segunda-feira, 2 de abril de 2012

Seremos Dominados Pelas Máquinas? PARTE 1 – O ROBÔ COMO AMEAÇA


Não foram poucas vezes em que fui interrompido durante uma de minhas palestras sobre IA (Inteligência Artificial) com esta pergunta polêmica:
– Será que um dia os seres humanos serão dominados pelas máquinas?
É evidente que este questionamento apresenta vários desdobramentos, incluindo o aspecto social do desaparecimento do emprego, como consequência da paulatina substituição do homem pela máquina, seja na lavoura na qual tratores e colheitadeiras competem com o trabalho manual ou na indústria onde a automação vem substituir as atividades pesadas e repetitivas.
No entanto, vamos começar nossa abordagem com algo bem mais sensacionalista e polêmico:
– O antigo e famigerado complexo de Frankenstein.
Todo mundo conhece esse clássico do terror fundamentado no argumento de que um dia a criatura há de se voltar contra o seu criador e então destruí-lo.
Numa versão mais atual, as máquinas – ou de mais específico valor – os robôs, poderiam repentinamente assumir o controle, decidindo sobre o futuro de uma humanidade completamente subjugada.
Aliás, é esse o argumento básico de muitos sucessos de público no cinema e na TV, tais como Matrix, Galactica, Exterminador do Futuro, etc.
Esse tema tão recorrente nas histórias de ficção científica geralmente apresenta o “robô-como-ameaça”, que segundo o criador do termo “robótica” o grande ficcionista Isaac Asimov, a coisa toda poderia ser resumida por algo do tipo “ clangue clangue” e “Ah!”.
Porém, mesmo sendo repetitivas e pouco imaginativas estas histórias que povoaram os primórdios da FC alimentam o imaginário de muitos defensores das teorias da conspiração e é um assunto também em pauta nas conversas de corredor dos seminários científicos ou encontros de tecnólogos. Geralmente sou abordado na hora do cafezinho e a conversa se desenrola de um jeito bem natural. Eu geralmente contraponho as teorias da dominação com o argumento de que a automação exerce um papel crucial na redução dos custos da produção e no aumento da segurança do trabalho e presta um auxílio inestimável na melhoria da qualidade de vida.
No entanto o teórico da conspiração insiste em sua visão. Vou apresentar aqui uma dessas conversas apenas para ilustrar:
Do radar ao matar
Quando um sistema automático de controle de velocidade tira fotos de um automóvel que ultrapassa a velocidade limite da pista, ele se pergunta se aquele “robô”, que não fez academia de polícia ou tampouco passou nos testes para ser agente de trânsito, tem a devida autoridade para multá-lo.
Tecnicamente o tal “radar” é um robô “primário”, ou seja, um simples sistema perceptivo dotado de servomecanismo.
Traduzindo: – apresenta sensores de velocidade acoplados a um dispositivo que aciona uma câmera fotográfica.
– Quem passa do limite é simplesmente fotografado.
Deixando de lado as questões legais que dariam um bom caso para advogados antenados (desculpem o trocadilho), o teórico da conspiração aborda pelo lado do puro terror. E assim me propõe esta reflexão:
– Imagine professor, se ao invés de acionar uma câmera fotográfica o tal servomecanismo acionasse uma metralhadora ou um lança chamas ou um lançador de mísseis?
– Sem dúvida, um bom argumento para um filme de FC (ou de terror) recheado de efeitos especiais – foi minha resposta.
Porém, de onde o sujeito tirou essa ideia?
Não é segredo que, mesmo em plena crise, o governo norte-americano (só pra citar um exemplo) tem investido milhões de dólares em sistemas automáticos para aplicação bélica. Sistemas de IA foram e estão sendo desenvolvidos para pilotar tanques, aviões e – sinta o arrepio na espinha – mísseis nucleares.
Evidentemente isso não se restringe apenas à política bélica norte-americana. Esse tipo de pesquisa tem avançado de forma acelerada no mundo inteiro.
Daí a paranoia!
Tenho um colega que ao discorrer sobre a aplicação bélica dos agentes inteligentes da IA preconiza:
“Cada vez que se produz uma máquina inteligente com a intenção de matar se pressupõe a hegemonia da estultice humana.”
Sintetizando – é a conjugação pós-moderna entre a inteligência artificial e a estupidez natural.
Mesmo neste cenário distópico é possível contrapor:
– As máquinas respondem aos programas. Se ela for programada para matar, quem de fato é o assassino é o seu programador. Ficamos bem longe do questionamento inicial. Não são as máquinas que dominam o homem. É ele que as utiliza como instrumento de eliminação, mesmo que isso não faça a menor diferença para a vítima sob a alça de mira de um robô bélico.
No entanto é só para isso que servem as máquinas inteligentes? Matar e dominar? Não somos servidos todos os dias de forma construtiva por recursos da IA? Desde os programas de busca na Internet, caixas eletrônicos e até robôs cirurgiões?
O que nos leva ao segundo e terceiro desdobramentos da nossa questão. Desdobramentos esses também criados por Asimov:
  • O robô-como-pathos: a máquina é apenas uma ferramenta que pode ser usada tanto para o bem quanto para o mal.
  • O robô como produto industrial regulamentado: uma ferramenta que responde não apenas à sua programação, mas que também cumpre rigorosas normas de segurança (aquelas que, por exemplo, o impeçam de ferir ou destruir sistematicamente seu criador).
Porém, isso é assunto para o nosso próximo encontro. Não percam!
[Foto por Bistrosvage]