segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O Despertar dos Mágicos (66). viu em sonhos os cabeçalhos dos jornais anunciando a erupção do Monte Yelé, na Martinica,


Observando bem, tudo isto reflete com mais fidelidade o fundo dos pensamentos e das inquietações do homem de hoje do que as análises do romance neonaturalista ou os estudos político-sociais;

Louis Pauwels e Jacques Bergier. DIFEL

em breve disso nos aperceberemos, quando aqueles que usurpam a função de testemunha e vêem as coisas novas com olhos antigos forem fulminados pelos fatos. A cada passo, neste mundo aberto sobre o estranho, o homem vê surgir pontos de interrogação tão desmedidos como eram os animais e os vegetais antediluvianos, Não estão à medida. Mas qual é a medida do homem? A sociologia e a psicologia evoluíram muito menos depressa do que a física e as matemáticas. É o homem do século XIX que se encontra subitamente em presença de um mundo diferente. Mas o homem da sociologia e da psicologia do século XIX será o verdadeiro homem? Nada é menos certo.
Após a revolução intelectual suscitada pelo Discurso do método, de Descartes, após o aparecimento das ciências e do espírito enciclopédico no século XVIII, após a importante contribuição do racionalismo e do cientismo otimista do século XIX encontramo-nos num momento em que a imensidade e a complexidade do real que acaba de ser revelado deveria necessariamente alterar o que até aqui pensávamos da natureza do conhecimento humano, perturbar as idéias adquiridas a respeito das relações do homem com a sua própria inteligência - numa palavra, exigir uma atitude de espírito muito diferente daquilo a que ontem chamávamos a atitude moderna. A uma invasão do fantástico exterior deveria corresponder uma exploração do fantástico interior. Haverá um fantástico interior? E aquilo que o homem fez não será a projeção
daquilo que ele é ou virá a ser?
É portanto a esta exploração do fantástico interior que vamos proceder. Ou, pelo menos, esforçar-nos-emos por fazer sentir que essa exploração seria necessária, e esboçar um método. Evidentemente, não tivemos nem o tempo nem os meios para nos entregarmos a medidas e experimentações que nos parecem, no entanto, desejáveis e que talvez venham a ser tentadas por investigadores melhor qualificados. Mas a índole do nosso trabalho não era medir e experimentar.
Era, como em todo este nosso trabalho, recolher fatos e relações entre os fatos, que a ciência oficial por vezes despreza ou aos quais recusa o direito de existência. Esta maneira de trabalhar pode parecer insólita e prestar-se a suspeitas. No entanto esteve na origem de grandes descobertas. Darwin, por exemplo, não agiu de forma diferente, colecionando e comparando informações desprezadas. A teoria da evolução nasceu dessa coletânea aparentemente absurda. Da mesma forma, e salvas as devidas proporções, nós vimos surgir no decurso do nosso trabalho uma teoria do homem interior verdadeiro, da inteligência total e da consciência desperta.
Este trabalho está incompleto: teríamos precisado de mais dez anos. Além disso, apenas apresentamos um resumo, ou antes uma imagem, a fim de não aborrecermos, pois é com a frescura de espírito do leitor que contamos, visto termos tentado sempre manter o nosso nesse estado.
Inteligência total, consciência desperta, estamos convencidos que o homem se dirige para as conquistas essenciais, no seio desse mundo em pleno renascimento e que parece antes de mais exigir-lhe que renuncie à liberdade. Mas liberdade para fazer o quê? perguntava Lenine. A liberdade de ser apenas aquilo que é é-lhe de fato retirada apouco e pouco. É a liberdade de se tornar diferente, de passar a um estado superior de inteligência e de consciência, que em breve lhe será concedida. Essa liberdade não é de essência psicológica, mas mística, pelo menos se nos referimos aos esquemas antigos, à linguagem de ontem. Em certo sentido, supomos que o essencial da civilização é que a caminhada dita mística se expande; sobre esta terra fumegante de fábricas e vibrante de foguetões, pela humanidade inteira. Verificar-se-á que esta caminhada é prática, que é, em certa medida, o segundo sopro de que os homens precisam para obedecer ao aceleramento do destino da Terra.
Deus criou-nos o menos possível. A liberdade, esse poder de ser causa, essa faculdade do mérito, quer que o homem se refaça a si próprio.
