terça-feira, 27 de março de 2012

O Despertar dos Mágicos (79). Leonardo Euler (1707-1783) é geralmente considerado um dos maiores matemáticos de todos os tempos


Da mesma forma que a ilha ou a galáxia dos seres superiores corresponde ao velho sonho das Ilhas Bem-Aventuradas, os poderes paranormais correspondem ao arquétipo dos deuses gregos. Mas, se nos colocarmos no plano do real, apercebemo-nos de que todos esses poderes seriam perfeitamente inúteis para seres que vivessem numa civilização moderna. De que serve a telepatia quando se tem a rádio? De que serve a levitação, quando há o avião? Se o homem transformado existe, o que estamos tentados a acreditar, ele dispõe de um poder muito superior a tudo o que a imaginação pode sonhar. De um poder que o homem vulgar não explora: ele dispõe da inteligência.

Louis Pauwels e Jacques Bergier. DIFEL

As nossas ações são irracionais e a inteligência não desempenha senão um papel ínfimo nas nossas decisões. Pode imaginar-se o Ultra-Humano, novo escalão da vida sobre o planeta como um ser racional, e já não apenas um ser que raciocina, um ser dotado de uma inteligência objetiva permanente, que toma decisões apenas depois de examinar lúcida e completamente a massa de informações em seu poder. Um ser cujo sistema nervoso fosse uma fortaleza capaz de resistir a qualquer assalto das impulsões negativas. Um ser de cérebro frio e rápido, equipado com uma memória total, infalível. Se o homem transformado existe, provavelmente ele é esse ser que fisicamente parece um humano, mas que dele difere radicalmente pelo simples fato de que ele controla a sua inteligência e a emprega sem um segundo de descanso. Esta visão parece simples. No entanto ela é mais fantástica que tudo o que a literatura de ficção científica nos sugere. Os biologistas principiam a distinguir as modificações químicas que seriam necessárias à criação dessa nova espécie.
As experiências sobre os tranqüilizantes, sobre o ácido lisérgico e seus derivados mostraram que bastaria uma dose muito pequena de certos compostos orgânicos ainda desconhecidos para nos proteger contra a permeabilidade excessiva do nosso sistema nervoso e assim nos permitir exercer em todas as ocasiões uma inteligência objetiva. Tal como existem homens transformados fenil-cetônicos cuja química está menos adaptada à vida do que a nossa, também é admissível pensar que existem homens transformados cuja química está mais adaptada do que a nossa à vida neste mundo em transformação. São esses superiores, cujas glândulas segregariam espontaneamente tranqüilizantes e substâncias susceptíveis de desenvolver a atividade cerebral, que seriam os anunciadores da espécie destinada a substituir o homem. O seu local de residência não seria uma ilha misteriosa ou um planeta proibido. A vida foi capaz de criar seres adaptados aos abismos submarinos ou à atmosfera rarificada dos cumes mais altos.
É igualmente capaz de criar o ser ultra-humano para o qual a habitação ideal é Metrópolis, a terra fumegante de fábricas, a terra trepidante de negócios, a terra vibrante de cem novas radiações. . . A vida nunca está perfeitamente adaptada, mas tende para a adaptação perfeita. Porque se relaxaria essa tensão desde que o homem foi criado? Porque não prepararia ela melhor que o homem, através do homem? E esse homem segundo o homem talvez já tenha nascido. A vida, disse o doutor Loren Eiseley, é uma grande ribeira sonhadora que desliza através de todas as aberturas, modificando-se e adaptando-se à medida que avança 1. A sua aparente estabilidade é uma ilusão engendrada pela própria brevidade dos nossos dias. Nós não vemos o ponteiro das horas dar a volta ao mostrador: da mesma forma não vemos uma forma de vida fundir-se noutra.
Este livro tem como objetivo expor fatos e sugerir hipóteses, de forma alguma promover cultos. Nós não pretendemos conhecer seres superiores. No entanto, se admitimos a idéia de que o ser superior perfeito está perfeitamente camuflado, admitiremos a idéia de que a natureza falhe no seu esforço de criação ascensional e ponha em circulação seres superiores imperfeitos que são, estes, visíveis.
