quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Porque algumas pessoas arriscam suas vidas para salvar outras?


Desastres e atos violentos não geram apenas memórias ruins. Em muitos casos, imagens de heróis são as que fazem as manchetes.
Por exemplo, no último dia 5 de agosto, um atirador invadiu um templo sikh em Milwaukee (EUA) e disparou contra as pessoas que lá se encontravam. Enquanto alguns fugiram, outros saltaram para detê-lo.
Uma das seis vítimas do massacre foi o presidente do templo, Santwat Singh Kaleka, que testemunhas dizem ter tentado desarmar o atirador. O primeiro policial que respondeu à cena, Brian Murphy, levou nove tiros fazendo o mesmo, e milagrosamente sobreviveu. Ambos foram aclamados heróis.
O mesmo foi dito de um tripulante de 57 anos que, em janeiro, quando o cruzeiro Costa Concordia naufragou na costa ocidental da Itália, ficou a bordo para ajudar os outros, enquanto até mesmo o capitão do navio o havia abandonado.
O que faz algumas pessoas nessas situações correrem, fugirem, pensarem só em si mesmas, enquanto outras demonstram coragem, e ficam, arriscando suas vidas por outras?
Segundo os cientistas, é muito difícil estudar este tipo de comportamento altruísta, durante calamidades, porque a maioria dos “heróis” morre.
Mas os especialistas sugerem que esse tipo de comportamento pode existir porque o heroísmo é profundamente valorizado.
Os pesquisadores Selwyn Becker e Alice Eagly apontaram em um estudo de 2004 que a ideia de heroísmo existe em praticamente toda cultura humana já registrada, desde pinturas rupestres, folclore, literatura até os super-heróis fantásticos do mundo moderno, como o Batman e o Super-Homem.
Ser altruísta, salvar a vida de outros, exatamente como um super-herói faria, dá às pessoas um status nobre.
Um exemplo é a pesquisa publicada na revista Evolutionary Psychology em que participantes dispostos a suportar a dor – dispostos a colocar as mãos em uma bacia de gelo por 40 segundos, por exemplo – foram julgados como mais simpáticos, e ganharam significativamente mais dinheiro a partir de uma quantia que podia ser dividida da forma como os próprios voluntários do estudo queriam.
Sendo assim, engajar-se em comportamentos de autossacrifício pode ser uma estratégia rentável a longo prazo. Resumindo: os impulsos heroicos podem ser, ao mesmo tempo, egoístas.
O que isso significa? Que não existem pessoas altruístas de verdade? Tudo que fazemos tem uma razão?
Essa discussão moral é longa, mas ao que diz respeito ao heroísmo, o psiquiatra Deane Aikins desestimula a concepção de que seja uma escolha.
Com isso, ele quis dizer que é difícil alguém tomar decisões por puro altruísmo, sem “segundas intenções”. Mas estas podem ser boas, como proteger alguém que você ama, do modo como namorados fazem com seus amores quando elas correm perigo.
Também pode ser que algumas pessoas tenham hormônios do estresse que atingem picos em situações perigosas, fazendo-as agirem por conta da adrenalina.
Porém, na maioria dos casos, os “heróis” são pessoas que tentaram fugir, mas não conseguiram. Essa foi a conclusão de uma série de estudos com veteranos americanos que serviram em combates no Afeganistão e no Iraque. Segundo Aikins, sorte aleatória define muitos dos que sobrevivem que mais tarde são chamados de heróis.
Mas os poucos casos que parecem fruto de um verdadeiro altruísmo deixam algumas lições importantes sobre os heróis: os que ficam e ajudam geralmente são pessoas que cultivam laços sociais antes e depois da crise.
Profissionais como policiais e bombeiros, por exemplo, podem já ser pessoas que fazem o que fazem porque isso gera um “pagamento” em forma de facilidade e aceitação social.
Também, essas são pessoas que geralmente têm mais comportamentos de risco, ou gostam do perigo. A conclusão é de um estudo de 2005 sobre não judeus que ajudaram a salvar vítimas do nazismo. Eram pessoas que gostavam de arriscar e tinham bastantes laços sociais.
De um modo geral, a correlação mais forte entre os heróis é que a maioria interage com amigos e familiares em uma base regular. Então, mesmo que ajam impulsivamente para salvar os outros (assim como os “covardes” agem impulsivamente para se salvar), a raiz para o comportamento parecer ser social, ou ligada ao status social do herói.[CNN]