O FANTÁSTICO INTERIOR
Pioneiros: Balzac Hugo, Flammarion. -Jules Romains e a mais vasta interrogação. - O fim do positivismo. O que é a parapsicologia? - Fatos extraordinários e experiências autênticas. -O exemplo do Titanic. - Vidência. - Premonição e sonho. - Parapsicologia e psicanálise. O nosso trabalho exclui o recurso ao ocultismo e às falsas ciências. -Em busca da maquinaria das profundezas.
O crítico literário e filósofo Albert Béguin afirmava que Balzac era mais um visionário do que um observador. Essa tese parece-me exata. Num conto admirável, Le Rèquisitionnaire, Balzac imagina o aparecimento da parapsicologia, que se produzirá na segunda metade do século XX e tentara estabelecer como ciência exata o estudo dos poderes psíquicos do homem:
Precisamente à hora a que Madame de Dey morria em Carentan, fuzilavam seu filho no Morbihan. Podemos juntar este acontecimento trágico a todas as observações sobre as simpatias que desconhecem as leis do espaço; documentos que reúnem com sábia curiosidade alguns homens solitários, e que servirão um dia para estabelecer as bases de uma ciência nova à qual faltou até agora um homem de gênio.
Em 1891, Camille Flammarion declarava ': O nosso fim de século assemelha-se ao do século anterior. O espírito sente-se fatigado das afirmações da filosofia que se qualifica de positiva. Julgamos adivinhar que ela se engana... Conhece-te a ti próprio! dizia Sócrates. Há milhares de anos aprendemos uma imensidade de coisas, exceto a que mais nos interessa. Parece que a atual tendência do espírito humano é finalmente a de obedecer a máxima socrática.
À casa de Flammarion, no observatório de Juvisy, ia Conan Doyle uma vez por mês, vindo de Londres, estudar com o astrônomo fenômenos de vidência, de aparições, de materializações, aliás duvidosos. Flammarion acreditava em fantasmas e Conan Doyle colecionava fotografias de fadas. A nova ciência pressentida por Balzac ainda não nascera, mas sentia-se-lhe a necessidade.
Vitor Hugo dissera magnificamente no seu comovente estudo sobre William Shakespeare: Todo o homem tem nele o seu Patmos. É livre de ir ou não ir a esse pavoroso promontório do pensamento desde o qual se vislumbram as trevas. Se lá não vai, mantém-se na vida vulgar, na consciência vulgar, na virtude vulgar, na fé vulgar, na dúvida vulgar, e está certo. Para o repouso interior é evidentemente melhor. Se se dirigir a esse cume, está apanhado. As profundas vagas do prodígio mostraram-se-lhe. Ninguém vê impunemente esse oceano... Ele obstina-se nesse abismo atraente, nessa sondagem do inexplorado, nesse desinteresse pela Terra e pela vida, nessa entrada no que é proibido, nesse esforço de tatear o impalpável, nesse olhar sobre o invisível, ali volta, ali regressa, ali se agarra, ali se debruça, ali dá um passo, depois dois, e é assim que penetra no impenetrável, e é assim que avançamos no alargamento sem limites da condição infinita.
Quanto a mim, foi em 1939 que tive a visão exata de uma ciência que, por trazer testemunhos irrecusáveis sobre o homem interior, em breve obrigaria o espírito a uma nova reflexão a respeito da natureza do conhecimento e, ao avançar, levaria a modificar os métodos de toda a pesquisa científica, em todos os domínios. Tinha eu dezenove anos quando a guerra se apossou de mim na altura em que decidira consagrar a vida à criação de uma psicologia e de uma fisiologia dos estados místicos. Nesse momento li na Nouvelle Revue Française um ensaio de Jules Romains: Resposta à mais vasta interrogação, que inesperadamente veio reforçar a minha posição. Também esse ensaio era profético. De fato, depois da guerra nasceu uma ciência do psiquismo, a parapsicologia, que está atualmente em pleno desenvolvimento, ao passo que no interior das ciências oficiais, como as matemáticas ou a física, o espírito, de certa maneira, mudava de plano.
Suponho, escrevia Jules Romains, que a principal dificuldade para o espírito humano, não é tanto atingir conclusões verdadeiras numa certa ordem ou em determinadas direções, mas descobrir o meio de harmonizar as conclusões às quais chega ao trabalhar com diversas ordens de realidade, ou ao embrenhar-se por diversas direções que variam segundo as épocas. Por exemplo, é-lhe muito difícil harmonizar as idéias em si mesmas muito exatas, às quais foi levado pela ciência moderna trabalhando sobre os fenômenos físicos, com as idéias, talvez muito válidas também, que encontrara nas épocas em que se ocupava principalmente das realidades espirituais ou psíquicas, e às quais ainda hoje recorrem aqueles que, à parte os métodos físicos, se consagram a investigações de ordem espiritual ou psíquica.
