terça-feira, 27 de março de 2012

O Despertar dos Mágicos (78). o. . . Horla. . . ouvi. . . o Horla. . . é ele. . . o Horla... ele chegou!


-Formidável. É verdade, formidável.
O tom indiferente da minha voz espantou-me. Ansioso, Carlos Argentino insistia:
- Viste tudo bem, a cores?

Louis Pauwels e Jacques Bergier. DIFEL

Nesse instante idealizei a minha vingança. Benevolente, manifestamente apiedado, nervoso, evasivo, agradeci a Carlos Argentino Daneri a hospitalidade que me dera na sua cave, e aconselhei-o a aproveitar a demolição da sua casa para se afastar da perniciosa capital que não perdoa a ninguém, acredita, a ninguém! Recusei-me, com energia suave, a discutir o Aleph; abracei-o, ao despedir-me, e repeti-lhe que o campo e a serenidade eram dois grandes médicos.
Na rua, na escadaria da Constitución, no metropolitano, todos os rostos me pareciam familiares. Receei que não houvesse mais nada no Mundo capaz de me surpreender; receei nunca mais me libertar do sentimento do já visto. Felizmente, após algumas noites de insônia, o esquecimento apoderou-se novamente de mim.
DIVAGAÇÕES SOBRE OS MUTANTES
O garoto astrônomo. - Uma subida de temperatura na inteligência. - Teoria das mutações. - O mito dos Grandes Superiores. -Os Transformados entre nós. Do Horla a Leonardo Euler. - Uma sociedade invisível dos Transformados. -Nascimento do ser coletivo. O amor pelo vivo.
Durante o Inverno de 1956, o doutor J. Ford Thomson, psiquiatra do Serviço de Educação de Wolverhampton, recebeu no seu gabinete um garoto de sete anos que inquietava muito os pais e o seu mestre.
Evidentemente que ele não tinha à sua disposição as obras especializadas - escreve o doutor Thomson. - E se acaso as tivesse, ser-lhe-ia possível lê-las? No entanto, sabia as respostas exatas de problemas de astronomia extremamente complexos.
Impressionado com o exame daquele caso, o doutor resolveu Fazer um inquérito sobre o nível de inteligência dos alunos e empreendeu fazer testes a cinco mil crianças através de toda a Inglaterra, com o auxílio do Conselho de Investigações Médicas Britânicas, dos físicos de Harwell e de numerosos professores de universidades. Após dezoito meses de trabalhos pareceu-lhe evidente que se estava a dar uma brusca subida de temperatura na inteligência.

Nas últimas 90 crianças de sete a nove anos que interrogamos, 26 tinham um coeficiente intelectual de 140, o que equivale ao gênio, ou quase. Creio, prossegue o doutor Thomson, que o estrôncio 90, produto radioativo que penetra no corpo, pode ser
o responsável. Este produto não existia antes da primeira explosão atômica.

Dois sábios americanos, C. Brooke Worth e Robert K. Enders, num importante trabalho intitulado The Nature of Living things, julgam poder demonstrar que o agrupamento de genes está atualmente alterado e que, sob o efeito de influências ainda misteriosas, uma nova raça de homens está a surgir, dotada de poderes intelectuais superiores. Trata-se, evidentemente, de uma tese discutível. No entanto, o especialista Lewis Terman, depois de ter estudado durante trinta anos as crianças prodígios, chega às seguintes conclusões:
A maior parte das crianças prodígios perdiam as suas qualidades ao atingir a idade adulta. Parece, agora, que se tornam adultos superiores, de uma inteligência sem medida comum com os humanos de tipo corrente. Tem trinta vezes mais atividade que um homem normal bem dotado. O seu índice de êxito está multiplicado por vinte e cinco. A sua saúde é perfeita, assim como o equilíbrio sentimental e sexual. Finalmente, escapam às doenças psicossomáticas, inclusivamente o cancro. Será certo?
O que é certo é que assistimos a uma aceleração progressiva, no Mundo inteiro, das faculdades mentais, correspondendo aliás à das faculdades físicas. O fenômeno é tão evidente que outro sábio americano, o doutor Sydney Pressey, da Universidade de Ohio, acaba de estabelecer um plano para a instrução das crianças precoces, susceptível, segundo ele, de fornecer trezentas mil grandes inteligências por ano.