Nesse ser transformado imperfeito, as qualidades mentais excepcionais misturam-se com os defeitos físicos. Tal é o caso, por exemplo, de numerosos computadores prodígios. O melhor especialista na matéria, o professor Robert Tocquet, declara a este respeito: Vários computadores foram a princípio considerados como crianças atrasadas. O computador prodígio belga Oscar Verhaeghe, aos dezessete anos, exprimia-se como um bebê de dois anos. Para mais, já dissemos que Zerah Colburn apresentava um sinal de degenerescência: um dedo suplementar em cada membro. Outro computador prodígio, Prolongeau, nascera sem braços nem pernas. Mondeux era histérico... Oscar Verhaeghe, nascido a 16 de Abril em Bousval, na Bélgica, numa família de modestos funcionários, pertence ao grupo de computadores cuja inteligência está muito abaixo da média. As elevações às diversas potências de números formados pelos mesmos números é uma das suas especialidades. Assim, 888,888,888,888,888 é elevado ao quadrado em 40 segundos e 9,999,999 é elevado à quinta potência em 60 segundos, incluindo o resultado 35 números. . .
Degenerados ou seres superiores falhados? Eis aqui talvez um caso de homem transformado completo: o de Leonardo Euler, o qual estava em relações com Roger Boscovitch', cuja história contamos num capítulo anterior.
Leonardo Euler (1707-1783) é geralmente considerado um dos maiores matemáticos de todos os tempos. Mas esta classificação é pequena demais para demonstrar as qualidades supra-humanas do seu espírito. Ele folheava as obras mais complexas em alguns instantes e era capaz de recitar completamente todos os livros que lhe tinham passado pelas mãos desde que aprendera a ler. Conhecia a fundo a física, a química, a zoologia, a botânica a geologia, a medicina, a história, as literaturas grega e latina. Em todas essas disciplinas, nenhum homem do seu tempo o igualou.
Possuía o poder de se isolar totalmente, quando lhe apetecesse, do mundo exterior, e de prosseguir um raciocínio acontecesse o que acontecesse. Perdeu a vista em 1766, o que não o afetou. Um dos seus alunos contou que durante uma discussão sobre cálculos que atingiam a décima sétima decimal, um desacordo se produziu no momento de estabelecer a décima quinta. Então Euler refez, com os olhos fechados, o cálculo numa fração de segundo. Via relações, ligações, que escapavam ao resto da humanidade culta e inteligente. Foi assim que descobriu idéias matemáticas novas e revolucionárias nos poemas de Virgílio. Era um homem simples e modesto e todos os seus contemporâneos estão de acordo sobre o fato de que a sua principal preocupação era a de passar desapercebido. Euler e Boscovitch viviam numa época em que os sábios eram respeitados, em que não corriam o risco de ser presos por idéias políticas ou obrigados pelo governo a fabricar armas. Se tivessem vivido no nosso século, talvez se tivessem organizado de forma a disfarçarem-se por completo. Talvez existam atualmente alguns Euler e Boscovitch. Talvez passem a nosso lado disfarçados de professores de aldeia ou de agentes de seguros, homens transformados inteligentes e racionais, munidos de uma memória absoluta e de uma inteligência constantemente lúcida.
Formarão esses homens transformados uma sociedade invisível? Nenhum ser humano vive só. Ele só se pode realizar no seio de uma sociedade. A sociedade humana que conhecemos demonstrou mais do que suficientemente que é hostil à inteligência objetiva e à imaginação livre: Giordano Bruno queimado, Einstein exilado, Oppenheimer vigiado. Se existem seres superiores que correspondem à nossa descrição, tudo leva a pensar que eles trabalham e comunicam entre si no interior de uma sociedade sobreposta à nossa, e que sem dúvida se estende pelo Mundo inteiro. Que eles comuniquem servindo-se de meios psíquicos superiores, como a telepatia, parece-nos uma hipótese infantil.
Mais perto do real, e portanto mais fantástica, nos parece a hipótese segundo a qual eles se serviriam de comunicações humanas normais para fazer circular mensagens e informações para seu serviço exclusivo. A teoria geral da informação e a semântica mostram bastante bem que é possível redigir textos com duplo, triplo ou quádruplo sentido. Existem textos chineses com sete significações encerradas umas nas outras.Um herói do romance de Van Vog, À la Poursuite des Slans, descobre a existência de outros seres superiores ao ler o jornal e ao decifrar artigos aparentemente inofensivos. Tal rede de comunicação dentro da nossa literatura, da nossa imprensa, etc., é concebível.
