domingo, 28 de agosto de 2011

O Despertar dos Mágicos (47). segundo os seus cálculos, impedem que as bombas caiam sobre essa cidade.


Seguramente o nosso retrato não está de acordo com as idéias aceites, e é fragmentário. Nada quisemos sacrificar à coerência. Esta recusa de sacrificar à coerência é aliás uma tendência muito recente em história, assim como a tendência para a verdade: Aqui e além aparecerão lacunas: o leitor deverá pensar que o historiador de hoje abandonou a antiga concepção segundo a qual a verdade era atingida assim que estivessem aplicadas, sem espaços vazios nem excedentes, todas as peças de um puzzle a recompor. O ideal da obra histórica deixou de ser para ele um belo mosaico muito acabado e muito liso: é como um campo de pesquisas que ele a concebe, com o seu caos aparente onde se justapõem as escavações vagas, as coleções de pequenos objetos evocadores e, aqui e além, as belas ressurreições de conjunto e as obras de arte.

Louis Pauwels e Jacques Bergier. DIFEL

O físico sabe que são pulsações de energia anormais, excepcionais, que revelaram a fissão do urânio e portanto abriram espaços infinitos para o estado da radioatividade. Foram a pulsações do extraordinário que nós procuramos.
Um livro de lord Russell de Liverpool: Rápida História dos Crimes de Guerra Nazistas, publicado onze anos depois da vitória dos Aliados, surpreendeu os leitores franceses pelo seu tom de extrema sobriedade. Vulgarmente, nesta matéria, a indignação substitui a explicação. Neste livro falam por si fatos horríveis, e os leitores verificaram que continuavam sem nada perceber de tanta atrocidade. Exprimindo esse sentimento, um especialista eminente escrevia no jornal Le Monde:
A questão que se põe é a de saber como é que tudo isto foi possível em pleno século e em regiões que passam por ser as mais civilizadas do Universo.
É estranho que tal pergunta, essencial, primordial, se ponha aos historiadores doze anos depois da abertura de todos os arquivos possíveis. Mas será que ela se apresenta realmente aos historiadores? Não é muito certo. Pelo menos tudo se passa como se eles pretendessem esquecê-la, logo depois de ser evocada, obedecendo assim ao movimento da opinião estabelecida que tal pergunta incomoda. Deste modo, acontece que o historiador seja testemunha da sua época, recusando-se a fazer história. Mal escreveu: A questão que se põe é saber se.. . , apressa-se a continuar para que ela se não possa pôr:
Eis, acrescenta imediatamente, o que o homem faz quando é abandonado ao livre impulso dos seus instintos, a um tempo desenfreados e sistematicamente pervertidos.
Estranha explicação histórica, a dessa evocação do mistério nazista por meio dos tópicos gastos da moral vulgar! No entanto foi a única explicação que nos deram, como se houvesse uma vasta conspiração das inteligências para fazer das páginas mais fantásticas da história contemporânea qualquer coisa de redutível a uma lição de história primária sobre os maus instintos. Dir-se-ia que uma pressão considerável incide sobre a história a fim de que esta seja reduzida às minúsculas proporções do pensamento racionalista convencional.
Entre as duas guerras, observa um jovem filósofo, por não terem denunciado qual o furor pagão que enfunava as bandeiras inimigas, os antifascistas não souberam profetizar o odioso futuro da vitória hitleriana.
Eram raras e pouco escutadas as vozes que anunciavam no céu alemão a substituição da Cruz Gamada em vez da de Cristo, negação pura e simples dos Evangelhos.
Não é inteiramente nossa esta visão de Hitler anticristo.
Achamos que ela não é suficiente para esclarecer totalmente os fatos. Mas situa-se, pelo menos, ao nível conveniente para julgar este extraordinário momento da história.
É esse o problema. Não estaremos ao abrigo do nazismo, ou antes de certas formas do espírito luciferino de que o nazismo projetou a sombra sobre o Mundo, senão quando
percebermos e afrontarmos na nossa consciência os aspectos mais fantásticos da sua aventura.