Estaremos nós a assistir à apariçãode seres que se nos assemelham exteriormente e que, no entanto, são diferentes? É este formidável problema que vamos estudar. O que é certo é que assistimos ao nascimento de um mito: o do homem transformado'. O nascimento deste mito, na nossa civilização técnica e científica, não pode deixar de ter o seu significado e o seu valor dinâmico. Antes de abordar este assunto, convém notar que a subida de temperatura da inteligência, constatada entre as crianças, conduz à idéia simples, prática, racional, de uma melhoria progressiva da espécie humana por meio da técnica.
A técnica desportiva moderna demonstrou que o homem possui recursos físicos ainda longe de estarem esgotados. As experiências em curso sobre o comportamento do corpo humano nos foguetões interplanetários provaram uma resistência insuspeitada. Os sobreviventes dos campos de concentração puderam medir a extraordinária possibilidade de defesa da vida e descobrir consideráveis recursos na interação entre o psiquismo e o físico.
Finalmente, no que se refere à inteligência, a recente descoberta das técnicas mentais e dos produtos químicos susceptíveis de ativar a memória, de reduzir a zero o esforço de memorização, abre perspectivas extraordinárias. Os princípios da ciência não são de forma nenhuma inacessíveis a um espírito normal. Se se alivia o cérebro do aluno e do estudante do enorme esforço de memória que é obrigado a fazer, tornar-se-á perfeitamente possível ensinar a estrutura do núcleo e a tabela periódica dos elementos aos alunos da quarta classe e fazer compreender a relatividade e os quanta a um estudante do 7º ano. Por outro lado, quando os princípios da ciência estiverem divulgados de forma maciça em todos os países, quando houver cinqüenta ou cem vezes mais investigadores, a multiplicação das idéias novas, a sua fecundação natural, as suas aproximações multiplicadas produzirão o mesmo efeito que um aumento do número de gênios.
Um efeito até melhor, pois o gênio é muitas vezes instável e anti-social. Aliás é provável que uma ciência nova, a teoria geral da informação, permita dentro em breve precisar quantitativamente a idéia que nós aqui expomos de forma qualitativa. Dividindo equitativamente entre os homens os conhecimentos de que a humanidade já dispõe, e encorajando-os às permutas de maneira a produzir novas combinações, aumentar-se-á o potencial intelectual da sociedade humana tão rapidamente e seguramente como multiplicando o número dos gênios.
Esta visão deve ser mantida paralelamente à visão mais fantástica do homem transformado.
O nosso amigo Charles-Noel Martin, numa retumbante comunicação, revelou os efeitos acumulativos das explosões atômicas. As radiações espalhadas no decurso das experiências desenvolvem os seus efeitos em proporção geométrica. A espécie humana arriscar-se-ia portanto a ser vítima de mutações desfavoráveis. Para mais, há cinqüenta anos que o rádio é utilizado em toda a parte do Mundo sem um controlo sério. Os raios X e certos produtos químicos radioativos são explorados em inúmeras indústrias. Em que proporção e de que forma essa irradiação atinge o homem moderno? Ignoramos tudo do sistema das mutações. Não se poderiam produzir igualmente mutações favoráveis? Tomando a palavra durante uma conferência atômica de Genebra, sir Ernest Rock Carling, patologista ligado ao Home Office, declarou: Pode
igualmente esperar-se que, numa limitada proporção de casos, essas mutações produzam um efeito favorável e dêem uma criança de gênio. Sob o risco de chocar a venerável assistência, afirmo que a mutação que nos dará um Aristóteles, um Leonardo da Vinci, um Newton, um Pasteur ou um Einstein compensará largamente os noventa e nove outros que tiverem resultado bastante menos brilhantes.
Primeiro uma palavra sobre a teoria das mutações.