O New York Herald Tribune publicava a 15 de Março de 1958 um estudo do seu correspondente em Londres sobre uma série de mensagens enigmáticas publicadas nos pequenos anúncios do Times. Essas mensagens tinham chamado a atenção dos especialistas da criptografia e das diversas polícias, pois era manifesto que tinham um segundo sentido. Mas esse sentido escapara a todos os esforços de decifração. Existem sem dúvida meios de comunicação menos decifráveis ainda. Tal romance de terceira ordem, tal obra técnica, tal livro de filosofia aparentemente sem valor, talvez transmitam secretamente complexos estudos, mensagens dirigidas a inteligências superiores, tão diferentes da nossa como esta é da de um grande macaco.
Louis de Broglie escreve: Nunca devemos esquecer quanto os nossos conhecimentos continuam limitados e de que imprevistas evoluções são susceptíveis. Se a civilização humana subsiste, a física poderá dentro de alguns séculos ser tão diferente da nossa como esta é da física de Aristóteles. Talvez as concepções ampliadas que então atingiremos nos permitam englobar numa mesma síntese, onde cada um encontrará o seu lugar, o conjunto dos fenômenos físicos e biológicos. Se o pensamento humano, eventualmente tornado mais potente por qualquer mutação biológica, viesse um dia a elevar-se até lá, aperceber-se-ia, com uma clareza que nós nem sequer suspeitamos, da unidade dos fenômenos que distinguimos com o auxílio dos adjetivos físico-químicos biológicos ou mesmo psíquicos. E se esta mutação já se tivesse produzido? Um dos maiores biologistas franceses, Morand, inventor dos tranqüilizantes, admite que os homens transformados apareceram ao longo da história e da humanidade 2: Os homens transformados foram, entre outros, Maomé, Confúcio, Jesus Cristo. . . Talvez existam muitos outros.
Não é de forma nenhuma inverossímil que, na época evolutiva em que nos encontramos, seres superiores considerem inútil apresentar-se como exemplos ou pregar qualquer nova forma de religião. Há mais que fazer, presentemente, do que dirigir-se ao indivíduo. Não é improvável que eles considerem necessária e benéfica a subida da nossa humanidade a caminho da coletividade. Finalmente não é improvável que eles considerem desejável o nosso sofrimento de parto, e mesmo feliz qualquer grande catástrofe susceptível de apressar a tomada de consciência da tragédia espiritual que constitui na sua totalidade o fenômeno humano. Para agir, para que se precise ò desvio que talvez nos arraste a todos para qualquer forma de ultra-humano que eles já possuem, talvez lhes seja necessário continuar escondidos, manter secreta a coexistência, enquanto se elabora, a despeito das aparências e talvez até graças à sua presença, a alma nova para um mundo novo que nós chamamos, quanto a nós, com toda a força do nosso amor.
Eis-nos nas fronteiras do imaginário. Precisamos de parar. Apenas pretendemos sugerir o maior número possível de hipóteses não completamente insensatas. Entre elas, muitas serão, provavelmente, de desprezar. Mas se algumas abrirem à investigação portas até aqui dissimuladas, não teremos trabalhado em vão; não nos teremos exposto inutilmente ao ridículo. O segredo da vida pode ser encontrado. Se me fosse dada a ocasião. não a deixaria escapar por receio da chacota'.
Toda a reflexão sobre os seres superiores conduz a uma meditação sobre a evolução, sobre os destinos da vida e do homem. O que é o tempo, à escala cósmica onde é necessário situar a história terrestre? Se assim posso dizer, não estará o futuro latente por toda a eternidade? Na aparição dos seres superiores tudo se passa, talvez, como se a sociedade humana fosse por vezes atingida por uma ressaca do futuro, visitada pelas testemunhas do conhecimento ainda por vir. Os seres superiores não serão a memória do futuro, de que o grande cérebro da humanidade é talvez dotado?
Outra coisa: a idéia de mutação favorável é evidentemente ligada à idéia de progresso. Esta hipótese de uma mutação pode ser levada para o plano científico mais positivo. É perfeitamente certo que as regiões mais recentemente adquiridas pela evolução, e as menos especializadas, quer dizer, as zonas silenciosas da matéria cerebral, são as últimas a amadurecer. Alguns neurologistas pensam com razão que há ali outras possibilidades que o futuro da espécie nos revelará.
