segunda-feira, 21 de setembro de 2009

O Projeto Starchild, a "Criança das Estrelas"





9.agosto.2009 – por Steven Novella, Editor NEJS
The New England Journal of Skepticism Vol. 3 N. 1 (2000)

Há aproximadamente 60 ou 70 anos atrás, uma menina americana morando no México descobriu os esqueletos de um adulto e uma criança aparentemente malformada em uma caverna próxima à sua vila. A menina coletou os dois crânios e os guardou por toda a vida, até sua morte recente. Pouco antes de morrer, ela passou os crânios a um homem americano desconhecido que os manteve durante cinco anos. Os crânios foram então passados a um casal americano que os possui até hoje.
Esta é pelo menos a história que vem sendo contada sobre a assim chamada ‘Starchild’, ou ‘criança das estrelas’. Os crânios e a história contada são certamente interessantes. É interessante especular sobre por que o adulto e a criança morreram naquela caverna. Qual era a causa das malformações da criança? Eram congênitas, adquiridas ou algo mais? Teriam sido a causa da morte dela? A mãe morreu pela dor da criança perdida, ou foram ambos expulsos de sua aldeia? Certamente, uma comovente história deve estar por trás dos restos de um adulto e uma criança malformada achados lado a lado em uma caverna no México.

Há uma tendência, porém, de preencher tal especulação com a mitologia da cultura local. E uma das mitologias prevalecentes de nosso tempo refere-se à visitação de nosso planeta por pequenos aliens cinzas que estariam conduzindo um projeto misterioso de abdução humana, talvez envolvendo um projeto de hibridização. Não é surpresa portanto que aqueles que acreditam e popularizam esta mitologia apegaram-se à história destes dois crânios e interpretaram os detalhes de acordo com suas convicções.

Dois destes crédulos, Lloyd Pye e Mark Bean, montaram o que eles chamam de Projeto Criança das Estrelas (The Starchild Project), e têm um extenso website dedicado à sua investigação destes crânios (Pye e Bean, 1999). A investigação deles é um exemplo típico de pseudociência, e eu examinarei a análise deles citando as características pseudocientíficas presentes.
Aqui está um excerto da introdução do website:

Como informado por seu descobridor, o crânio “Criança das Estrelas” é malformado de muitos modos cruciais. De fato, há pouco no crânio que se compare a um humano normal. Ele realmente possui o mesmo número e tipo de ossos cranianos, mas nenhum é amoldado ou está posicionado como nos humanos. Também há outras semelhanças, incluindo certas extrusões e contornos ósseos, ligamentos de músculo e aberturas para veias e artérias que correspondem a humanos. Apesar dessas e outras conformidades reconhecíveis, uma esmagadora maioria de comparações demonstra desvios da norma humana.

Por vezes essas divergências são pequenas, mas na maioria das vezes elas são enormes, a um grau que deveria ter produzido um monstro fetal incompatível com a vida como nós a conhecemos. Ao invés, elas se combinam sutilmente para formar um esboço craniano assustadoramente semelhante ao tipo alien cinzento exemplificado na capa do livro de Whitley Streiber, “Communion”.

Uma vez que o crânio “Criança das Estrelas” mostra tantos desvios da norma humana, nós podemos seguramente esperar que o teste de DNA prove uma das três coisas: (1) um puro alien tipo Cinzento; (2) um híbrido alien-humano; ou (3) a mais bizarra deformidade humana desde o Homem Elefante.

Algumas características pseudocientíficas são reconhecíveis no excerto anterior. Os autores claramente mostram seus preconceitos de vários modos: usam citações assustadoras sobre a palavra ‘malformado’, chamam o crânio em questão de “Criança das Estrelas” (Starchild) e têm preferência clara por uma explicação alienígena. Eles usam uma linguagem forte para enfatizar as divergências do crânio, enquanto subestimam as similaridades com a anatomia humana. Eles então partem para declarar que as divergências se encaixam “sutilmente” com a imagem de um típico alien cinzento. (Veja a alegada reconstrução forense do crânio reproduzido no início. Seria curioso descobrir como eles sabem que os olhos eram completamente negros.)

