domingo, 11 de dezembro de 2011

O Despertar dos Mágicos (64. O diamante risca o vidro. Mas o borazon, cristal sintético, risca o diamante.



Eles pretendiam modificar a vida e misturá-la com a morte de uma forma diferente. Preparavam a vinda do Supremo desconhecido. Tinham uma concepção mágica do mundo e do homem. A isso sacrificaram toda a juventude do seu país e ofereceram aos deuses um oceano de sangue humano.

Louis Pauwels e Jacques Bergier. DIFEL

Tinham feito tudo para se porem de acordo com a vontade das Potências. Odiavam a moderna civilização ocidental, quer fosse burguesa ou operária, aqui o seu humanismo insípido e além o seu materialismo limitado. Tinham de vencer, pois eram portadores de uma chama que os seus inimigos, capitalistas ou marxistas, há muito tinham deixado extinguir-se dentro deles, repousando sonolentos sobre uma concepção do destino inexpressiva e limitada. Seriam os mestres durante um milênio, porque estavam do lado dos magos, dos grandes sacerdotes, dos demiurgos...
E ei-los vencidos, espezinhados, julgados, humilhados por pessoas ordinárias que mastigam chewing-gum ou bebem vodka; pessoas sem qualquer espécie de inspiração sagrada, de crenças limitadas e com objetivos sem grandeza. Pessoas do mundo da superfície, positivas, racionais, morais, homens simplesmente humanos. Milhões de homenzinhos de boa vontade punham em posição crítica a vontade dos cavaleiros das trevas resplandecentes. A Leste, esses papalvos mecanizados, a Oeste, esses puritanos de esqueleto mole tinham construído em quantidades superiores tanques, aviões, canhões.
E possuíam a bomba atômica, eles que não sabiam nada a respeito das grandes energias ocultas! E agora, como os caracóis depois da tempestade, saídos da chuva de ferro, juízes de óculos, professores de direito humanitário, de virtude horizontal, doutores em mediocridade barítonos do Exército de Salvação, carregadores da Cruz Vermelha, ingênuos porta-vozes dos amanhãs que cantam ' iam a Nuremberg dar lições de moral primária aos Senhores, aos monges combatentes que tinham assinado um pacto com as Potências, aos Sacrificadores que liam no espelho negro, aos aliados de Schamballah, aos herdeiros do Graal! E enviavam-nos para a forca acusando-os de criminosos e loucos enraivecidos!
O que não podiam compreender os acusados de Nuremberg e os seus chefes que se haviam suicidado, é que a civilização que acabava de triunfar era, também ela e com maior certeza, uma civilização espiritual, um formidável movimento que, de Chicago a Tachkent, arrasta a humanidade para um destino mais alto. Eles tinham posto emdúvida a Razão e substituíram-lhe a magia. É que de fato a Razão cartesiana não engloba o todo do homem, o todo do seu conhecimento. Tinham-na posto a dormir. Ora o sono da razão gera os monstros. O que se passava no partido adversário é que a razão, de forma nenhuma adormecida, mas pelo contrário exaltada ao máximo, alcançava por um caminho mais alto os mistérios do espírito, os segredos da energia, as harmonias universais.
À força de racionalidade exigente, o fantástico aparece e os monstros gerados pelo sono da razão não passam da sua negra caricatura. Mas os juízes de Nuremberg, mas os porta-vozes da civilização vitoriosa não sabiam que aquela guerra fora uma guerra espiritual. Não tinham uma visão suficientemente elevada do seu próprio mundo. Apenas acreditavam que o Bem vencera o Mal, sem ter visto a profundidade do mal vencido e a grandeza do bem triunfante. Os místicos guerreiros alemães e japoneses julgavam-se mais mágicos do que na realidade eram. Os civilizados que os tinham vencido não tomaram consciência do superior sentido mágico que o seu próprio mundo adquiria. Eles falavam da Razão, da Justiça, da Liberdade, do Respeito pela Vida, etc., num plano que já não era o dessa segunda metade do século XX na qual o conhecimento se transformou, onde a passagem para outro estado da consciência humana se tornou perceptível.
É verdade que os nazistas deviam ganhar, se o mundo moderno não passasse do que ainda é aos olhos da maior parte de nós: a herança pura e simples do século XIX, materialista e cientista, e do pensamento burguês que considera a Terra um local onde devemos desfrutar o maior prazer possível. Existem dois diabos. Aquele que transforma a ordem divina em desordem, e o que transforma a ordem noutra ordem não divina.
