraordinário lhe tivesse acontecido.
Há-de construir-se uma catedral neste sítio, pensou enquanto meditava junto do fogo. E já a imaginação o fazia ver o majestoso edifício que surgiria das ruínas da antiga aldeia, com os seus sinos altaneiros, que poderiam ser vistos de vários quilômetros em redor.
Acabou por adormecer e, quando acordou em sobressalto só uns vagos tições ardiam ainda na fogueira quase extinta. Teve de súbito a sensação de que não estava só naquele deserto. Semicerrando os olhos, esforçou-se por atravessar a escuridão que o envolvia e foi então que distinguiu, atrás das últimas brasas da sua modesta fogueira, as pupilas de um lobo que brilhavam nas trevas. Soltando um grito de pavor, o jovem monge correu a encerrar-se no seu túmulo de pedras secas. O grito que acabava de soltar, pensou ele enquanto se escondia, muito trêmulo, no seu refúgio, aquele grito não constituía, na verdade, uma infração à lei do silêncio... E começou a acariciar a caixa de metal que apertava junto ao coração, enquanto rezava para que a Quaresma terminasse rapidamente.
À sua volta, as pedras do esconderijo eram arranhadas por garras. . .
Todas as noites os lobos rondavam o miserável abrigo do frade, enchendo as trevas com os seus uivos de morte, enquanto durante o dia, ele era atacado por autênticos pesadelos provocados pela fome, pelo calor e pelas impiedosas queimaduras do sol. Frei Francis ocupava os dias a apanhar madeira para queimar e também a rezar, empenhando-se em martirizar a própria impaciência de ver finalmente chegar o Sábado Santo que marcaria o fim da Quaresma e do seu jejum.
No entanto, quando esse bendito dia surgiu enfim, o jovem monge estava demasiado enfraquecido pelas privações para arranjar forças para se alegrar. Vencido por uma enorme fadiga, arranjou a sacola, pôs o capuz na cabeça para se preservar do sol e colocou debaixo do braço a preciosa caixa. Com menos uma quinzena de quilos em relação à Quarta-Feira de Cinzas, e num andar vacilante, iniciou o percurso de dez quilômetros que o separavam da abadia... Esgotado, deixou-se cair no momento em que atingia a porta; os frades que o recolheram e prodigalizaram os primeiros cuidados à sua pobre carcaça desidratada contaram que, enquanto delirava, não cessara de falar num anjo com tanga de juta e de invocar o nome do Bem-Aventurado Leibowitz, agradecendo-lhe com fervor o fato de lhe ter revelado as relíquias sagradas, assim como a Aposta Mútua. A notícia desses vaticínios espalhou-se pela comunidade e chegou rapidamente aos ouvidos do Padre Abade, responsável pela disciplina geral, o qual logo se enfureceu. Tragam-mo aqui!, disse num tom capaz de dar asas aos menos solícitos. Enquanto esperava o jovem monge, o Abade passeou de um lado para o outro, ao mesmo tempo que a cólera o invadia. Não era, evidentemente, contra os milagres, longe disso. Embora fossem dificilmente compatíveis com as necessidades da administração interna, o bom Padre acreditava piamente em milagres, visto que constituíam a própria base da sua fé. Mas achava que esses milagres deviam pelo menos ser devidamente controlados, verificados e autenticados nas formas prescritas, segundo as regras estabelecidas. Depois da recente beatificação do venerado Leibowitz, de fato, aqueles jovens loucos dos monges resolviam descobrir milagres em toda a parte.
Por compreensível que na verdade fosse essa propensão para o maravilhoso, nem por isso era menos intolerável. Evidentemente, toda a ordem monástica digna desse nome tem o maior interesse em contribuir para a canonização do seu fundador, reunindo com
o maior zelo todos os elementos susceptíveis de concorrerem para o fato, mas há limites! Ora, de há uns tempos a essa parte, o Abade constatara que o seu rebanho de monges tinha tendência para escapar à sua autoridade, e o apaixonado zelo que os jovens frades punham em descobrir e recensear os milagres metera de tal forma a ridículo a Ordem Albertiana de Leibowitz que até no Novo Vaticano já troçavam do fato...
Por isso o Padre Abade estava bem decidido a ser severo: dali para o futuro, qualquer propagador de notícias milagrosas sofreria um castigo. No caso de se tratar de um falso milagre, o responsável pagaria dessa forma o preço da indisciplina e da credulidade; no caso de um milagre autêntico, revelado por verificações ulteriores, pelo contrário, o castigo sofrido constituiria a penitência obrigatória que devem sofrer todos aqueles que beneficiam da dádiva de uma graça.
No momento em que o jovem noviço bateu timidamente à porta, o bom Padre, que chegara ao final das suas reflexões, encontrava-se portanto na disposição que convinha para a circunstância, um estado de espírito realmente feroz, dissimulado sob a mais hipócrita das aparências.
Entre, meu filho - disse numa voz suave.
Mandou-me chamar, meu Reverendo Padre? – inquiriu o noviço, e teve um sorriso encantado ao descobrir a sua caixa de metal em cima da mesa do Abade.
Mandei - respondeu o Padre, que pareceu hesitar um instante.
Mas - prosseguiu - é talvez preferível que, daqui em diante, seja eu que o procure, visto que se tem transformado numa personagem tão célebre?
-Oh!, não, meu Padre! - exclamou Frei Francis, escarlate e meio sufocado.
- Tem dezessete anos, e é visível que não passa de um imbecil.
Sem dúvida alguma, meu Reverendo.
- Nessas condições, quer dizer-me por que insensato motivo se acha digno de entrar para as Ordens?
- Não tenho absolutamente nenhum motivo, ó meu venerável mestre. Não passo de um miserável pecador cujo orgulho não tem perdão.
-E ainda aumentas os teus pecados -rugiu o Abade -, supondo o teu orgulho tão grande que é imperdoável!
- É verdade, meu Padre. Não passo de um verme.
Imagem: thiagodaisy.wordpress.com