terça-feira, 17 de maio de 2011

O Despertar dos Mágicos (42). Mas, para aqueles bons religiosos, bastava saber que eram senhores do Conhecimento


O Abade teve um sorriso glacial e recuperou a sua calma vigilante.
- Está então disposto a desdizer-se - continuou - e a renegar todas as divagações que proferiu sob o efeito da febre a propósito de um anjo que lhe teria aparecido e lhe teria confiado este. . . (designou com um gesto desdenhoso a caixa de metal) . . . esta miserável pacotilha?

Louis Pauwels e Jacques Bergier. DIFEL

Frei Francis teve um sobressalto e fechou receosamente os olhos.
- Eu. . . receio muito não o poder fazer, ó meu mestre disse num sopro.
-O quê?!
Não posso negar o que os meus olhos viram, meu Reverendo Padre.
Sabe o castigo que o espera?
Sei. meu Padre.
Muito bem. Prepare-se portanto para o receber. Com um suspiro resignado, o noviço arregaçou a longa túnica até à cintura e inclinou-se sobre a mesa. Tirando então da gaveta uma sólida vara de nogueira, o bom Padre vergastou-lhe dez vezes seguidas o traseiro. (Após cada golpe, o noviço pronunciava com submissão o Deo gratias! merecido pela lição de humildade que dessa forma lhe era concedida).
E agora - perguntou o Abade, recompondo as mangas -, está disposto a desdizer-se?
Meu Padre, não posso fazê-lo.