A Ordem Negra devia vencer uma civilização que ela supunha caída ao nível dos apetites apenas materiais, dissimulados sob uma moral hipócrita. Mas ela não era apenas isso. Um rosto novo surgia durante o martírio que os nazistas lhe infligiam, como o Rosto sobre o Santo Sudário. Do aumento da inteligência nas massas à física nuclear, da psicologia dos vértices da consciência aos foguetões interplanetários, uma alquimia se operava, esboçava-se a promessa de uma transmutação da humanidade, de uma ascensão do ser vivo.
Talvez isso não se constatasse de forma evidente, e alguns espíritos medianamente profundos lamentavam os tempos muito antigos da tradição espiritual, mantendo desta forma um certo pacto com o inimigo no mais ardente de si próprios, devido à sua revolta contra este mundo no qual só viam uma mecanicidade cada vez mais invasora. Mas, ao mesmo tempo, homens como Teilhard de Chardin, por exemplo, tinham os olhos mais abertos. Os olhos da inteligência superior e os olhos do amor descobrem a mesma coisa sobre planos diferentes.
O impulso dos povos a caminho da liberdade, o canto de confiança dos mártires continham em gérmen essa grande esperança arcangélica. Essa civilização, tão mal interpretada do exterior pelos místicos adeptos do passado como do interior pelos progressistas primários, devia ser salva. O diamante risca o vidro. Mas o borazon, cristal sintético, risca o diamante. A estrutura do diamante é mais ordenada que a do vidro. Os nazistas podiam vencer. Mas a inteligência alerta pode ter uma ação criadora, edificando figuras da ordem mais puras do que as que brilham nas trevas.
Quando me esbofeteiam não apresento a outra face e também não dou um murro: atiro um raio. Era necessário que essa batalha entre os Senhores das camadas inferiores e os homenzinhos da superfície, entre as Potências obscuras e a humanidade em progresso, terminasse em Hiroshima com o sinal evidente da Potência sem discussão.
TERCEIRA PARTE
O HOMEM, ESSE INFINITO - UMA NOVA INSTITUIÇÃO
O Fantástico no fogo e no sangue. -As barreiras da incredulidade. -O primeiro foguetão. - Burgueses e obreiros da Terra. - Os fatos falsos e a ficção verdadeira. Os mundos habitados. - Os visitantes vindos do exterior - As grandes comunicações. - os mitos modernos. Do realismo fantástico em psicologia. -Para uma exploração do fantástico interior - Exposição do método. Uma concepção diferente da liberdade.
Quando saí da cave, Juvisy, a cidade da minha infância tinha desaparecido. Uma espessa bruma amarelada recobria um mar de caliça de onde saíam apelos e gemidos. O mundo dos meus jogos, das minhas amizades, dos meus amores e a maior parte das testemunhas do início da minha vida jaziam sob esse vasto campo lunar. Um pouco mais tarde, quando os socorros se organizaram, os pássaros, enganados pelos projetores, regressaram e, supondo que era dia, começaram a cantar nas moitas cobertas de poeira.
Outra recordação: numa manhã de Verão, três dias antes da Libertação, encontrava-me eu, com dez camaradas, numa casa particular próximo do bosque de Bolonha. Vindos de diversos acampamentos de juventude bruscamente abandonados, o acaso reuniu¬nos naquela última escola de quadros onde continuavam a ensinar-nos, imperturbavelmente, enquanto o mundo se desmoronava no meio do estrondo das armas e dos grilhões, a arte de fabricar marionetes, de representar comédias e de cantar. Naquela manhã, de pé no hall de um falso gótico, sob a orientação de um romântico chefe de coro, cantávamos a três vozes uma canção folclórica: Dêem-me água, dêem-me água, água, água para os meus dois cântaros. . . O telefone interrompeu-nos.
Alguns minutos depois, o nosso professor de canto fazia-nos entrar para uma garagem. Outros rapazes, de pistola em punho, vigiavam as entradas. Entre os velhos automóveis e os barris de óleo jaziam alguns jovens, crivados de balas, acabados de matar à granada: era o grupo de resistentes torturados pelos alemães na Cascata do Bosque. Tinham conseguido reaver os corpos. Encomendaram-se caixões. Partiram estafetas para prevenir as famílias. Era necessário lavar os cadáveres, limpar as poças de sangue, abotoar os casacos e as calças abertas pelas granadas, cobrir de papel branco e deitar dentro das suas caixas aqueles assassinados cujos olhos, as bocas e as feridas gritavam de pavor, dar àqueles rostos, àqueles corpos, uma aparência de morte decente; e naquele odor de matadouro, de esponja ou escova na mão, nós dávamos água, água, água...
