sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

O Despertar dos Mágicos (75). A NARRATIVA DE RAYMOND AHELLIO


Os discípulos do Cristo, mesmo no jardim de Getsemani, enquanto o seu Mestre rezava pela última vez, dormiam. Isto diz tudo. Mas compreendem-no os homens? Tomam o fato como uma figura de retórica, uma metáfora. Não vêem de forma nenhuma que isto deve ser tomado à letra. E também aqui é fácil compreender porquê.

Louis Pauwels e Jacques Bergier. DIFEL

Ser-lhes-ia necessário despertar um pouco, ou pelo menos tentá-lo. De fato, foi-me várias vezes perguntado por que motivo os Evangelhos nunca falam do sono... Fala-se em todas as páginas. Isto apenas prova que as pessoas lêem os Evangelhos a dormir.
Em regra geral, que é necessário para despertar um homem adormecido? É necessário um bom choque. Mas quando um homem está profundamente adormecido, um único choque não é suficiente. Um longo período de choques incessantes torna-se necessário. Por conseqüência, é preciso alguém para administrar esses choques. Eu já disse que o homem desejoso de despertar deve procurar o auxílio que se encarregará de o sacudir durante muito tempo. Mas quem pode ele procurar, se toda a gente dorme? Ele procura alguém que o desperte, mas esse também adormece em breve. Qual será a sua utilidade? Quanto ao homem realmente capaz de se manter desperto, recusará provavelmente perder o seu tempo a despertar os outros: pode ter trabalhos a fazer muito mais interessantes.
Há também a possibilidade de despertar por processos mecânicos. Pode usar-se um despertador. A desgraça quer que nos habituemos, depressa demais, seja a que despertador for: deixamos de o ouvir, muito simplesmente. São portanto necessários vários despertadores, com campainhas diferentes. O homem deve literalmente rodear¬se de despertadores que o impeçam de dormir. E aqui surgem mais dificuldades. Os despertadores precisam de corda; para lhes dar corda é preciso lembrar-se, para nos lembrarmos é necessário acordar várias vezes.
Mas eis o pior: um homem habitua-se a todos os despertadores e, após um certo tempo, ainda dorme melhor. Por conseqüência, os despertadores devem ser continuamente mudados, é necessário inventar constantemente novos. Com o tempo, isto pode auxiliar um homem a acordar. Ora, há muito poucas probabilidades de que ele faça todo esse trabalho de inventar, dar corda e mudar todos esses despertadores por si próprio, sem auxílio exterior. É muito mais provável que ao começar esse trabalho ele não tarde em adormecer e que, durante o sono, sonhará que inventa despertadores, que lhes dá corda, que os muda - e, como já disse, cada vez dormirá melhor.
Portanto, para despertar é preciso uma conjugação completa de esforços. É indispensável que haja alguém para despertar o adormecido; é indispensável que haja alguém para vigiar aquele que acorda; é necessário ter despertadores, e é igualmente necessário inventar constantemente novos.
Mas para levar a bom termo este empreendimento e obter resultados, devem trabalhar várias pessoas em conjunto. Um homem sozinho nada pode fazer.
Antes de mais nada, precisa de auxílio. Mas um homem sozinho não pode contar com auxílio. Aqueles que são capazes de auxiliar avaliam o seu tempo por um preço muito alto. E naturalmente preferem ajudar, digamos, vinte ou trinta pessoas desejosas de despertar, a uma só. Para mais, como já disse, um homem pode muito bem enganar-se a respeito do seu despertar, tomar como despertar aquilo que não passa de um novo sonho. Se algumas pessoas decidem lutar em conjunto contra o sono, despertar-se-ão mutuamente. Acontecerá muitas vezes que uma vintena de entre elas dormirão, mas a vigésima primeira despertará, e acordará as outras. Dar-se-á o mesmo com os despertadores. Um homem inventará um despertador, um segundo inventará outro, após o que poderão fazer uma troca. Todos juntos podem ser de grande auxílio uns para os outros, e sem esse auxílio mútuo nenhum deles pode conseguir seja o que for.
