sexta-feira, 1 de julho de 2011

O Despertar dos Mágicos (45). o Papa ergueu-se calmamente e proclamou que Isaac Edward Leibowitz seria de futuro um santo


Enquanto toda a confraria se regozijava, o Padre Abade muito velho, atualmente, e bastante gagá - mandou chamar Frei Francis.
Sua Santidade exige a sua presença por ocasião das festas que se vão realizar para a Canonização de Isaac Edward Leibowitz - cuspinhou ele. - Prepare-se para partir. E acrescentou num tom resmungão:
Se deseja desmaiar, vá fazê-lo para longe daqui!

Louis Pauwels e Jacques Bergier. DIFEL

A viagem do jovem monge até ao Novo Vaticano exigiria pelo menos três meses ¬talvez mesmo mais: tudo dependia da distância que pudesse percorrer antes que os inevitáveis salteadores de estrada o privassem do seu burro.
Partiu só e sem armas, munido apenas de uma gamela de mendigo. Apertava contra o coração a cópia iluminada do plano de Leibowitz e pedia a Deus, enquanto avançava, que não lho roubassem. . . É verdade que os ladrões eram pessoas ignorantes e não saberiam que destino lhe dar. . . Por precaução, apesar de tudo, o monge ostentava um pedaço de tecido negro sobre o olho direito. Os camponeses eram supersticiosos, de fato, e a simples ameaça de mau olhado bastava por vezes para os pôr em fuga.
Após dois meses e alguns dias de viagem, Frei Francis encontrou o seu gatuno, num atalho da montanha ladeado por espesso mato, longe de qualquer habitação. Era um homem baixo, mas visivelmente sólido como um boi. As pernas afastadas, os braços vigorosos cruzados sobre o peito, estava parado a meio do atalho, à espera do monge, que ia lentamente ao seu encontro, no passo vagaroso da sua montada... Parecia estar só e como arma apenas tinha uma faca que nem sequer retirou do cinto. O encontro causou grande desapontamento ao monge: de fato, no íntimo do seu coração, não cessara de acreditar que, ao longo do caminho, encontraria o peregrino de outrora.
- Alto! - ordenou o ladrão.
O burro parou por sua livre vontade. Frei Francis ergueu o capuz para mostrar a pala preta e dela aproximou lentamente a mão, como se se preparasse para revelar qualquer espetáculo horrível, dissimulado sob o tecido. Mas o homem, atirando a cabeça para trás, soltou um riso sinistro e verdadeiramente satânico.
O monge apressou-se a murmurar um exorcismo, com o qual o ladrão não pareceu impressionado.

- Há muitos anos que isso não pega - disse ele.Vamos, salta para o chão, e depressa!
Frei Francis encolheu os ombros, sorriu e desceu da montada sem protestar.
- Desejo-lhe muito boa tarde, senhor! - disse num tom amável. - Pode ficar com o burro, a caminhada far-me-á bem. E já se afastava, quando o ladrão lhe barrou o caminho.
- Espera! Despe-te todo, e mostra-me o que há dentro desse embrulho!

O monge mostrou-lhe a gamela, com um pequeno gesto de escusa, mas o outro começou a rir cada vez mais.
- O truque da pobreza. . . também já mo empregaram!afirmou ele à sua vítima em tom sarcástico -, mas o último pedinte que mandei parar tinha meio cheio de ouro na bota. . . Vamos, despe-te depressa!

Depois de o monge ter cumprido a ordem, o homem revistou-lhe as roupas, nada encontrou e voltou a entregar-lhas.

- Agora - continuou -, vejamos esse embrulho.
- É apenas um documento, senhor - protestou o frade -, um documento sem valor a não ser para o proprietário.
- Abre o embrulho, já te disse!

Frei Francis obedeceu sem uma palavra e as iluminuras do pergaminho em breve brilharam sob os raios solares. O gatuno deu um assobio admirativo.
- Bonito! A minha mulher é que vai ficar contente por poder pregar isto na parede da cabana!