No final do século, A. Weisman e Hugo de Vriés renovaram a idéia que até ali se fazia da evolução. Estava na moda o átomo cuja realidade começava a manifestar-se na física. Eles descobriram o átomo de hereditariedade e localizaram-no nos cromossomos. A nova ciência de genética assim criada trouxe à luz os trabalhos efetuados na segunda metade do século XIX pelo monge checo Gregor Mendel. Parece ser hoje indiscutível que a hereditariedade é alterada pelos genes. Estes são fortemente protegidos contra o meio exterior. No entanto, parece que as radiações atômicas, os raios cósmicos e certos venenos violentos como a colquicina podem atingi-los ou duplicar o número dos cromossomos.
Observou-se que a frequência das mutações é proporcionada à intensidade da radioatividade. Ora a radioatividade é hoje trinta e cinco vezes superior ao que era no princípio do século. Foram apresentados exemplos precisos de seleção produzindo-se nas bactérias por mutação genética sob a ação dos antibióticos, por Luria e Debruck em 1943, e por Demerec em 1945. Nesses trabalhos vemos operar-se a mutação¬seleção tal como Darwin a imaginara. Mitchourine e Lissenko, os adversários da tese de Lamarck sobre a hereditariedade dos caracteres adquiridos, parecem portanto ter razão. Mas poder-se-á generalizar, e supor que o caso das bactérias se repete nas plantas, nos animais, no homem? O caso já não parece duvidoso. Existirão mutações genéticas controláveis na espécie humana? Sim. Um dos casos indiscutíveis é o seguinte: Este caso é extraído dos arquivos do hospital especial inglês para doenças infantis, em Londres.
O doutor Louis Wolf, diretor desse hospital, pensa que nascem em Inglaterra trinta crianças com mutação fenil-cetónica por ano. Estas crianças possuem genes que não produzem no sangue certos fermentos em ação no sangue normal, e são portanto incapazes de dissociar a fenil-alamina. Essa incapacidade torna a criança vulnerável à epilepsia e ao eczema, provoca uma coloração cinzenta dos cabelos e torna o adulto vulnerável às doenças mentais. Uma certa raça fenil-cetónica, à margem da raça humana normal, está portanto viva entre nós... Trata-se aqui de uma mutação desfavorável: mas poder-se-á recusar todo o crédito à possibilidade de uma mutação favorável? Alguns seres transformados poderiam ter no sangue produtos susceptíveis de melhorar o seu equilíbrio físico e de aumentar bastante acima do nosso o seu coeficiente de inteligência.
Eles poderiam transportar nas suas veias tranqüilizantes naturais, colocando-os ao abrigo dos choques psíquicos da vida social e dos complexos de angústia. Formariam portanto uma raça diferente da raça humana, superior a ela. Os psiquiatras e os médicos descobrem as deficiências. De que forma descobrir aquilo que vai melhor que bem?
Na ordem das mutações é necessário distinguir vários aspectos. A mutação celular que não atinge os genes, que não afeta a descendência, é nossa conhecida sob a sua forma desfavorável: o cancro, a leucemia são mutações celulares. Em que medida não se poderiam produzir mutações celulares favoráveis, generalizadas em todo o organismo? Os místicos falam da aparição de uma carne nova, de uma transfiguração.
A mutação genética desfavorável (o caso dos fenil-cetónicos) principia também a ser nossa conhecida. Em que medida é que não se poderia produzir uma mutação favorável? Também aqui seria ainda necessário distinguir dois aspectos do fenômeno, ou antes, duas interpretações:
1º -Essa mutação, essa aparição de outra raça poderia ser devida ao acaso. A radioatividade, entre outras causas, poderia produzir uma modificação dos genes de certos indivíduos. A proteína do gene, ligeiramente atingida, não forneceria mais, por exemplo, certos ácidos que provocam em nós a angústia. Ver-se-ia aparecer outra raça: a raça do homem tranqüilo, do homem que não receia nada, que não sente nada de negativo.
Que vai à guerra tranquilamente, que mata sem inquietação, que goza sem complexos, uma espécie de autômato sem qualquer espécie de mais testemunha que criador, mas testemunha hiperlúcida das aventuras extremas da inteligência moderna, o escritor André Breton, pai do Surrealismo, não hesitava em escrever em 1942: Talvez o homem não seja o centro, o ponto de mira do Universo. Podemos sonhar que existem acima dele, na escala animal, seres cujo comportamento lhe é tão estranho como o dele pode ser ao efêmero ou à baleia. Nada se opõe necessariamente a que certos seres escapem de forma perfeita ao seu sistema de referências sensorial, graças a um disfarce de qualquer natureza que se queira imaginar, mas de que a teoria da forma e o estudo dos animais miméticos estabelecem por si só a possibilidade.