Portanto um homem que pretende despertar deve procurar outras pessoas que desejem igualmente acordar, a fim de trabalhar com elas. Mas isto é mais facilmente dito que feito, porque o empreendimento de tal trabalho e a sua organização exigem um conhecimento que o homem vulgar não possui. O trabalho deve ser organizado e deve haver um chefe. Sem essas duas condições, o trabalho não pode dar os resultados esperados, e todos os esforços serão vãos. As pessoas poderão torturar-se mas essas torturas não as farão despertar. Parece que para certas pessoas nada é mais difícil de compreender. Por elas próprias e por sua iniciativa podem ser capazes de grandes esforços, mas os seus primeiros sacrifícios devem ser obedecer a outro: nada no mundo as conseguirá persuadir disso. E não querem admitir que todos os seus sacrifícios, neste caso, de nada servem.
O trabalho deve ser organizado. E só o pode ser por um homem que conheça os seus problemas e os seus objetivos, que conheça os seus métodos, tendo ele próprio passado, no seu tempo, por semelhante trabalho organizado.
Estas opiniões de Gurdjieff estão insertas na obra de P. D. Ouspensky: Fragments d'um Enseignement Inconnu. Ed. Stock, Paris, 1950.
OS MEUS PRIMEIROS TEMPOS NA ESCOLA GURDJIEFF
Peguem num relógio, diziam-nos, e olhem para o ponteiro grande tentando manter a consciência de vós próprios e concentrar-se neste pensamento: Eu sou Louis Pauwels e estou aqui neste momento. Tente pensar apenas nisto, siga os movimentos do ponteiro grande mantendo a própria consciência do seu nome, da sua existência e do local onde se encontra.
Ao princípio, isto parecia simples e até um pouco ridículo. Evidentemente que posso manter presente no espírito a idéia de que me chamo Louis Pauwels e de que estou aqui, neste momento a ver deslocar-se muito lentamente o ponteiro grande do meu relógio. Depois apercebo-me de que esta idéia não se mantém muito tempo imóvel em mim, que começa a tomar mil formas e a correr em todos os sentidos, como os objetos que Salvador Dali pintava, transformados em lama movediça. Mas tenho ainda de reconhecer que não me pedem que mantenha viva e fixa uma idéia, mas uma percepção. Não me pedem apenas que pense que existo, mas que saiba, que tenha desse fato um conhecimento absoluto.
Ora eu sinto que isso é possível e que poderia produzir-se em mim, trazendo-me qualquer coisa de novo e importante. Descubro que mil pensamentos ou sombras de pensamentos, mil sensações, imagens e associações de idéias perfeitamente estranhas ao objeto do meu esforço me assaltam sem cessar e me desviam do esforço que faço. Por vezes é o ponteiro que prende toda a minha atenção e, ao olhá-lo, perco¬me de vista. Por vezes é o meu corpo, uma crispação da perna, um pequeno movimento na barriga que me faz deixar a agulha e ao mesmo tempo a minha própria pessoa. Por vezes ainda creio ter feito parar o meu pequeno cinema interior, eliminado o mundo exterior, mas apercebo-me então que acabo de mergulhar numa espécie de sono do qual o ponteiro desapareceu, do qual eu próprio desapareci e durante o qual as imagens continuam a sobrepor-se umas às outras, assim como as sensações, as idéias, como que atrás de um véu, como num sonho que se desbobina por sua conta enquanto eu durmo.
Por vezes, finalmente, por uma fração de segundo, sou eu próprio a olhar esse ponteiro, sou totalmente, completamente. Mas, na mesma fração de segundo, felicito¬me por o ter conseguido; se assim o posso dizer, o meu espírito aplaude, e imediatamente a minha inteligência, apossando-se da vitória para dela se congratular, compromete-a irremediavelmente. Finalmente despeitado mas sobretudo esgotado, fujo à experiência com precipitação, pois parece-me que acabo de viver os minutos mais difíceis da minha existência, que acabo de ser privado de ar até ao limite da resistência. Como aquilo me pareceu longo!
Ora não se passaram mais de dois minutos e, em dois minutos, só tive uma verdadeira percepção de mim próprio durante três ou quatro súbitas e imperceptíveis revelações. Eu devia portanto admitir que nós quase nunca estamos conscientes de nós próprios e que quase nunca temos consciência da dificuldade de ser consciente.