Entre a ambição luciferina de que o hitlerismo foi uma trágica caricatura, e o angelismo cristão que também tem a sua caricatura em fórmulas sociais; entre a tentação de atingir o sobre-humano, de conquistar o céu de assalto, e a tentação de se entregar a uma idéia ou a um Deus para que a condição humana seja transcendida; entre a recusa e a aceitação de uma transcendência, entre a vocação do mal e a do bem, ambos poderosos, profundos e secretos; - entre imensos movimentos contraditórios da alma humana e sem dúvida do inconsciente coletivo, representam-se tragédias de que a história convencional não se apercebe inteiramente, como que por receio de introduzir, com certos documentos e certas interpretações, impedimentos graves demais que a impeçam de descansar no âmago das sociedades.
O historiador que se ocupa da Alemanha nazista parece querer ignorar o que era o inimigo que foi abatido. É auxiliado nesse desejo pela opinião geral. É que ter abatido semelhante inimigo em conhecimento de causa exigiria uma concepção do mundo e do destino humano à medida da vitória. Vale mais pensar que acabamos por impedir que nos prejudicassem velhacos e loucos e que, no fim de contas, as pessoas de bem têm sempre razão. Eram velhacos e loucos, é certo. Mas não no sentido, mas não no grau em que o entendem as pessoas de bem. O antifascismo convencional parece ter sido inventado por vencedores que necessitavam de dissimular o seu vazio. Mas o vazio aspira.
O doutor Antony Laughton, do Instituto Oceanográfico de Londres, fez mergulhar uma máquina de filmar a 4500 metros de profundidade, ao largo das costas da Irlanda. Sobre as fotografias distinguem-se muito nitidamente marcas de pés pertencentes a uma criatura desconhecida. Após o abominável homem das neves, eis que se insinua na imaginação e na curiosidade dos homens este irmão da criatura dos píncaros, o abominável homem dos mares, o desconhecido dos abismos. Num certo sentido, a história, para os observadores do nosso gênero, é semelhante ao velho oceano que a sonda amedronta.
Esquadrinhar a história invisível é um exercício muito são para o espírito. Desembaraçamo-nos da repugnância pelo inverossímil que é natural, mas que muitas vezes paralisou o conhecimento. Esforçamo-nos, em todos os domínios, por resistir a essa repugnância pelo inverossímil, quer se trate das forças de ação dos homens, das suas crenças, ou das suas realizações. Assim, estudamos certos trabalhos da secção clandestina dos serviços de informação alemães. Essa secção elaborou, por exemplo, um longo relatório sobre as propriedades mágicas dos campanários de Oxford, que, segundo os seus cálculos, impedem que as bombas caiam sobre essa cidade. Que haja nisso uma aberração não é discutível, mas que essa aberração tenha grassado entre homens inteligentes e responsáveis, e que esse fato elucida diversos pontos da história visível e da história invisível, também não é discutível.
Para nós, os acontecimentos têm muitas vezes razões de ser que a razão ignora, e as linhas de força da história podem ser tão invisíveis e no entanto tão reais como as linhas de força de um campo magnético.
É possível ir mais longe. Aventuramo-nos até onde esperamos que se aventurem os historiadores do futuro com meios superiores aos nossos. Aconteceu-nos tentar aplicar à história o princípio das ligações não causais que o físico Wolfgang Pauli e o psicólogo
Jung recentemente propuseram. Era a este princípio que eu há pouco aludia ao falar de coincidências. Para Pauli e Jung, acontecimentos independentes entre si poderiam ter relações sem causa, mas no entanto significativas à escala humana. São as coincidências significativas, as linhas onde os dois sábios vêem um fenômeno de sincronicidade que revela ligações insólitas entre o homem, o tempo e o espaço, e a que Claudel magnificamente chamava a jubilação dos acasos. Uma doente está estendida no divã do psicanalista Jung. Oprimem-na perturbações nervosas muito graves, mas a análise não progride. A paciente, prisioneira de um espírito extremamente realista, agarrada a uma espécie de ultralógica, torna-se impenetrável aos argumentos do médico.
Uma vez mais, Jung ordena, propõe, suplica:
Abandone-se, não procure compreender, e conte-me simplesmente os sonhos que tem.
Sonhei com um escaravelho - responde finalmente a dama, entre dentes.