O indivíduo poderia vir a gozar de outras possibilidades. Uma individualização superior. E, no entanto, o futuro das sociedades bem nos parece orientado em direção a uma coletivização cada vez maior. Será contraditório? Não cremos. A nossos olhos, a existência não é contradição, mas complementaridade e síntese transcendental.
Numa carta ao seu amigo Laborit, o biologista Morand escreveu: O homem tornado perfeitamente lógico, tendo abandonado toda a paixão assim como toda a ilusão, transformar-se-á numa célula do continuum vital que constitui uma sociedade chegada ao mais alto termo da sua evolução: é evidente que ainda lá não chegamos, mas não creio que possa haver evolução sem isso. Então, e só então, emergirá essa consciência universal do ser coletivo, em direção à qual nos encaminhamos.
Perante esta visão, altamente provável, sabemos muito bem que os partidários do velho humanismo que forjou a nossa civilização se desesperam. Imaginam o homem daqui em diante sem finalidade, entrando na sua fase de declínio. Tornado perfeitamente lógico, tendo abandonado toda a paixão assim como toda a ilusão. . . Mas como o homem transformado em centro de inteligência radiante poderia estar a caminho do declínio? Com certeza, o Eu psicológico, aquilo a que chamamos a personalidade, estaria em vias de desaparecer. Mas não cremos que essa personalidade seja a últimariqueza do homem. Neste ponto, creio que somos religiosos. É o signo da nossa época, o fato de todas as observações ativas se rematarem numa visão da transcendência. Não, a personalidade não é a última riqueza do homem.
Ela não passa de um dos instrumentos que lhe são dados para passar ao estado de vigília. Feita a obra, o instrumento desaparece. Se tivéssemos espelhos capazes de nos mostrar essa personalidade à qual damos tanta importância, não lhe suportaríamos a vista, tantos são os monstros e as larvas que por lá formigam. Só o homem realmente desperto ali se poderia debruçar sem se arriscar a morrer de pavor, pois então o espelho não refletiria mais nada, seria puro. Este é o verdadeiro rosto que, no espelho da verdade, não é refletido. Neste sentido, nós ainda não temos rosto.
E os deuses não nos falarão frente a frente senão quando nós próprios tivermos um rosto. Aludindo à diferença entre o Eu psicológico, móvel e limitado (moi em francês) e o Eu racional, ativo e desembaraçado (je em francês), Rimbaud já dizia: Je est un autre (Eu é um outro). É o Eu imóvel, transparente e puro, cujo entendimento e infinito: todas as tradições incitam o homem a abandonar tudo para lá chegar. Poder-se-ia dar o caso de que estivéssemos numa época em que o próximo futuro fale a mesma linguagem que o mais longínquo passado. Fora destas considerações sobre as possibilidades outras do espírito, o pensamento, mesmo o mais generoso, só distingue contradições entre consciência individual e consciência universal, vida pessoal e vida coletiva. Mas um pensamento que vê contradições no que está vivo é um pensamento doente. A consciência individual realmente desperta entra no universal. A vida pessoal, concebida e utilizada toda como instrumento de vigília, funde-se sem perigo na vida coletiva.
Finalmente, não se afirma aqui que a constituição deste ser coletivo seja o termo máximo da evolução. O espírito da Terra a alma do que está vivo não acabaram de emergir. Os pessimistas, perante os grandes acontecimentos visíveis que produz essa secreta emergência, dizem que é pelo menos necessário tentar salvar o homem. Mas esse homem não é para salvar, ele é para mudar.
O homem da psicologia clássica e das filosofias correntes está ultrapassado, condenado à inadaptação. Quer haja mutação ou não, é outro homem que convém entrever para ajustar o fenômeno humano ao destino em marcha. Então, não é uma questão nem de pessimismo, nem de otimismo: é uma questão de amor. No tempo em que eu pensava possuir a verdade na minha alma e no meu corpo, em que imaginava ter em breve a solução para tudo, na escola do filósofo Gurdjieff há uma palavra que nunca ouvi pronunciar: a palavra amor. Não disponho hoje de qualquer certeza absoluta.
Imagem: Leonhard Euler
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