Finalmente os confiantes autores predizem que a “Criança das Estrelas” ou é um alien cinza, um híbrido alien-humano, ou “a mais bizarra deformidade humana desde o Homem Elefante”. Aqui eles estão prematuramente limitando o número de hipóteses potenciais a duas hipóteses desejadas e uma caricaturização tendenciosa. Eles estão tentando estabelecer por uso de linguagem forte que se a criança for o resultado de uma malformação, é uma unicamente extrema e bizarra. Esta é uma tentativa clara de fazer esta hipótese não desejada parecer menos provável.

Agora que eles definiram a pergunta de uma forma limitada que lhes é conveniente, eles continuam a descartar a indesejada hipótese alternativa. Eles discutem as causas da deformidade, separando-as em duas categorias, infligidas e naturais. Eles discutem então, corretamente, que a natureza das deformidades não corresponde a qualquer prática conhecida de deformidade infligida, como bandagens na cabeça. Eles erram quando descartam uma possível deformidade natural.

Eles discutem que a criança não pode ter uma malformação genética (herdada) por causa da simetria do crânio e da falta de fusão prematura das suturas cranianas. Porém, eles descartam todas desordens genéticas nesta base, quando na verdade há algumas desordens sem assimetria nem fechamento prematuro das suturas cranianas. Eles discutem então que a criança não pode ter sofrido uma malformação congênita (presente no nascimento, mas não necessariamente herdada) porque a deformação é muito grande para que a criança sobrevivesse. Argumentam que malformação congênita em três áreas do crânio principais geralmente produz um feto inviável, enquanto a “Criança das Estrelas” exibe malformações em oito regiões do crânio e sobreviveu durante pelo menos alguns anos (métodos de cálculo de idade estimam que a criança tinha aproximadamente cinco anos quando morreu). Porém, eles ignoram a possibilidade da que a criança tenha sofrido uma desordem capaz de produzir vasta deformidade ao longo do crânio, sem causar morte imediata.

Pye e Bean alegam que consultaram 50 peritos (que eles mantêm em sigilo) e nenhum dos peritos pôde explicar adequadamente a aparência da “Criança das Estrelas” com base em deformidade natural. Eles declaram que “nas mãos de cientistas dedicados a enfiar peças quadradas nos buracos redondos do pensamento convencional, a patologia pode explicar virtualmente qualquer desvio”. Dado o preconceito claro e profundo dos autores, porém, não é surpreendente que eles tenham chegado a esta conclusão. Eles também demonstram a característica pseudocientífica de descartar a ciência como mera protetora do status quo. O que eles não fornecem é uma análise detalhada de qualquer deformidade particular oferecida pelos peritos e por que a deformidade proposta não se ajustaria ao crânio “Criança das Estrelas”.

Os autores nunca consideram diretamente a hidrocefalia congênita como uma possível explicação, embora eles a descartem junto com uma lista longa de deformidades naturais. Hidrocefalia quer dizer literalmente “água no cérebro” e resulta de um bloqueio no fluxo normal de fluido cérebro-espinhal (FCE) de onde ele é produzido dentro do cérebro ao espaço que cerca o cérebro e a coluna espinhal onde é reabsorvido. Como resultado do bloqueio, o fluido se acumula dentro do cérebro, empurrando para fora o cérebro e o crânio. Uma vez que em crianças pequenas os ossos do crânio ainda não se fundiram, o crânio fica livre para aumentar e acomodar este acúmulo de fluido.

Se uma criança sofrer de hidrocefalia sem tratamento até a idade de quatro ou cinco anos, seu crânio exibiria distorções em quase todas características. Todos ossos, proeminências, buracos, e suturas estariam presentes, como elas estão no crânio “Criança das Estrelas”, mas estariam deformados e deslocados. Isto é exatamente o que nós encontramos no crânio “Criança das Estrelas”. A hidrocefalia se acumula com o passar do tempo, assim uma criança com esta desordem pode sobreviver vários anos, e sem tratamento (hoje a hidrocefalia é tratável com uma cirurgia para drenar o fluido) provavelmente morreria com alguns anos de idade. A grande cabeça bulbosa resultante seria vagamente semelhante à imagem típica de um alien cinza.

Pye e Bean virtualmente ignoram esta explicação mundana, e a descartam com bases insatisfatórias. Eles também se estendem longamente para interpretar o crânio de acordo com sua hipótese claramente preferida. Eles assim demonstram a característica central da pseudociência.

