sábado, 21 de fevereiro de 2009

Quatro séculos para resolver um crime



César Muñoz Acebes (Efe) Washington
Actualizado quarta-feira 18/02/2009 09:12 horas

Cerca de 1670 algo terrível ocorreu numa granja de Leavy Neck (EUA), algo que ficou oculto durante séculos, até que arqueólogos forenses descobriram os restos de um cadáver, e seus ossos denunciaram o assassino.

O mistério do jovem achado, coberto de lixo, no sótão dessa granja, é um dos relatos que conta a exposição 'Escrito nos ossos: Arquivos Forenses do século XVII na Baía de Chesapeake', que revelam como foi a vida dos primeiros colonos estado-unidenses, através dos seus esqueletos.

A exposição, recém inaugurada no Museu de Historia Natural de Washington, expõe a existência dura, curta e repleta de perigos de quem buscou a terra prometida, no outro lado do oceano Atlântico.

En Jamestown, a primeira colónia inglesa permanente, das 104 pessoas que chegaram em 1607, só restavam vivas nove meses depois 38, as restantes foram vítimas mortais da fome, das enfermidades e dos ataques dos índios.

Isso não impediu a chegada massiva de novos colonos, como o jovem de Leavy Neck, que é um exemplo do que tiveram que passar muitos deles.

O seu cadáver, encolhido num buraco pouco profundo, tinha um pedaço de recipiente em cima, cujo borde desgastado e com restos de terra, indica que alguém o usou para cavá-lo, segundo disse Douglas Owsley, um dos comissários da exposição. Os ossos do jovem, de uns 16 anos, demonstravam que havia realizado tarefas físicas duras, e seus dentes revelavam uma dieta insuficiente.

Tinha várias costelas quebradas e num braço uma fractura "defensiva", que supostamente sofreu ao proteger-se dos golpes de alguém. Ademais, pela composição química dos ossos, que reflecte a dieta, os antropólogos puderam estabelecer que estava na América há menos de um ano.

A historia de um servente

Com essas pistas Owsley e a sua equipa concluíram que se tratava de um servente "por contrato", um jovem que se comprometeu a trabalhar entre 4 a 7 anos de sol a sol na América, em troca da sua passajem de barco desde a Europa. Mais de 70% dos colonos vieram desse modo.

"Isto foi uma tumba clandestina, algo que lhes fugiu das mãos e o levou à sua morte, e não o enterraram debaixo de uma árvore, não o tornaram público", disse Owsley. Provavelmente não se tratou de um homicídio intencionado, porque os serventes eram uma propriedade de alto valor, segundo o arqueólogo.

O culpado devia ser o dono da granja nessa época que, segundo os documentos históricos, viveu ali com sua mulher, dois filhos e dois serventes. Nem o seu nome, nem o do morto se conhecem. Os ossos dizem muitas coisas, ainda que a identidade é difícil de estabelecer a partir de um esqueleto antes da época do ADN.

Prova disso são os restos de um jovem de Jamestown, encontrado com uma ponta de flecha no que foi a sua coxa. A possível morte às mãos dos índios, na realidade foi uma bênção, pois esse jovem sofria uma infecção horrível na boca que lhe corroeu o osso, dificultava-lhe comer e matava-o lentamente, segundo Karin Bruwelheide, a outra comissária da exposição.

Também estão expostos os ossos minúsculos de um bebé de uns 5 meses que morreu por falta de vitamina D, quer dizer, da luz do sol. Pela pressão sobre os ossos, os arqueólogos acreditam que os seus pais mantiveram-no enrolado com panos para que não passasse frio, o que impediu que recebesse luz.

Uma constante na exposição são as dentaduras horríveis, pela dieta europeia baseada em trigo e a outra em milho, mais inclinada às cáries.

Piorou as coisas o hábito generalizado de fumar tabaco, demonstrado até em meninos de 10 anos, pois o barro dos cachimbos dissolvia literalmente o esmalte dos dentes e esburacava-os.

Um biberão de chumbo

Outro hábito letal foi o uso do chumbo, que é um veneno. Na exposição há balas que os arqueólogos crêem que os soldados levavam na boca, assim como um biberão arrefecedor de chumbo.

Para o colombiano Cristián Samper, o director do Museu, um descobrimento surpreendente foi encontrar escravos enterrados junto aos colonos.

"As relações sociais entre estes grupos eram diferentes. Não eram tão hierárquicas. Estamos reinterpretando a historia", disse à Efe, Samper.

Revelações como esta ilustram a vida de pessoas comuns que nunca entraram nas crónicas heróicas da colonização, incluso o sofrimento de um jovem servente que morreu no esquecimento.

Traduzido do espanhol. In EL MUNDO
Foto: Fotografia do corpo do jovem assassinado no S. XVII. AP
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