O estado de consciência, diziam-nos, é antes de mais o estado do homem que sabe enfim que não está quase nunca consciente e que, portanto, aprende pouco a pouco quais são os obstáculos que se opõem, nele próprio, aos esforços que faz. À luz daquele pequenino exercício sabem agora que um homem pode ler uma obra, por exemplo, aprovar, aborrecer-se, protestar ou entusiasmar-se, sem ter a mínima consciência do fato, e portanto sem que nada da leitura se dirija verdadeiramente a ele próprio. A sua leitura é um sonho acrescentado aos seus próprios sonhos, um desbobinamento no perpétuo desbobinar do inconsciente. Pois a nossa verdadeira consciência pode estar e está quase sempre - completamente ausente de tudo o que fazemos, pensamos, queremos, imaginamos.
Compreendo então que há muito pouca diferença entre o estado em que estamos durante o sono e aquele em que nos encontramos no estado de vigília vulgar, quando falamos, agitamos, etc. Os nossos sonhos tornaram-se invisíveis, como as estrelas quando o dia nasce, mas continuam presentes e nós continuamos a viver sob a sua influência. Nós apenas adquirimos, após o despertar, uma atitude crítica para com as nossas próprias sensações, pensamentos mais ordenados, ações mais disciplinadas, maior vivacidade de impressão, de sentimentos, de desejos, mas continuamos na não-consciência.
Não se trata do verdadeiro despertar, mas do sono desperto, e é nesse estado de sono desperto que se desenrola toda a nossa vida. Ensinavam-nos que era possível despertarmos completamente, adquirir o estado de consciência de nós próprios. Nesse estado, como o entrevi durante o exercício com o relógio, era-me possível ter, a respeito do funcionamento do meu pensamento, do desenrolar das imagens, idéias e sensações, dos sentimentos e dos desejos, um conhecimento objetivo.
Nesse estado, eu podia tentar e desenvolver um esforço real para examinar, suspender de tempos a tempos e alterar esse desenrolar.
E esse próprio esforço, diziam-me, criava em mim uma certa subsistência. Esse próprio esforço não chegava aqui ou ali. Bastava-lhe ser para que se criasse e acumulasse em mim a própria subsistência do meu ser. Era-me dito que poderia então, possuindo um ser fixo, alcançar a consciência objetiva e ter assim, não apenas de mim próprio, mas dos outros homens, das coisas e do Mundo inteiro, um conhecimento totalmente objetivo, um conhecimento absoluto.
Monsieur Gurdjieff. Ed. du Seuil, Paris, 1954
A NARRATIVA DE RAYMOND AHELLIO
Quando, na atitude natural que é a da totalidade dos seres existentes, vejo uma casa, a minha percepção é espontânea, é essa casa que eu percebo e não a minha própria
percepção. Pelo contrário, na atitude transcendental é a minha própria percepção que é percebida. Mas essa percepção da percepção altera radicalmente o estado primitivo. O estado vivido, ingênuo a princípio, perde a sua espontaneidade precisamente pelo fato de a nova reflexão tornar como objeto o que a princípio era estado, e não objeto, e de, entre os elementos da minha nova percepção, figurarem não apenas os da casa como casa, como ainda os da própria percepção como fluxo vivido.
E o que importa essencialmente nessa alteração é que a visão concomitante que eu tenho, nesse estado birreflexivo, ou antes, reflexo-reflexivo, da casa que foi o meu motivo original, longe de estar perdida, afastada ou embrulhada por essa interposição da minha percepção segunda perante a sua percepção primária, se encontra paradoxalmente intensificada, mais nítida, mais presente, mais carregada de realidade objetiva do que antes. Achamo-nos aqui perante um fato injustificável para a pura análise especulativa: o da transfiguração da coisa como fato de consciência, da sua transformação, como dizemos depois, em sobre-coisa, da sua passagem do estado de ciência ao estado de conhecimento. Este fato é geralmente desconhecido, embora seja o mais impressionante de toda a experimentação fenomenológica real.
Todas as dificuldades com que a fenomenologia vulgar esbarra, como aliás, todas as teorias clássicas do conhecimento, residem no fato de elas considerarem o conjunto consciência-conhecimento (ou mais exatamente consciência-ciência) capaz de esgotar sozinho a totalidade do vivido, quando na realidade seria necessário considerar a tríade conhecimento-consciência-ciência -a única que permite um verdadeiro enraizamento ontológico da fenomenologia. E, decerto, nada pode tornar evidente essa transfiguração, exceto a experiência direta e pessoal do próprio fenomenologista.