Não penso de forma alguma que a ciência moderna, que é muitas vezes acusada de materialismo, esteja ameaçada por uma revolução que arruinaria os resultados a respeito dos quais tem certezas (só podem estar ameaçadas as hipóteses demasiado gerais ou prematuras de que não está certa) . Mas um dia pode encontrar-se perante resultados tão coerentes, tão decisivos, atingidos pelos métodos chamados psíquicos, que lhe será impossível considerá-los, como agora o faz, nulos e não existentes.
Muitas pessoas supõem que nessa altura as coisas se arranjarão facilmente, a ciência considerada positiva não devendo então senão conservar calmamente o seu atual domínio, e deixar desenvolver-se fora das suas fronteiras conhecimentos diferentes, que atualmente considera puras superstições, ou que afasta para o inconhecível, abandonando-as desdenhosamente à metafísica. Mas as coisas não se passarão tão comodamente. Muitos dos resultados mais importantes da experimentação psíquica, no dia em que forem confirmados - se o vierem a ser - e oficialmente considerados como verdades, virão atacar a ciência positiva no interior das suas fronteiras; e será necessário que o espírito humano, que até aqui, por medo das responsabilidades, simula não dar pelo conflito, se decida a fazer uma arbitragem. Seria uma crise muito grave, tão grave como a que foi provocada pela aplicação das descobertas físicas na técnica industrial. A própria vida da humanidade seria alterada. Julgo essa crise possível, provável e mesmo bastante próxima.
Numa manhã de Inverno, acompanhei um amigo à clínica onde devia ser operado de urgência. O dia ainda não rompera completamente e caminhávamos sob a chuva, procurando angustiosamente um táxi. A febre invadia o meu amigo cambaleante que, de súbito, me apontou com o dedo, sobre o passeio, uma carta de jogar coberta de lama.
Se for um Joker, disse, é porque tudo correrá bem. Apanhei a carta e virei-a. Era um Joker. A parapsicologia tenta sistematizar o estudo dos fatos dessa natureza por acumulação experimental. Será o homem normal dotado de um poder que ele quase nunca utiliza, simplesmente porque, segundo parece, foi persuadido de que não o possui.
Uma experimentação realmente científica parece na verdade eliminar a noção de acaso. Tive ocasião de participar, em companhia, inclusivamente, de Aldous Huxley, no Congresso Internacional de Parapsicologia de 1955, e, depois, de seguir os trabalhos interessados nessa investigação. Não seria possível duvidar da seriedade desses trabalhos. Se a ciência não acolhesse os poetas com certa reticência, aliás legítima, a parapsicologia poderia encontrar uma excelente definição em Apollinaire:
Todo o mundo é profeta, meu caro André Billy, mas há tanto tempo que dizem às pessoas Que não têm futuro e ficarão para sempre ignorantes E idiotas de nascença Que nos resignamos e que ninguém tem sequer a idéia De perguntar a si próprio se conhece ou não o futuro. Não há, em tudo isto, espírito religioso Nem nas superstições nem nas profecias Nem em tudo a que se chama ocultismo Existe principalmente uma forma de observar a natureza E de interpretar a natureza Que é muito legítima.
A experimentação parapsicológica parece provar que existem, entre o Universo e o homem, outras relações além das estabelecidas pelos sentidos habituais. Todo o ser humano normal poderia ver objetos à distância ou através das paredes, influenciar o movimento dos objetos sem lhes tocar, projetar os seus pensamentos e os seus sentimentos no sistema nervoso de outro ser humano, e finalmente ter por vezes a percepção de futuros acontecimentos.
Sir H. R. Haggard, escritor inglês, falecido em 1925, apresentou, no seu romance Maiwas Revenge, uma descrição pormenorizada da evasão de Allan Quatermain, o seu herói. Este é capturado pelos selvagens ao transpor um rochedo. Os seus perseguidores agarram-no por um pé: ele liberta-se disparando sobre eles um tiro de pistola, paralelamente à sua perna direita. Alguns anos após a publicação do romance, um explorador inglês apresenta-se em casa de Haggard. Vinha propositadamente de Londres perguntar ao escritor como é que este soubera da sua aventura com todos os pormenores, pois não falara a ninguém no caso e pretendia manter esse assassínio secreto.