E quanto à previsão confiante de que o teste de DNA provaria que a criança era alien? Bem, uma amostra de DNA foi tirada do crânio e sujeita a análises de DNA desenhadas para descobrir seqüências de DNA únicas aos humanos (executadas pelo Dr. David Sweet, Diretor da Agência de Odontologia Legal da Universidade de British Columbia). O DNA do crânio “Criança das Estrelas” foi descoberto como possuidor tanto de um cromossomo X quanto um Y. Isto é evidência conclusiva de que a criança não só era humana (e um menino), mas que ambos os pais deveriam ter sido humanos também, já que cada um deve ter contribuído com um dos cromossomos sexuais humanos presentes.
Frente a tal evidência, seria razoável esperar que se Pye e Bean fossem cientistas genuínos eles abandonariam sua hipótese alienígena. Porém, o website deles continua a apoiar uma explicação alien à “Criança das Estrelas”, e isto é o que eles têm a dizer sobre a evidência de DNA:

Outro conceito avançado que deve ser considerado é a suposição razoável que um híbrido alien-humano poderia ter tanto DNA humano quanto instruções genéticas aliens embutidas em sua formação, com ambos os conjuntos de instruções ativos, complementares e cooperativos. Além disso, ambos poderiam ser construídos de modos completamente diferentes, com o DNA sendo a base da estrutura genética humana e ??? (base de silício, nanotecnologia, etc.) sendo a base da estrutura alien. Indo um passo adiante, tanto DNA quanto ??? poderiam estar presentes como conjuntos completos — a totalidade do DNA humano e a totalidade do código genético alien, qualquer que seja — e ambos os conjuntos estariam disponíveis para referência ou reparo.

Pye e Bean executaram a clássica manobra pseudocientífica de recuar frente a evidência contrária e partir para uma versão mais estranha e bizarra de sua hipótese desejada. Se um conjunto completo de DNA humano estiver presente, então todos os testes para humanidade serão positivos. O desconhecido componente alien provavelmente nunca será detectável. Pye e Bean agora se isolaram de qualquer chance de abandonar a hipótese desejada.

Dada a tendência dos pseudocientistas de abraçar a cultura do estranho, e rejeitar padrões científicos, eu não fui pego de surpresa ao descobrir que tanto Pye quanto Bean já defenderam outras idéias pseudocientíficas. Pye, por exemplo, publicou um livro intitulado “Tudo o que você sabe está errado, Parte 1: Origens Humanas” (Everything You Know is Wrong, Part I: Human Origins) no qual ele diz explicar por que nós só usamos 10% de nosso cérebro, por que a evolução Darwiniana está errada, por que não há nenhum antepassado fóssil humano, provas do Pé Grande e o Yeti, e como os antigos Sumérios aprenderam tudo você sempre quis saber sobre origens humanas de aliens espaciais. (Pye, 1999) Pye promete “evidência forte e baseada em fatos” para apoiar suas alegações.

Nós provavelmente nunca saberemos toda a história sobre a “Criança das Estrelas”, mas o que está claro é que aliens não precisam ser invocados. A criança muito provavelmente sofreu de hidrocefalia não tratada, uma explicação mundana e simples para as anomalias vistas no crânio. Testes de DNA confirmam, sem surpresa, a ascendência humana da criança. Entretanto, é provável que os verdadeiros crentes agarrem-se tenazmente a suas hipóteses preferidas, e continuem a espalhar historinhas sobre um programa de procriação alien-humano. A ciência progride, enquanto a pseudociência permanece estagnada em desejadas crenças predeterminadas.

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Referências
The Starchild Project data site – Em inglês
Lloyd Pye website – Em inglês
Forbes CD, Jackson WF. A Colour Atlas and Text of Clinical Medicine. Wolfe Publishing, 1993

http://www.ceticismoaberto.com/ufologia/2159/o-projeto-starchild-a-criana-das-estrelas

imagens:
http://www.nationalufocenter.com/artman/uploads/35starchild_001.jpg
http://1.bp.blogspot.com/_iq2vQY1Jeaw/SdS8J5KveCI/AAAAAAAAMa0/v_S9qm7WYt4/s400/starchild.jpg