segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O Despertar dos Mágicos (48). na história, nações inteiras caíram numa inexplicável agitação.


Limitamo-nos a um momento da história alemã. Poderíamos igualmente mostrar, por exemplo, para apreender o fantástico na história contemporânea, a invasão das idéias asiáticas na Europa no momento em que as idéias européias provocam o despertar dos povos da Ásia. Aí está um fenômeno tão desmoralizante como o espaço não euclidiano ou os paradoxos do núcleo atômico.

Louis Pauwels e Jacques Bergier. DIFEL

O historiador convencional, o sociólogo comprometido não vêem, ou recusam ver, esses movimentos profundos que não se adaptam àquilo a que eles chamam os movimentos da história. Eles prosseguem imperturbavelmente a análise e a predição de uma aventura dos homens que não se assemelha nem aos próprios homens, nem aos sinais misteriosos mas visíveis que estes trocam com o tempo, o espaço e o destino.
O amor, diz Jacques Chardonne, é muito mais do que o amor. No decorrer das nossas investigações adquirimos a certeza de que a história é muito mais do que a história. Essa certeza é tônica. A despeito do crescente peso dos fatos sociais e das crescentes ameaças dirigidas contra a pessoa humana, nós vemos o espírito e a alma da humanidade continuar a acender aqui e além as suas fogueiras, que não são cada vez mais pequenas. Apesar de os corredores da história, aparentemente, serem mais estreitos, temos a certeza de que o homem não perde ao percorrê-los o fio que o liga á imensidade. Estas imagens são à Vítor Hugo, mas exprimem bem a nossa visão. Adquirimos essa certeza penetrando no real: é no mais íntimo que o real é fantástico e em certo sentido, misericordioso.
Ainda que as sombrias máquinas estejam a funcionar Não se atemorize demasiado, amigo. . . Quando os pedantes chamaram a nossa atenção Para a fria mecânica com que os acontecimentos Se viriam a desenrolar, as nossas almas disseram em surdina: É possível, mas existem outras coisas. . . (Prefácio ao Napoleão de Notting Hill, de Chesterton, 1898.)
- Na Tribuna das Nações recusam o Diabo e a loucura. - Há no entanto uma luta dos deuses. - Os alemães e a Atlântida. - Um socialismo mágico. - Uma religião e uma ordem secretas. - Uma expedição às regiões ocultas. - O primeiro guia será poeta.
Num artigo da Tribune des Nations, um historiador francês exprime claramente o conjunto das insuficiências intelectuais usadas desde que se trate do hitlerismo. Analisando a obra Hitler Desmascarado, publicada pelo doutor Otto Dietrich, que foi durante doze anos chefe do serviço de imprensa do Führer, Pierre Cazenave escreve:
Todavia, o doutor Dietrich contenta-se facilmente demais com uma frase que repete muitas vezes e que, num século positivista, não permite explicar Hitler. Hitler, diz ele, era um homem demoníaco, vítima de idéias nacionalistas delirantes. Que quer dizer demoníaco? E que quer dizer delirante? Na Idade Média ter-se-ia dito que Hitler estava possesso. Mas hoje? Ou a palavra demoníaco nada significa ou significa possesso do demônio. Mas o que é o demônio? Acredita o doutor Dietrich na existência do Diabo? Precisamos de nos entender. A mim, a palavra demoníaco não me satisfaz.
E a palavra delirante também não. Quem diz delírio diz doença mental. Delírio maníaco. Delírio melancólico. Delírio de perseguição. E que Hitler tinha sido um psicopata e até um paranóico ninguém duvida, mas os psicopatas e mesmo os paranóicos andam pelas ruas. Daí a um delírio mais ou menos sistematizado, e cuja observação e diagnóstico deveriam ter determinado o internamento do seu possuidor, vai uma distância. Por outras palavras: Hitler será responsável? A meu ver, sim. E eis porque ponho de parte a palavra delírio como ponho de parte a palavra demoníaco, não tendo a demonologia, a nossos olhos, mais que um valor histórico.
Nós não nos contentamos com a explicação do doutor Dietrich. O destino de Hitler e a aventura de um grande povo moderno sob a sua conduta não poderiam ser inteiramente descritos a partir do delírio e da possessão demoníaca. Mas também não nos podemos contentar com as críticas do historiador da Tribune des Nations. Hitler, afirma ele, não era clinicamente louco. E o Demônio não existe. Portanto é preciso não deitar fora a noção de responsabilidade. Isso é verdade. Mas o nosso historiador parece atribuir a essa noção de responsabilidade virtudes mágicas. Mal a evocou, a história fantástica do hitlerismo parece-lhe clara e reduzida às proporções do século positivista em que ele pretende que nós vivemos. Esta operação escapa à razão, assim como a operação de Otto Dietrich. É que, de fato, o termo responsabilidade é, na nossa linguagem, uma transposição daquilo que era a possessão demoníaca para os tribunais da Idade Média, como demonstram os grandes processos político modernos.
