segunda-feira, 25 de abril de 2011

O Despertar dos Mágicos (40). restos da lendária machina analytica, anterior ao Dilúvio de Chamas.


Sagrada é a aventura indefinidamente recomeçada, e no entanto indefinidamente progressiva, da inteligência sobre a Terra. E sagrado é o olhar que Deus lança sobre essa aventura, o olhar sob o qual se encontra suspensa essa aventura.
Permitem que terminemos este estudo, ou antes, este exercício, com uma história? É uma narrativa de um jovem escritor americano, Walter M. Miller. Quando a descobrimos, Bergier e eu, sentimos uma profunda alegria.

Louis Pauwels e Jacques Bergier. DIFEL

Oxalá os nossos leitores tenham a mesma sensação!
Um cântico para São Leibowitz
Se não fosse aquele peregrino que de repente lhe apareceu mesmo a meio do deserto, onde prosseguia o jejum ritual da Quaresma, Frei Francis Gérard de L'Utah com certeza nunca teria descoberto o documento sagrado. Era aliás a primeira vez que tinha oportunidade de ver um peregrino com uma tanga a envolvê-lo, de acordo com a melhor tradição, mas um simples olhar bastou para convencer o jovem monge de que a personagem era autêntica. O peregrino era um velho desengonçado que coxeava apoiando-se ao clássico bordão; a barba selvagem estava manchada de amarelo à volta do queixo e transportava um pequeno odre ao ombro. Com a cabeça coberta por um amplo chapéu e sandálias nos pés, tinha os rins apertados por um pedaço de pano de sacos, bastante sujo e esfarrapado. Era o único vestuário que usava e assobiava (falso) enquanto descia a pista pedregosa do norte. Parecia dirigir-se para a abadia dos frades de Leibowitz, situada a uma dezena de quilômetros na direção do sul.
Assim que avistou o jovem monge no seu deserto de pedras, o peregrino cessou de assobiar e começou a examiná-lo com curiosidade. Quanto a Frei Francis, absteve-se de quebrar a lei do silêncio imposta pela Ordem para os dias de jejum; afastando rapidamente o olhar, continuou portanto a trabalhar, trabalho que consistia em erguer uma muralha de pedras grandes para proteger dos lobos a sua provisória habitação.
Um pouco enfraquecido após dez dias de um regime exclusivamente composto por bagas de cactos, o jovem monge sentia que a cabeça lhe andava à roda enquanto continuava o trabalho. Há já algum tempo que a paisagem parecia bailar-lhe diante dos olhos e via manchas negras flutuarem à sua volta; por isso, a princípio, perguntou a si próprio se aquela barbuda aparição não seria uma simples miragem provocada pela fome. . . Mas o peregrino não tardou em dissipar-lhe as dúvidas:
- Ola allay!, exclamou alegremente, numa voz agradável e melodiosa.
Visto que a lei do silêncio o impedia de responder, o jovem monge limitou-se a esboçar um sorriso, sem erguer o rosto. Este caminho vai realmente para a abadia?, continuou então o vagabundo.
Sempre sem levantar os olhos, o noviço acenou afirmativamente com a cabeça, depois inclinou-se para apanhar um pedaço de pedra branca, semelhante a giz.
O que é que aqui faz, no meio de todos estes rochedos?, continuou o peregrino aproximando-se dele.
Rapidamente, Frei Francis ajoelhou-se para riscar sobre uma grande pedra lisa as palavras Solidão e Silêncio. Se soubesse ler - o que aliás era pouco provável, considerando as estatísticas - dessa forma o peregrino poderia compreender que a sua simples presença era um motivo de pecado para o penitente, e com certeza se retiraria sem insistir.
Ah, bom, disse o barbudo.
Ficou um instante imóvel, passeando o olhar em volta depois bateu com o bordão numa grande rocha:
Olhe, disse, aqui está uma que lhe convinha... Então boa sorte, e oxalá encontre a Voz que procura!
De momento, Frei Francis não compreendeu que o estrangeiro quisera dizer Voz com V maiúsculo; pensou simplesmente que o velho o tomara por um surdo-mudo. Depois de lançar um rápido olhar ao peregrino que se afastava assobiando novamente, apressou¬se a dedicar-lhe uma bênção silenciosa para que fizesse boa viagem, depois regressou ao seu trabalho de pedreiro, desejoso de construir um recinto fechado em forma de caixão no qual se pudesse estender para dormir sem que a sua carne servisse de atrativo para os lobos devoradores.
Passou-lhe por cima da cabeça um celestial rebanho de nuvenzinhas: depois de induzirem cruelmente o deserto em tentação, aquelas nuvens preparavam-se agora para derramar sobre as montanhas a sua úmida bênção... Essa passagem refrescou por momentos o jovem monge protegendo-o dos escaldantes raios de sol e aproveitou¬os para intensificar o seu trabalho, sublinhando cada gesto com orações segredadas para confirmar a verdadeira vocação - pois era esse, na verdade, o fim que pretendia atingir durante o período de jejum no deserto.
Finalmente, Frei Francis pegou na grande pedra que o peregrino lhe indicara... mas as boas cores que adquirira ao cumprir o seu penoso trabalho abandonaram-lhe o rosto e deixou cair precipitadamente o pedaço de rocha, como se tivesse tocado numa serpente.
Jazia a seus pés uma caixa de lata enferrujada, parcialmente oculta pelas pedras. . .
Levado pela curiosidade, o jovem monge quis imediatamente pegar-lhe, mas primeiro recuou um passo e benzeu-se rapidamente, resmungando em latim, após o que, tranqüilizado, não receou dirigir-se à própria lata.