Mas ninguém pode pretender ter compreendido a verdadeira fenomenologia transcendental se não tiver praticado essa experiência com êxito e não tiver sido ele próprio iluminado. Mesmo que fosse o dialético mais subtil, o logístico mais hábil, aquele que a não viveu, e que portanto não viu outras coisas sob a aparência das coisas, só pode fazer discursos sobre a fenomenologia, mas não assumir uma atividade realmente fenomenológica. tomemos um exemplo mais preciso. Tão longe quanto as minhas recordações podem ir, sempre soube distinguir as cores, o azul, o vermelho, o amarelo.
A minha vista via-as, tinha a experiência latente. Claro, a minha vista não fazia interrogações a respeito delas, e aliás como poderia fazer interrogações? A sua função é ver, não a de se ver na função de ver, mas o meu próprio cérebro estava como que adormecido, não era de forma nenhuma o olho do olho, mas um simples prolongamento desse órgão. Portanto, eu dizia simplesmente, e quase sem pensar: isto é um belo vermelho, um verde um pouco apagado, um branco brilhante. Um dia, há alguns anos, ao passear pelas vinhas das encostas que dominam o lago Leman e que formam um dos mais belos locais do Mundo, tão belo mesmo e tão vasto que o Eu, à força de ali ser dilatado, se sente dissolvido e, bruscamente, se reapossa de si próprio e se exalta, deu-se um súbito e para mim extraordinário acontecimento. O ocre da encosta abrupta, o azul do lago, o roxo dos montes de Sabóia, e ao fundo as geleiras resplandecentes do Grand-Combin, vira-os eu cem vezes. Soube pela primeira vez que nunca os olhara.
No entanto vivia há três meses. E, claro, desde o primeiro instante, aquela paisagem deslumbrara-me, mas o que em mim lhe respondia não era mais que uma exaltação confusa. Claro, o Eu do filósofo é mais forte que todas as paisagens. O sentimento angustiante de beleza não passa de um assenhoreamento pelo Eu, que se fortifica, da distância infinita que dela nos separa. Mas naquele dia, bruscamente, soube que eu próprio criava aquela paisagem, que ela nada era sem mim: Sou eu que te vejo, e que me vejo a ver-te, e que, ao ver-me, te faço.
Este verdadeiro grito interior é o grito do demiurgo quando da sua criação do mundo. Não é apenas a suspensão de um antigo mundo, mas a projeção de um novo. E nesse momento, de fato, o mundo foi recriado. Nunca eu vira semelhantes cores. Eram cem vezes mais intensas, mais matizadas, mais vivas. Senti que acabava de adquirir o sentido das cores, que interpretava as cores, que nunca até ali vira realmente um quadro ou penetrara no universo da pintura. Mas soube igualmente que, por esse chamamento da minha consciência, por essa percepção da minha percepção, conseguira a chave desse mundo da transfiguração que não é outro mundo misterioso, mas o verdadeiro mundo, aquele de que a natureza nos conserva exilados. Nada de comum, evidentemente, com a atenção. A transfiguração é completa, a atenção não. A transfiguração conhece-se na sua suficiência certa, a atenção tende para uma suficiência eventual. Não se pode dizer, evidentemente, que a atenção seja vazia. Pelo contrário, é não-vazia. Mas o não-vazio não é a plenitude. Quando regressei à aldeia, nesse dia, as pessoas com que me cruzava estavam na sua maior parte atentas ao trabalho: no entanto todas me pareceram sonâmbulas.
Raymond Abellio: Cahiers du Cercle d'Études Métaphysiques. (Publicação interior - 1954).
O ADMIRÁVEL TEXTO DE GUSTAV MEYRINCK
A chave que nos tornará mestres da natureza interior ficou enferrujada desde o dilúvio. Ela chama-se: velar. Velar é tudo.
O homem está firmemente convencido de que vela; mas na realidade, é apanhado numa rede de sono e de sonho que ele próprio teceu. Quanto mais apertada é essa rede, mais poderosamente reina o sono, Aqueles que estão presos nas suas malhas são os adormecidos que caminham através da vida como rebanhos de animais levados para o matadouro, indiferentes e sem pensamentos.
Imagem: O CAMINHANTE. Ter, 24 de Novembro de 2009 18:26; Escrito por RODOLFO ANTONIO ...
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