Nesse momento ouvem-se pequenas pancadas contra a vidraça. Jung abre a janela e um belo escaravelho dourado entra na sala fazendo ressoar os seus élitros. Perturbada, a paciente abandona-se por fim e a análise pode realmente começar, e prosseguirá até à cura.
Jung cita muitas vezes este incidente verídico que tem a forma de um conto árabe. Na história de um homem, como na história propriamente dita, na sua opinião, há muitos escaravelhos de ouro.
A complexa doutrina da sincronicidade, em parte motivada pela observação de tais coincidências, seria talvez de natureza a modificar totalmente a concepção da história. A nossa ambição não vai tão longe nem tão alto. O que pretendemos é chamar a atenção para os aspectos fantásticos da realidade. Nesta parte do nosso trabalho dedicamo-nos à pesquisa e interpretação de certas coincidências, a nossos olhos significativas. Podem não o ser para outros.
Aplicando a nossa concepção realista fantástica à história, entregamo-nos a um trabalho de seleção. Por vezes escolhemos fatos de pouca importância, mas aberrantes, porque, em certa medida, era à aberração que pedíamos a luz. Uma irregularidade de alguns segundos no movimento do planeta Mercúrio basta para abalar o edifício de Newton e justificar Einstein. Da mesma forma, parece-nos que alguns dos fatos que pusemos em realce podem tornar necessária a revisão das estruturas da história cartesiana.
Poder-se-á utilizar este método para prever o futuro? Acontece-nos também sonhar com isso. Em O Chamado Quinta-Feira, Chesterton descreve uma brigada de polícia política especializada na poesia. Evitou-se um atentado porque um polícia compreendeu o sentido de um soneto. Há grandes verdades atrás dos gracejos de Chesterton. Correntes de idéias que passam despercebidas ao observador oficial, escritos, obras às quais o sociólogo não está atento, fatos sociais demasiado pequenos e demasiado aberrantes a seus olhos, anunciam talvez com mais certeza os acontecimentos futuros do que os fatos visíveis e os grandes movimentos aparentes do pensamento com os quais ele se preocupa.
O clima de terror do nazismo, que ninguém pôde prever, estava anunciado nas horríveis narrativas do escritor alemão Hans Heinz Ewers: A Mandrágora e No Terror. Ele viria a ser o poeta oficial do regime e escreveria o Horst Wessel Láed. Não é impossível que certos romances, certos poemas, quadros ou estátuas, desprezados até pela crítica especializada, nos indiquem as figuras exatas do mundo de amanhã.
Dante, em A Divina Comédia, descreve com precisão a Cruz do Sul, constelação invisível no hemisfério norte e que nenhum viajante do seu tempo pode ter descoberto. Swift, em A Viagem a Laputa, descreve as distâncias e os períodos de rotação dos dois satélites de Marte, desconhecidos na época. Quando o astrônomo americano Asaph Hall os descobre em 1877 e se apercebe de que as suas medidas correspondem às indicações de Swift, invadido por uma espécie de pânico chama-lhes Phobos e Deimos: medo e terror. Em 1896, um escritor inglês, M. P. Schiel, publica um conto onde se vê um bando de criminosos horríveis destruindo a Europa, matando famílias que supõem prejudiciais ao progresso da humanidade e queimando os cadáveres. Intitula o seu conto: Os S.S.
Goethe dizia: Os acontecimentos futuros projetam a sua sombra em frente, e pode ser que se encontre, longe do que mobiliza a atenção geral, em obras e atividades humanas estranhas ao que nós chamamos o movimento da história, a verdadeira detecção e a expressão dessas ressacas do futuro.
Existe um fantástico evidente que o historiador encobre com pudor de explicações frias e mecânicas. A Alemanha, no momento em que nasce o nazismo, é a pátria das ciências exatas. O método 1 Aterrado também pelo fato de que esses satélites aparecem bruscamente. Telescópios mais importantes que o seu não os tinham avistado na véspera. Parece, muito simplesmente, que ele foi o primeiro a examinar Marte nessa noite. Hoje, depois do lançamento do Spoutnik, os astrônomos começam a escrever que talvez se trate de satélites artificiais, lançados no dia da observação de Hall. (Robert S. Richardson, do observatório do monte Palomar. Comunicação a propósito da posição de Marte, 1954). alemão, a lógica alemã, o rigor e a probidade científica alemã são universalmente considerados.
O Herr Professor incita por vezes à caricatura, mas está rodeado de consideração. Ora é neste ambiente, de um cartesianismo de chumbo, que uma doutrina incoerente e em parte demencial se propaga rápida, irresistivelmente, a partir de um foco minúsculo. No país de Einstein e de Planck começa a ser professada uma física ariana. No país de Humboldt e de Haeckel começa-se a falar de raças. Pensamos que não é possível explicar tais fenômenos pela inflação econômica. Não é este o cenário de fundo para semelhante bailado. Pareceu-nos muito mais eficaz ir procurar junto de certos cultos estranhos e certas cosmogonias aberrantes, até agora desprezadas pelos historiadores. Essa desatenção é muito singular. As cosmogonias e os cultos de que vamos falar gozaram na Alemanha de proteção e encorajamentos oficiais. Desempenharam um papel espiritual, científico, social e político relativamente importante. Com esse cenário de fundo compreende-se melhor o bailado.
Imagem: emininoplural.com.br