Pierre Mac Orlan, antes dessa guerra, viajava em busca do fantástico social que encontrava no pitoresco dos grandes portos: tabernas de Hamburgo sob a chuva, cais do Tamisa, fauna de Antuérpia. Requinte encantador! Mas já fora de uso.
O fantástico deixou de ser uma ocupação de artista para se tornar, no meio do fogo e do sangue, a experiência vivida pelo mundo civilizado. O marroquineiro da nossa rua apareceu uma manhã estendido à porta de casa, com uma estrela amarela sobre o coração. O filho da porteira recebia mensagens de Londres em estilo surrealista e usava invisíveis galões de capitão. Uma secreta guerra de partidos colocava subitamente sujeitos enforcados nas varandas da aldeia. Vários universos, violentamente diferentes, se sobrepunham; uma aragem do acaso nos fazia passar de um para outro.
Bergier conta-me No campo Mauthausen usávamos a menção N. N., noite e nevoeiro. Nenhum de nós pensava sobreviver. A 5 de Maio de 1945, quando o primeiro jeep americano galgou a colina, um deportado russo, responsável pela luta anti-religiosa na Ucrânia que estava deitado ao meu lado, ergueu-se sobre um cotovelo e exclamou: Deus seja louvado!
Todos os homens válidos foram repatriados em fortaleza voadora, e foi por isso que meencontrei, na madrugada de 19, no aeródromo de Heinz, na Áustria. O avião vinha da Birmânia.
É uma guerra mundial, não é verdade?, disse-me o radiotelegrafista. Transmitiu a meu pedido uma mensagem para o quartel-general aliado de Reims, depois mostrou-me o equipamento de radar. Havia toda a espécie de aparelhos cuja realização eu julgara impossível antes do ano 2000. Em Mauthausen, os médicos americanos tinham-me falado da penicilina. Em dois anos, as ciências tinham avançado um século. Tive uma idéia louca:
E a energia atômica? - Falam nisso, respondeu-me o radiotelegrafista. É bastante secreto, mas correm boatos. . .
Algumas horas depois encontrava-me no boulevar de Madeleine, com o meu fato de riscas. Seria Paris? Seria um sonho? Estava rodeado por pessoas, faziam-me perguntas. Refugiei-me no metropolitano e telefonei a meus pais: Esperem um momento já aí vou. Mas voltei a sair. Era mais importante que tudo. Em primeiro lugar precisava de encontrar o meu local favorito de antes da guerra: a livraria americanaBrentano's, na avenida da Ópera: Fiz uma entrada notável. Todos os jornais, todas as revistas, às braçadas... Sentado num banco das Tulherias, tentei reconciliar o universo presente com aquele que tinha conhecido. Mussolini fora pendurado num gancho. Hitler suicidara-se. Havia tropas alemãs na ilha de Oléron e nos portos do Atlântico. Então a guerra em França não terminara? As revistas técnicas eram perturbantes. A penicilina, que era o triunfo de sir Alexander Fleming, seria então uma coisa séria? Uma nova química surgira, a dos silicones, corpos intermédios entre o orgânico e o mineral.
O helicóptero, cuja impossibilidade fora demonstrada em 1940, era construído em série. A eletrônica acabava de fazer progressos fantásticos. A televisão em breve estaria tão difundida como o telefone. Desembarquei num mundo edificado pelos meus sonhos sobre o ano 2000. Vários textos eram-me incompreensíveis. Quem era esse marechal Tito? E essas Nações Unidas? E esse D. D. T.?
Bruscamente, comecei a compreender, em carne e espírito, que já não era nem prisioneiro, nem condenado à morte, e que tinha todo o tempo e toda a liberdade para compreender e para agir. Tinha, em primeiro lugar, toda aquela noite, se assim o desejasse... Devo ter ficado muito pálido. Uma mulher dirigiu-se-me e pretendeu levar-me a um médico. Fugi, corri para casa de meus pais, que encontrei lavados em lágrimas. Sobre a mesa da sala de jantar havia envelopes trazidos por ciclistas, telegramas militares e civis. Lião ia dar o meu nome a uma rua, era nomeado capitão, condecorado por diversos países, e uma expedição americana em busca de armas secretas na Alemanha pedia o meu auxílio. Por volta da meia-noite, meu pai obrigou¬me a ir para a cama. No momento de adormecer, a minha memória foi inexplicavelmente assaltada por duas palavras latinas: magna, mater.
No dia seguinte de manhã, ao acordar, encontrei-as de novo e compreendi-lhes o sentido. Na antiga Roma os candidatos ao culto secreto da magna mater tinham de passar através de um banho de sangue. Se sobreviviam, nasciam uma segunda vez.
