segunda-feira, 18 de abril de 2011

O Despertar dos Mágicos (39). um projétil de cobalto de quinhentas mil toneladas poderia acabar com a vida sobre a maior parte do Mundo.


A criação cósmica é mantida por vibrações que poderiam igualmente interrompê-la. Esta teoria não se afasta muito das concepções modernas. Amanhã será fantástico: todos o sabem. Mal talvez o seja duplamente, tirando-nos a idéia de que ontem era banal.

Louis Pauwels e Jacques Bergier. DIFEL

Nós temos da Tradição, isto é, do conjunto dos textos mais antigos da humanidade, uma concepção muito literária, religiosa, filosófica. E se se tratasse de imemoriais recordações, consignadas por pessoas já muito afastadas do tempo em que se desenrolavam os acontecimentos, transpondo, fantasiando? Imemoriais recordações de civilizações técnica e cientificamente tão avançadas como a nossa, se não infinitamente mais? Que diz a Tradição, vista sob este aspecto?
Em primeiro lugar, que a ciência é perigosa. Esta idéia podia surpreender um homem do século XIX. Sabemos agora que bastaram duas bombas sobre Nagasaki e Hiroshima para matar 300 000 pessoas, que aliás essas bombas já estão ultrapassadas, e que um projétil de cobalto de quinhentas mil toneladas poderia acabar com a vida sobre a maior parte do Mundo.
Em seguida, que pode haver contacto com seres não terrestres. Contra-senso para o século XIX, mas não para nós. Já não é impensável que existam universos paralelos ao nosso, com os quais se poderia estabelecer comunicação. Os radio-telescópios captam ondas emitidas há dez bilhões de anos-luz, moduladas de tal forma que se assemelham a mensagens. O astrônomo John Krauss, da Universidade de Ohio, afirma ter captado, a 2 de Junho de 1956, sinais provenientes de Vênus. Outros sinais, provenientes de Júpiter, teriam sido recebidos no Instituto de Princeton.
Finalmente a Tradição assegura que tudo o que se passou, desde o início dos tempos, foi gravado na matéria, no espaço, nas energias, e pode ser revelado. É exatamente o que diz um grande sábio como Bowen na sua obra A Exploração do Tempo, e é um pensamento de que hoje participa a maior parte dos investigadores.
Nova objeção: uma elevada civilização técnica e científica não desaparece inteiramente, não se extingue completamente. Resposta: Nós, as civilizações, sabemos agora que somos mortais. São justamente as técnicas mais evoluídas que se arriscam a provocar o desaparecimento total da civilização de que brotaram. Imaginemos a nossa própria civilização num futuro próximo. Todas as centrais de energia, todas as armas, todos os emissores e receptores de telecomunicações, todos os aparelhos de eletricidade e de nucleônica, enfim, todos os instrumentos tecnológicos se baseiam no mesmo princípio de produção de energia. Após qualquer reação em cadeia, todos esses instrumentos, gigantescos ou de algibeira, explodem. Todo o potencial material e a maior parte do potencial humano de uma civilização desaparece. Só restam as coisas que não testemunham essa civilização, e os homens que viviam mais ou menos afastados dela.
Os sobreviventes tornam a cair na simplicidade. Só restam recordações, consignadas desajeitadamente após a catástrofe: narrativas de aparência lendária, mítica, onde se sente o tema da expulsão de um paraíso terrestre e o sentimento de que há grandes perigos, grandes segredos escondidos no seio da matéria. Tudo recomeça a partir do Apocalipse: A Lua adquiriu um aspecto sangrento e os céus fecharam-se como um rolo de pergaminho.. .
Em 1946, as patrulhas do governo australiano, ao aventurarem-se nas altas regiões incontroláveis da Nova Guiné, ali encontraram tribos agitadas por um grande vento de excitação religiosa: acabava de nascer o culto do cargo. O cargo é um termo inglês que designa as mercadorias comerciais destinadas aos indígenas: latas de conserva, garrafas de álcool, candeeiros de parafina, etc. Para esses homens ainda na idade da pedra o súbito contacto com semelhantes riquezas não podia deixar de ser profundamente perturbante. Seria caso que os homens brancos pudessem ter fabricado tais riquezas? Impossível.
Os Brancos que se vêem é evidente que são incapazes de construir com as próprias mãos um objeto maravilhoso. Sejamos positivos, era mais ou menos o que pensavam os indígenas da Nova Guiné: já alguma vez se viu um homem branco fabricar fosse o que fosse? Não, mas os Brancos dedicam-se a tarefas muito misteriosas: vestem-se todos da mesma maneira. Por vezes sentam-se diante de uma caixa de metal sobre a qual há mostradores e escutam ruídos estranhos que de lá saem. Fazem sinais sobre folhas em branco. Trata-se de ritos mágicos, graças aos quais obtêm dos deuses que estes lhes enviem o cargo.
Os indígenas resolveram então copiar esses ritos: experimentaram vestir-se à européia, falaram para dentro de latas de conserva, espetaram troncos de bambu sobre as suas choupanas, a imitarem antenas. E construíram falsas pistas de aterragem, na expectativa do cargo.