Vade retro, Satanás!, ordenou-lhe, ameaçando-a com o pesado crucifixo do seu rosário. Desaparece, Vil Sedutor! Tirando dissimuladamente de sob a túnica um minúsculo hissopo, borrifou a lata com água benta, para o que desse e viesse. Se és uma criatura diabólica, desaparece! Mas a caixa não deu provas de querer desaparecer, nem de explodir, nem sequer de se encarquilhar num odor de enxofre... Contentou-se em continuar tranquilamente no seu lugar, deixando ao vento do deserto o cuidado de fazer evaporar as gotas santificadoras que a cobriam.
Assim seja!, exclamou então o frade ajoelhando-se para pegar no objeto.
Sentado no meio das pedras, passou mais de uma hora martelando a caixa com uma grande pedra, a fim de a abrir. Enquanto se dedicava a essa tarefa, veio-lhe a idéia de que aquela relíquia arqueológica - pois era bem visível que disso se tratava - talvez fosse um sinal enviado pelo Céu para lhe indicar que a vocação lhe era concedida. No entanto, afastou imediatamente tal idéia, recordando-se a tempo de que o Frei Abade o pusera seriamente de sobreaviso contra qualquer revelação pessoal direta de caráter espetacular. Se deixara a abadia para cumprir no deserto aquele jejum de quarenta dias, refletiu, era justamente para que a penitência lhe proporcionasse uma inspiração vinda do Céu, a chamá-lo para as Ordens Sagradas.
Não devia esperar ser testemunha de visões ou ouvir-se chamar por vozes celestiais: tais fenômenos apenas trariam uma vã e estéril presunção. Inúmeros noviços tinham trazido do seu retiro no deserto abundantes histórias de presságios, de premonições e visões celestiais, motivo por que o Frei Abade adotara uma política enérgica em face desses pretensos milagres. O Vaticano é o único qualificado para se pronunciar sobre o assunto, resmungara, e é necessário evitar interpretar como revelação divina o que não passa do resultado de um golpe de sol.
Apesar de tudo, no entanto, Frei Francis não podia impedir-se de manipular a velha caixa de metal com infinito respeito, enquanto a martelava o melhor que podia para a abrir...
Subitamente a caixa cedeu, espalhando o seu conteúdo pelo chão, e o jovem religioso sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. Ia-se-lhe revelar a própria Antiguidade! Apaixonado por arqueologia, tinha dificuldade em acreditar no que via e pensou de repente que Frei Jeris ia ficar doente de inveja - mas logo se censurou por esse pensamento pouco caridoso e começou a agradecer ao Céu que o gratificava com semelhante tesouro.
Tremendo de emoção, tocou cautelosamente nos objetos que a caixa continha esforçando-se por os espalhar. Os seus antigos estudos permitiram-lhe descobrir no meio do conjunto uma chave de parafusos - espécie de instrumento utilizado outrora para introduzir na madeira toros de metal com roscas e uma espécie de pequena tesoura, de lâminas afiadas. Descobriu também uma ferramenta bizarra, composta por um cabo de madeira carunchosa e por uma sólida haste de cobre à qual aderiam ainda algumas parcelas de chumbo derretido, mas não conseguiu identificá-la. A caixa continha ainda um pequeno rolo de fita negra e aderente, muito deteriorada pelos séculos para que fosse possível saber do que se tratava, e inúmeros fragmentos de vidro e de metal, assim como diversos desses pequenos objetos tubulares com escovas de fios de ferro que os pagãos das montanhas consideravam amuletos, mas que certos arqueólogos supunham ser restos da lendária machina analytica, anterior ao Dilúvio de Chamas.
Frei Francis examinou cuidadosamente todos aqueles objetos antes de os colocar a seu lado sobre a grande pedra lisa; quanto aos documentos, resolveu examiná-los em último lugar. Como sempre, aliás, eram eles que constituíam a mais importante descoberta, tendo em conta o reduzido número de papéis que tinham escapado aos terríveis autos-de-fé ateados durante a Era da Simplificação por uma população ignorante e vingativa, que não receava destruir dessa forma os próprios textos sagrados.
A preciosa caixa continha dois desses inestimáveis papéis, assim como três pequenas folhas de notas manuscritas. Todos aqueles documentos veneráveis eram muito frágeis, por a antiguidade os ter ressequido e tornado quebradiços; por isso o jovem monge pegou-lhes com a maior das precauções, tendo todo o cuidado em protegê-los do vento com uma aba da túnica.
Aliás eram dificilmente legíveis e redigidos em inglês antediluviano, essa língua antiga que, como o latim, já não era utilizada atualmente, a não ser pelos monges e pelo Ritual litúrgico. Frei Francis começou a decifrá-los lentamente, lendo as palavras de passagem sem lhes penetrar o verdadeiro sentido. Sobre uma das pequenas folhas lia¬se: 1 libra de salsicha, 1 lata de choucroute para Ema. A segunda folha dizia: Pensar em ver a fórmula 1040 para declaração de impostos. Finalmente a terceira só continha números e uma longa adição, depois um número que manifestamente representava uma percentagem subtraída ao total precedente e seguida da palavra Bolas!. Incapaz de compreender fosse o que fosse daqueles documentos; o monge contentou-se em verificar os cálculos e achou-os certos.