Naquela guerra, todas as portas de comunicação entre todos os mundos se abriram. Uma formidável corrente de ar. Depois a bomba atômica projetou-nos na era atômica. No momento a seguir, os foguetões anunciavam-nos a era cósmica. Tudo se tornava possível. As barreiras da incredulidade, tão fortes no século XIX, acabavam de ser violentamente sacudidas pela guerra. Agora, desmoronavam-se por completo.
Em Março de 1954, o senhor Ch. Wilson, secretário americano do Ministério da Guerra, declarava: Os U.S.A., assim como a Rússia, possuem daqui para o futuro o poder de destruir o Mundo inteiro. A idéia do final dos tempos penetrava nas consciências. Separado do passado, receoso do futuro, o homem descobria o presente como um valor absoluto, essa pequena fronteira como uma eternidade recuperada. Viajantes do desespero, da solidão e do eterno partiam em jangadas pelos mares fora, Noés experimentais, pioneiros do próximo dilúvio, alimentando-se de plâncton e de peixes alados. Ao mesmo tempo afluíam em todos os países testemunhos sobre a aparição de discos voadores. O céu povoava-se de inteligências exteriores. Um modesto comerciante de sandes, chamado Adamsky, que tinha uma loja por baixo do grande telescópio do monte Palomar, na Califórnia, nomeia-se professor, declara que os venusianos o visitaram, conta as conversas trocadas num livro que obteve um dos maiores êxitos de venda do após-guerra e transforma-se no Rasputin da corte da Holanda. Num mundo igualmente visitado pelo trágico e pelo estranho, podemos perguntar a nós próprios como são feitas as pessoas que não têm fé e que também se não querem divertir.
Quando lhe falavam no fim do Mundo, Chesterton replicava: Porque me hei-de preocupar? O fim do Mundo já se deu várias vezes. Há um milhão de anos que os homens habitam a Terra, e sem dúvida sofreram mais de um apocalipse. A inteligência extinguiu-se e reacendeu-se diversas vezes. Um homem que se vê caminhar ao longe na noite, com uma lanterna na mão, é alternadamente sombra e fogo. Tudo nos incita a pensar que o fim do Mundo se deu mais uma vez e que fazemos agora uma nova aprendizagem da existência inteligente num mundo novo: o mundo das grandes massas humanas, da energia nuclear, do cérebro eletrônico e dos foguetões interplanetários. Talvez precisássemos de uma alma e de um espírito diferentes para esta Terra diferente.
A 16 de Setembro de 1959, às 22 h. e 2 m., todos os rádios de todos os países anunciaram que pela primeira vez um foguetão lançado da Terra acabava de pousar sobre a Lua. Eu escutava o Rádio Luxemburgo. O locutor deu a notícia e continuou para apresentar a emissão de variedades transmitida todos os domingos àquela hora e que se intitula Porta Aberta. . . Saí para o jardim para contemplar a Lua brilhante, o Mar de Serenidade sobre o qual repousavam desde há segundos os destroços do foguetão. O jardineiro também estava no jardim.
É tão belo como os Evangelhos, senhor.. . Ele concedia espontaneamente a verdadeira grandeza ao fato, colocava o acontecimento na sua dimensão. Sentia-me verdadeiramente próximo desse homem, de todos os homens simples que erguiam o rosto para o céu, naquele minuto, cheios de assombro, de uma imensa e confusa emoção. Feliz do homem que perde a cabeça, recuperá-la-á no céu! E ao mesmo tempo sentia-se extraordinariamente longe das pessoas do meu meio, de todos esses escritores, filósofos e artistas que se recusam a tais entusiasmos sob o pretexto de lucidez e de defesa do humanismo.
O meu amigo Jean Dutourd, por exemplo notável escritor apaixonado por Stendhal, dissera-me alguns dias antes: Continuemos sobre a Terra, não nos deixemos distrair com esses comboios elétricos para adultos. Outro amigo muito caro, Jean Giono, que eu fora visitar a Manosque, na Provença, contara-me que, ao passar por Colmar-les-Alpes, num domingo de manhã, vira o capitão do quartel e o padre a fazerem uma troca de amabilidades no átrio da igreja. Enquanto houver padres e capitães de quartéis que troquem amabilidades, haverá lugar neste mundo para a felicidade e estaremos melhor aqui do que na Lua. . .
Imagem: ... pois o olfato também abre as portas para a magia. autor desconhecido.
asmuitasfacesdeluka-luka.blogspot.com