Ora bem. E se os nossos antepassados tivessem interpretado desta forma os seus contactos com as civilizações superiores? Restar-nos-ia a Tradição, quer dizer, o ensinamento de ritos que na realidade eram formas muito legítimas de agir em função de conhecimentos diferentes. Teríamos imitado infantilmente atitudes, gestos, manipulações, sem os compreender, sem os relacionar com uma realidade complexa que nos escapava, na expectativa de que esses gestos, essas atitudes, essas manipulações nos trouxessem qualquer coisa.
Qualquer coisa que não vem: um maná celestial, na verdade conduzido por vias que anossa imaginação não podia conceber. É mais fácil cair no ritual do que atingir o conhecimento, mais fácil inventar deuses do que compreender técnicas. Posto isto, acrescento que nem Bergier nem eu próprio pretendemos reduzir todo o impulso espiritual a uma ignorância material. Pelo contrário. Para nós, a vida espiritual existe. Se Deus ultrapassa a realidade, encontraremos Deus quando conhecermos toda a realidade. E se o homem tem poderes que lhe permitem compreender todo o Universo, Deus é talvez o Universo todo, mais qualquer outra coisa.
Mas continuemos o nosso exercício de desenvolvimento espiritual: se aquilo a que chamamos esoterismo não passasse, de fato, de um exoterismo? Se os mais antigos textos da humanidade, a nossos olhos sagrados, não passassem de traduções adulteradas, de divulgações sem autoridade, de relatos em terceira mão, das recordações um pouco falseadas de realidades técnicas? Nós interpretamos esses velhos textos sagrados como se realmente fossem a expressão de verdades espirituais, de símbolos filosóficos, de imagens religiosas.
É que, ao lê-los, só recorremos a nós próprios, homens ocupados pelo nosso pequeno mistério interior: gosto do bem e faço o mal, vivo e vou morrer, etc. Eles dirigem-se a nós: esses engenhos, esses raios, esses manás, esses apocalipses são representações do mundo do nosso espírito e da nossa alma. É a mim que falam, a mim; para mim... E se se tratasse de longínquas recordações deformadas de outros mundos que existiram, da passagem por esta terra de outros seres que procuravam, que sabiam, que trabalhavam? Imaginai uma época muito remota em que as mensagens provenientes de outras inteligências do Universo eram captadas e interpretadas, em que os visitantes interplanetários tinham instalado uma rede sobre a Terra, onde fora estabelecido um tráfico cósmico.
Imaginai que ainda existe em qualquer santuário notas, diagramas, relatórios, decifrados com dificuldade, no decorrer dos milenários, por monges detentores dos segredos antigos, mas de forma nenhuma qualificados para compreender esses segredos na sua totalidade, que não cessaram de interpretar, de extrapolar. Exatamente como seriam capazes de fazer os feiticeiros da Nova Guiné ao tentarem compreender uma folha de papel sobre a qual estivessem inscritos os horários dos aviões entre Nova Iorque e São Francisco. Por fim, tendes o livro de Gurdjieff: Narrações de Belzebu a seu Neto, cheio de referências a conceitos desconhecidos, a uma linguagem inverossímil. Gurdjieff diz que teve acesso a fontes. Fontes que não passam de desvios. Faz uma tradução em milésima mão, acrescentando-lhe idéias
pessoais, edificando uma simbólica do psiquismo humano: eis o esoterismo.
Um prospecto-guia das linhas internas de aviação dos U.S.A.: Pode marcar o seu lugar em qualquer parte. Esse pedido de marcação é registrado por um autômato eletrônico. Outro autômato marca o lugar no avião que você deseja. O bilhete que lhe for entregue será perfurado conforme, etc. Imaginai o que isto daria à milésima tradução em dialeto amazônico, feita por pessoas que nunca tivessem visto um avião e que ignorassem o que seja um autômato, bem como o nome das cidades citadas no guia. E agora: imaginai o esoterista perante esse texto, remontando às origens da sabedoria antiga e procurando um ensinamento para a conduta da alma humana...
Se existiram, na noite dos tempos, civilizações edificadas sobre um sistema de conhecimentos, também houve manuais. As catedrais seriam manuais do conhecimento alquímico. Não está posto de parte que alguns desses manuais, ou fragmentos, tenham sido novamente descobertos, piedosamente conservados e indefinidamente recopiados por monges cuja tarefa era mais salvaguardar do que compreender. Indefinidamente recopiados, fantasiados, transpostos, interpretados, mas em função do limitado saber da época seguinte.
Mas, no fim de contas, todo o real conhecimento técnico, científico, levado ao extremo, conduz a um conhecimento profundo da natureza do espírito, dos recursos do psiquismo, leva a um estado superior de consciência. Se, a partir dos textos esotéricos - mesmo que não sejam senão aquilo que aqui dizemos -, alguns homens puderam ascender a esse estado superior de consciência, de certa maneira restabeleceram contacto com o esplendor das civilizações extintas. Também não está excluído que haja duas espécies de textos sagrados: fragmentos de testemunhos de um antigo conhecimento técnico, e fragmentos de livros puramente religiosos, inspirados por Deus. Ambos se confundiriam, à falta de referências que permitissem distingui-los. E, na verdade, tanto num caso como noutro, trata-se de textos igualmente sagrados.
Imagem: caos-mundial.blogspot.com