Voltando-lhe bruscamente as costas, o padre ficou por momentos silencioso.
-Muito bem - disse por fim numa voz mordaz. -Seja como o deseja. Mas não conte tomar ordens solenes este ano, ao mesmo tempo que os outros.
Banhado em lágrimas, Frei Francis regressou à sua cela.
Os outros noviços receberiam o trajo monacal, ao passo que ele, pelo contrário, teria de esperar ainda um ano e passar outra Quaresma no deserto, no meio dos lobos, em busca de uma vocação que no íntimo sabia que lhe fora amplamente concedida. . . No decorrer das semanas que se seguiram, o desgraçado teve pelo menos a consolação de constatar que o Abade não tivera inteiramente razão ao classificar o conteúdo da caixa de metal de desprezível pacotilha. Aquelas relíquias arqueológicas era evidente que tinham despertado vivo interesse entre os Frades que dedicavam muito tempo à sua limpeza e arrumação; esforçavam-se, igualmente, por restaurar os documentos escritos e por lhes decifrar o sentido. Corria mesmo o boato, na comunidade, de que Frei Francis descobrira realmente as verdadeiras relíquias do Bem-Aventurado Leibowitz - particularmente sob a forma do documento, ou azul, que tinha o seu nome e sobre o qual se viam ainda algumas manchas acastanhadas. (Sangue de Leibowitz, talvez? O Padre Abade era de opinião que se tratava de sumo de maçã) . Em todo o caso, o documento tinha a data do Ano da Graça de 1956, o que parecia provar que era contemporâneo do venerando fundador da Ordem.
Aliás sabia-se muito pouco a respeito do Bem-Aventurado Leibowitz; a sua história perdia-se na bruma do passado, que ainda mais obscurecia a lenda. Afirmava-se simplesmente que Deus, para pôr à prova o gênero humano, ordenara aos sábios de outrora entre os quais figurava o Bem-Aventurado Leibowitz - que aperfeiçoassem certas armas diabólicas, graças às quais o Homem, no espaço de algumas semanas, conseguira destruir o essencial da civilização, suprimindo ao mesmo tempo grande número dos seus semelhantes. Dera-se então o Dilúvio de Chamas, seguido da peste e de flagelos diversos, e finalmente da loucura coletiva que viria a conduzir à Idade da Simplificação. No decurso desta última época, os derradeiros representantes da humanidade, invadidos por um furor vingativo, cortaram às postas todos os politiqueiros, técnicos e homens de ciência; além disso, queimaram todas as obras e documentos que teriam permitido enveredar novamente pelas vias da destruição científica. Naquele tempo perseguiram com um ódio sem precedentes todos os escritos, todos os homens cultos - a tal ponto que a palavra papalvo acabara por ser sinônimo de cidadão honesto, íntegro e virtuoso.
Para escapar à legítima cólera dos papalvos sobreviventes, muitos sábios e eruditos tentaram refugiar-se no seio da Nossa Madre Igreja. De fato Ela acolheu-os, cobriu-os com trajos monacais e esforçou-se por os subtrair às perseguições da população. Aliás este processo nem sempre resultou, pois alguns mosteiros foram invadidos, os arquivos e os textos sagrados lançados à fogueira, enquanto os que ali se tinham refugiado eram enforcados. No que se refere a Leibowitz, encontrara asilo entre os Cistercienses. Tendo tomado ordens, tornou-se padre e, ao fim de doze anos, foi-lhe concedida autorização para fundar uma nova ordem monástica, a dos Albertianos, assim chamada em memória de Alberto o Grande, professor do famoso São Tomás de Aquino e padroeiro de todos os cientistas. A congregação recentemente criada devia dedicar-se à proteção da cultura, tanto sagrada como profana, e os seus membros teriam como obrigação principal transmitir às gerações seguintes os raros livros e documentos que tinham escapado à destruição e que os obrigavam a manter escondidos. Finalmente certos papalvos reconheceram em Leibowitz um antigo sábio e condenaram-no à forca. No entanto, a Ordem que fundara nem por isso deixou de funcionar e os seus membros, logo que foi novamente dada autorização de possuir documentos escritos, puderam mesmo dedicar-se a transcrever de memória numerosas obras do passado. Mas sendo a memória desses analistas forçosamente limitada (aliás, eram poucos os que possuíam cultura suficiente para compreender as ciências físicas), os frades copistas consagravam a maior parte dos seus esforços aos textos sagrados assim como às obras referentes às belas-letras ou às questões sociais. Por esse motivo, de todo o imenso repertório de conhecimentos humanos apenas sobreviveu uma insignificante coleção de pequenos tratados manuscritos.
Após seis séculos de obscurantismo, os monges continuavam a estudar e a recopiar a sua pobre colheita. Aguardavam... Evidentemente, a maior parte dos textos que tinham salvado não lhes serviam para nada -mantendo-se, alguns deles, rigorosamente incompreensíveis para os monges. Mas, para aqueles bons religiosos, bastava saber que eram senhores do Conhecimento: saberiam salvá-lo e transmiti-lo, como exigia o seu dever - e isto, mesmo que o obscurantismo universal viesse a durar dez mil anos... Frei Francis Gérard de L'Utah voltou para o deserto no ano seguinte e ali fez, solitariamente, o seu jejum. Mais uma vez regressou ao mosteiro fraco e emagrecido, e novamente foi convocado pelo Padre Abade, que lhe perguntou se estava finalmente decidido a renegar as suas extravagantes declarações.
Não posso, meu Padre - repetiu ele -, não posso negar o que vi com os meus próprios olhos.
E o Abade, uma vez mais, o castigou; uma vez mais, também, adiou para uma data ulterior a sua entrada nas ordens... No entanto, os documentos contidos na caixa de metal tinham sido confiados a um seminário, para estudo, depois de tirada uma cópia. Mas Frei Francis continuava a ser um simples noviço, um noviço que ainda sonhava
com o magnífico santuário que um dia seria edificado no local da sua descoberta. . .
Diabólica teimosia!, explodia o Abade. Se o peregrino de que aquele idiota se obstina a falar se dirigia, como diz, para a nossa abadia, como seria possível que nunca o tivéssemos visto?... Um peregrino com tanga de juta, hã?!
No entanto, essa história da tanga de juta não deixava de inquietar o bom do Padre. De fato, segundo a tradição, o Bem - Aventurado Leibowitz, na altura do enforcamento, levara um saco de juta na cabeça, à guisa de capuz.
Frei Francis manteve-se noviço durante sete anos e viveu no deserto sete Quaresmas sucessivas. Com esse regime tornou-se mestre na arte de imitar o uivo dos lobos e aconteceu várias vezes, por questão de brincadeira, arrastar a matilha de feras até aos muros da abadia, por noites sem Lua... Durante o dia contentava-se em trabalhar nas cozinhas e esfregar as lajes do mosteiro, ao mesmo tempo que continuava a estudar autores antigos.
Um belo dia chegou à abadia um enviado do seminário montado num burro, portador de uma notícia muito agradável. Está provado, anunciou ele, que os documentos encontrados perto daqui pertencem realmente à data indicada e, especialmente, que o azul se relaciona de certa maneira com a carreira do vosso bem-aventurado fundador. Enviaram-no ao Novo Vaticano, que o estudará mais profundamente.
Nesse caso - perguntou o Abade -, poder-se-ia tratar, no fim de contas, de uma autêntica relíquia de Leibowitz? Mas o mensageiro, pouco disposto a comprometer-se, limitou-se a arquear as sobrancelhas.
Diz-se que Leibowitz era viúvo, quando da sua ordenação
Murmurou. - Evidentemente, se fosse possível descobrir o nome da sua defunta esposa. . .

Foi então a vez do Abade, ao lembrar-se da pequena nota onde figurava um nome de mulher, de erguer também as sobrancelhas. . .
Pouco depois mandou chamar Frei Francis.
-Meu filho - declarou-lhe num tom positivamente radiante -, creio chegada para si a altura de poder finalmente tomar ordens solenes. Que me seja permitido felicitá-lo pela paciência e firmeza de opiniões de que não tem cessado de nos dar provas. Evidentemente, nunca mais falaremos do seu... hum... encontro com um hum! -caminhante do deserto. meu filho, é um bom papalvo, e pode ajoelhar-se se deseja que
o abençoe.