Na biblioteca do escritor austríaco Karl Hans Strobi, falecido em 1946, o seu amigo Willy Schrodter fez a seguinte descoberta: Abri as suas obras, colocadas numa prateleira. Havia inúmeros artigos de imprensa entre as páginas. Não eram críticas, como a princípio supus, mas notícias vulgares. Verifiquei impressionado que relatavam acontecimentos descritos muito tempo antes por Strobi.
Em 1898, um ator de ficção científica americano, Morgan Robertson, descrevia o naufrágio de um navio gigantesco. Esse navio imaginário deslocava 70000 toneladas, media 800 pés e transportava 3000 passageiros. O motor era equipado com três hélices. Numa noite de Abril, quando da sua primeira viagem, descobria, no nevoeiro, um iceberg que se afundava. O seu nome era O Titã.
O Titanic que mais tarde em 1912 viria a desaparecer nas mesmas circunstâncias, deslocava 66 000 toneladas, media 828,5 pés, transportava 3000 passageiros e possuía três hélices. A catástrofe deu-se numa noite de Abril.
Isto são fatos. Eis agora experiências feitas por parapsicólogos: Em Durham, U.S.A., o experimentador tem na mão um jogo de cinco cartas especiais. Baralha as cartas e tira¬as uma após as outras. Uma máquina de filmar registra. No mesmo instante, em Zagreb, na Iugoslávia, outro experimentador tenta adivinhar qual a ordem em que as cartas são tiradas. Isto é repetido milhares de vezes. A proporção de respostas certas é mais importante do que o acaso permite.
Em Londres, numa sala fechada, o matemático J. S. Soal tira cartas de um baralho semelhante. Atrás de uma divisão opaca, o estudante Basil Shakelton procura adivinhar. Se compararmos, verificaremos que o estudante adivinhou, neste caso numa proporção igualmente superior ao acaso, de cada vez a carta que ia sair na manipulação seguinte.
Em Estocolmo, um engenheiro constrói uma máquina que, automaticamente, lança dados ao ar e filma-lhes a queda. Os espectadores, membros da Universidade, tentam mentalmente favorecer a queda de um determinado número, desejando intensamente essa queda. Conseguem-no numa proporção que o acaso não seria suficiente para justificar.
Estudando os fenômenos de premonição em estado de sono, o inglês Dunne demonstrou científicamente que certos sonhos são capazes de revelar um futuro, mesmo longínquo, e dois investigadores alemães, Moufang e Stevens, num trabalho intitulado Le Mystère des Rêvesz, citaram numerosos casos precisos, verificados, nos quais os sonhos tinham revelado acontecimentos futuros ou conduzido a importantes descobertas científicas.
O célebre atomista Niels Bohr, quando estudante, teve um sonho estranho. Viu-se sobre um sol de gás escaldante. Vários planetas passavam assobiando. Estavam ligados a esse sol por delgados filamentos e giravam em redor. De súbito, o gás solidificou-se, o sol e os planetas desfizeram-se. Niels Bohr acordou nessa altura e teve consciência de que acabava de descobrir o modelo do átomo, tão procurado. O sol era o centro fixo em volta do qual giravam os elétrons. Toda a física atômica moderna e suas aplicações saíram desse sonho.
O químico Auguste Kékulé conta: Uma noite de Verão adormeci na plataforma do autocarro em que regressava a casa. Vi nitidamente a maneira como, por todos os lados, os átomos se uniam aos pares que eram arrastados por grupos mais importantes, eles próprios atraídos por outros ainda mais potentes; e todos esses corpúsculos rodopiavam numa roda desenfreada.
J. W. Dunne sonhou, em 1901, que a cidade de Lowestoft, nas encostas do canal da Mancha, era bombardeado por uma esquadra estrangeira. Esse bombardeamento deu¬se em 1914, com todos os pormenores registrados em 1901 por Dunne.
Esse mesmo Dunne viu em sonhos os cabeçalhos dos jornais anunciando a erupção do Monte Yelé, na Martinica, alguns meses antes do acontecimento (1902).
Imagem: J.W. DUNNE. Se dice que, a veces, la poesía no se encuentra en la poesía, ...
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