Se Hitler não era louco, nem possesso, o que é possível, a história do nazismo continuaria no entanto inexplicável à luz de um século positivista. A psicologia das profundezas revela-nos que certas ações aparentemente racionais do homem, na realidade são governadas por forças que ele próprio ignora ou que têm ligações com um simbolismo completamente estranho a lógica vulgar. Por outro lado sabemos, não que o Demônio não existe, mas que é diferente da visão da Idade Média. Na história do hitlerismo, ou antes em certos aspectos dessa história, tudo se passa como se as idéias-força escapassem à crítica histórica habitual, e como se precisássemos, para compreender, de abandonar a nossa visão positiva das coisas e fazer o esforço de entrar num universo no qual deixaram de se confundir a razão cartesiana e a realidade.
Empenhamo-nos em descrever estes aspectos do hitlerismo porque, como viu muito bem Marcel Ray em 1939, a guerra que Hitler impôs ao mundo foi uma guerra maniqueísta, (O maniqueísmo, que surgiu no século III, baseia-se na luta eterna entre as forças adversas do Universo: a luz e as trevas, o bem e o mal.) ou, como disse a Escritura, uma luta dos deuses. Não se trata, bem entendido, de uma luta entre fascismo e democracia, entre uma concepção liberal e uma concepção autoritária das sociedades. Isto é o exoterismo da batalha. Há ali um esoterismo z. Essa luta dos deuses, que se desenrolou atrás dos acontecimentos aparentes, não terminou no planeta, mas os formidáveis progressos da ciência humana, dentro de alguns anos, estarão aptos a dar-lhes outras formas. Agora que as portas do conhecimento começam a abrir-se sobre o infinito, importa apreender o sentido dessa luta. Se queremos ser conscientemente homens de hoje, quer dizer, contemporâneos do futuro, precisamos de ter uma visão exata e profunda do momento em que o fantástico se começou a insinuar na realidade. É esse momento que nós vamos estudar. (C. S. Lewis, professor de teologia em Oxford, tinha, em 1937, anunciado num dos seus romances simbólicos, O Silêncio da Terra, o início de uma guerra pela possessão da alma humana, de que uma terrível guerra material não seria mais do que a forma exterior. Voltou a esta idéia em duas outras obras: Perelandra e Esta Força Hedionda(não traduzidos). O último livro de Lewis intitula-se Até Que Tenhamos Rostos. É nesta grande narrativa poética e profética que se encontra a frase admirável que a seguir transcrevemos: Os deuses só nos falarão frente a frente quando nós próprios tivermos um rosto.)
No fundo, dizia Rauschning, todo o alemão tem um pé na Atlântida, onde procura uma pátria melhor e um melhor patrimônio. Esta dupla natureza dos alemães, esta faculdade de desdobramento que lhes permite simultaneamente viver no mundo real e projetar-se num mundo imaginário, revela-se muito especialmente em Hitler e fornece a chave do seu socialismo mágico.
E Rauschning, tentando explicar a subida ao poder desse grande sacerdote da religião secreta, tentava persuadir-se de que, por diversas vezes na história, nações inteiras caíram numa inexplicável agitação. Elas empreendem marchas de flagelantes. São agitadas pela dança de São Vito. O nacional-socialismo, concluía ele, é a dança de São Vito do século XX.
Mas de onde provém essa estranha doença? Não encontrava em parte alguma uma resposta satisfatória. As suas raízes mais profundas mantêm-se em regiões secretas. São essas regiões secretas que nos parece útil explorar. E não é um historiador, mas um poeta que nos servirá de guia.
Onde se falará de J.P. Toulet, escritor menor. -Mas é de Arthur Machen que se trata. - Um grande gênio desconhecido. - Um Robison Crusoé da alma. - História dos anjos de Mons. - Vida, aventuras e desgraças de Machen. - Como descobrimos uma sociedade secreta inglesa. - Um prêmio Nobel com máscara preta. A Golden Dawn, suas filiações, seus membros e seus chefes. - A razão por que vamos citar um texto de Machen. Os acasos mostram zelo.
Dois homens que leram Jean-Paul Toulet e que se encontram (geralmente num bar) imaginam que isso constitui um aristocratismo, escrevia o próprio Toulet. Acontece que grandes coisas residem em cabeças sem importância. Foi através deste escritor menor e encantador, ignorado apesar do esforço de alguns entusiastas, que chegou até nós o nome de Arthur Machen, o qual não é familiar a duzentas pessoas em França.
Ao investigarmos a obra de Machen apercebemo-nos de que compreende mais de trinta volumes. É de um interesse espiritual sem dúvida superior à obra de H. G. Wells.