Não é de duvidar que o maior campo especulativo se oferece a esta idéia, embora ela tenda a atribuir ao homem as mesmas modestas condições de interpretação do seu próprio universo que a criança atribui a uma formiga em cima da qual acaba, com um pontapé, de derruir o formigueiro. Considerando as perturbações do tipo ciclone, de que o homem é impotente em ser outra coisa senão a vítima ou a testemunha ou as do tipo guerra, a respeito das quais noções claramente insuficientes têm sido defendidas, não seria impossível, no decorrer de um vasto trabalho ao qual jamais deveria deixar de presidir a indução mais ousada, tentar definir até as tornar verossímeis a estrutura e a complexão de tais seres hipotéticos, que se manifestam obscuramente em nós no medo e no sentimento do acaso.
Creio dever observar que não me afasto muito do testemunho de Novalis: Nós vivemos, na realidade, num animal do qual somos os parasitas. A constituição desse animal determina a nossa, e vice-versa, e não posso deixar de concordar com o pensamento de William James: Quem sabe se, na natureza, nós não ocupamos um lugar tão pequeno junto de seres insuspeitados, como os nossos gatos e os nossos cães ao viverem ao nosso lado nas nossas casas? Os próprios sábios não contra dizem todos esta opinião: Circulam talvez em redor de nós seres concebidos sobre o mesmo plano que nos, mas diferentes, homens, por exemplo, cujas albuminas seriam direitas. Assim fala Émile Duclaux, antigo diretor do Instituto Pasteur.
O homem novo vive entre nós! Ele está aqui! Isto basta-lhe? Vou dizer-lhe um segredo: eu vi o homem novo. É intrépido e cruel! Tive medo diante dele!, berra Hitler estremecendo. Outro espírito, possesso de terror, atacado pela loucura: Maupassant, lívido e a transpirar, escreve de forma precipitada um dos textos mais inquietantes da literatura francesa: Le Horla. Agora, eu sei, eu adivinho. O reino do homem terminou.
Chegou Aquele que o terror dos povos ingênuos receava. Aquele que exorcizavam os padres inquietos, que os feiticeiros evocavam nas noites sombrias, sem o ver ainda, a quem os pressentimentos dos mestres passageiros do Mundo emprestaram todas as formas monstruosas ou graciosas dos gnomos, dos espíritos, dos gênios, das fadas, dos duendes. Após as grosseiras concepções dos primitivos pavores, os homens mais perspicazes pressentiram-no com maior clareza. Mesmer adivinhara-o, e os médicos descobriram, há já dez anos, a natureza do seu poder antes que ele próprio o tenha exercido. Jogaram com a arma do Senhor novo o domínio de misterioso poder sobre a alma humana, tornada escrava. Chamaram a isso magnetismo, hipnotismo, sugestão... que sei eu? Vi-os divertir-se como crianças imprudentes com esse horrível poder! Desgraçados de nós! Desgraçado do homem! Ele chegou, o . . . o. . . Como se chama ele?. . . o. . . parece-me que ele grita o seu nome, e eu não o ouço... sim... ele grita-o... escuto... não posso. . . repete . . . o. . . Horla. . . ouvi. . . o Horla. . . é ele. . . o Horla... ele chegou!
Na sua interpretação balbuciante dessa visão cheia de deslumbramento e horror, Maupassant, homem da sua época, atribui ao superior poderes hipnóticos. A literatura moderna de ficção científica, mais próxima dos trabalhos de Rhine, de Soal, de Mac Connel que dos de Charcot, atribui-lhe poderes para-psicológicos: a telepatia, a ação a distância sobre os objetos. Alguns autores vão mais longe ainda e mostram-nos o Superior esvoaçando no espaço ou atravessando as paredes: aqui há apenas fantasia, agradável aspiração dos arquétipos dos contos de fadas.
Imagem: Guy de Maupassant (1850-1893) me tirou o sono na infancia... principalmente ...
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