Prosseguindo as nossas investigações a respeito de Machen, descobrimos uma sociedade iniciática inglesa composta por espíritos superiores. Essa sociedade, à qual Machen deve uma experiência íntima determinante e o melhor da sua inspiração, é desconhecida dos próprios especialistas. Por último, certos textos de Machen, e especialmente este que vamos apresentar, ilustram de forma definitiva uma noção pouco vulgar do Mal, absolutamente indispensável para a compreensão dos aspectos da história contemporânea que estudamos nesta parte do nosso livro. Portanto, se no-lo permitem, antes de entrarmos a fundo no nosso assunto, vamos falar deste curioso homem. Começará como uma pequena história literária à volta de um ínfimo escritor parisiense: Toulet. Terminará com a abertura de uma grande porta subterrânea atrás da qual ainda ardem os restos dos mártires e as ruínas da tragédia nazista, que perturbou o Mundo inteiro. Os caminhos do realismo fantástico, como mais uma vez se verifica, não se parecem com os caminhos vulgares do conhecimento.
Em Novembro de 1897, um amigo, bastante inclinado para as ciências ocultas, deu a ler a Paul Jean Toulet o romance de um escritor de trinta e quatro anos completamente desconhecido: the Great God Pan. Esse livro, que evoca o mundo pagão das origens, The Anatomy of Tobacco (1884) . the Great God Pan (1895), The House of Souls (1906), the Hill of Dreams (1907), the Great Return (1915), The Bozumen (1915), The Terror (1917). The Secret Glory (1922), Strange Roads (1923), The London Adventure (1924), The Carning Wronder (1926), The Green Round (1933), Holy Terrors (1946). Obra póstuma: Tales of Horror and the Supernatural. (1948).
O próprio Machen tinha consciência disso: O Wells de que fala é com certeza um homem muito hábil. Em dado momento cheguei mesmo a supor que era qualquer coisa mais. (Carta a P.J. Toulet, 1899). não completamente submerso, mas sobrevivendo com prudência e, por vezes, soltando junto de nós o seu Deus do Mal e seus anjos com pés de cabra, impressionou Toulet e decidiu-o estrear-se na literatura. Começou a traduzir the Great God Paner pedindo emprestado a Machen o seu cenário de pesadelo, os seus recantos onde o Grande Pã se esconde, escreveu o seu primeiro romance: Monsieur du Paur, hommepublic.
Monsieur du Paur foi publicado no fim do ano de 1898, nas edições Simonis Empis, e não obteve o menor sucesso. E nós nada saberíamos se Henri Martineau, grande admirador de Stendhal e amigo de Toulet, não tivesse resolvido, vinte anos mais tarde, publicar novamente esse romance à sua custa, nas edições Divan. Historiador minucioso e amigo dedicado, o Henri Martineau empenhava-se em demonstrar que Monsieur du Paur era um livro inspirado na leitura de Machen, mas no entanto original. Foi portanto ele que chamou a atenção de alguns raros letrados para Arthur Machen e para o seu Great God Pan, exumando a exígua correspondência entre Toulet e Machen. Para Machen e o seu imenso gênio as coisas ficaram por ali: uma das camaradagens literárias dos começos de Toulet.
Em Fevereiro de 1899, Paul Jean Toulet, que há um ano tentava publicar a sua tradução de The Great God Pan, recebeu do autor a seguinte carta, em francês:
Caro confrade,
Nada há portanto a fazer com The Great God Pan em Paris? Se assim é, estou verdadeiramente cuidando, quanto ao caso do livro, evidentemente, mas sobretudo porque tinha esperanças em relação aos leitores franceses; supunha que no caso de apreciarem The Great God Pan nas suas roupagens francesas e de o acharem bom, talvez eu encontrasse aí o meu público! Aqui, nada posso fazer. Escrevo, escrevo sempre, mas é absolutamente como se escrevesse num scriptorium monástico da Idade Média; quer dizer que as minhas obras se mantêm sempre no inferno das coisas inéditas. Tenho na minha gaveta um volumezinho de contos muito pequenos, a que chamo Ornaments án Jade. Encantador o seu livrinho, diz o editor, mas é completamente impossível. Há também um romance, the Garden of Avallonius, qualquer coisa como 65 000 palavras É uma arte sine peccato, diz o bom do editor, mas chocaria o nosso público inglês. E neste momento trabalho num livro que permanecerá, estou certo disso, na mesma ilha do Diabo! Enfim, meu caro confrade, encontrará qualquer coisa de bastante trágico (ou antes tragicômico) nestas aventuras de um escritor inglês; mas, como já disse, tinha esperanças na sua tradução do meu primeiro livro. Le Grand Dieu Pan apareceu finalmente na revista La Plume, em 1901, e depois foi editado ao cuidado dessa mesma revista. Passou despercebido.
Imagem: galileu.globo.com