A estas palavras, o pobre monge sentiu o coração parar e começou a murmurar uma silenciosa oração: Se tu mo enviaste para me pôr à prova, ó Senhor, suplicou com fervor, dá-me pelo menos a coragem de morrer como um homem, pois se está escrito que ele mo vai roubar, só o poderá tirar ao cadáver do seu indigno servo!
- Embrulha-me o objeto! - ordenou de súbito o ladrão, cuja decisão estava tomada.
- Por quem é, senhor - gemeu Frei Francis -; não quer decerto privar um pobre homem de um trabalho em que empenhou a vida inteira... Passei quinze anos a iluminar este manuscrito e...
- O quê? - interrompeu o gatuno. - Foste tu próprio que o fizeste? E começou a rir soltando berros.
-Não compreendo, senhor - retorquiu o monge, corando ligeiramente -, o que possa haver de divertido nisso. . .
- Quinze anos! -disse-lhe o homem entre dois acessos de hilaridade, quinze anos! E por que motivo, és capaz de me dizer? Por um pedaço de papel! Quinze anos... Ah! Pegando com ambas as mãos na folha iluminada preparou-se para a rasgar. Então Frei Francis deixou-se cair de joelhos a meio do atalho.
- Maria Santíssima! - exclamou. - Suplico-o, senhor, por amor de Deus!

O ladrão pareceu um pouco lisonjeado; atirando o pergaminho ao chão, perguntou em tom sarcástico:
- Estarias pronto a bater-te para defender o teu pedaço de papel.
- Se o deseja, senhor! Farei tudo o que quiser! Ambos se puseram em guarda. O monge benzeu-se precipitadamente invocando o Céu, recordando-se que a luta fora outrora um desporto autorizado pela divindade - depois lançou-se ao combate. . . três segundos depois jazia sobre as pedras pontiagudas que lhe martirizavam a espinha, meio sufocado por uma pequena montanha de músculos rijos.
- E pronto! - disse modestamente o ladrão, que se ergueu e pegou no pergaminho.
Mas o monge arrastava-se de joelhos, com as mãos postas, ensurdecendo-o com súplicas desesperadas.
- Credo! - escarneceu o ladrão. - Eras capaz de me beijar as botas, se eu to pedisse, para que te devolvesse a estampa! Como única resposta, Frei Francis agarrou-o de um salto e começou a beijar com fervor as botas do vencedor.

Era demais, mesmo para um refinado patife. Com uma praga, o gatuno atirou o manuscrito ao chão, saltou para cima do burro e desapareceu... Francis imediatamente caiu sobre o manuscrito e agarrou-o. Depois começou a saltitar atrás do homem pedindo em sua intenção todas as bênçãos do Céu e agradecendo ao Senhor ter criado malandrins tão desinteressados. . .
No entanto, assim que o ladrão e o burro desapareceram atrás das árvores, o monge perguntou a si próprio, com certa tristeza, por que motivo, de fato, consagrara quinze anos da sua vida àquele bocado de pergaminho. . . As palavras do gatuno ainda lhe soavam aos ouvidos: E por que motivo, és capaz de me dizer?... Sim, porquê, de fato, por que razão?
Frei Francis retomou o caminho, a pé, muito meditativo, a cabeça inclinada debaixo do capuz. . . Em certo momento veio-lhe mesmo a idéia de atirar o documento para o meio do mato e ali o deixar, à chuva. . . Mas o Padre Abade aprovara a sua decisão de o entregar às autoridades do Novo Vaticano, à maneira de presente. O monge refletiu que não podia lá chegar de mãos vazias, e continuou, tranquilamente, o seu caminho.
Chegara o momento. Perdido na imensa e majestosa basílica, Frei Francis abismava-se com a prestigiosa magia das cores e dos sons. Depois de invocarem o Espírito infalível, símbolo de toda a perfeição, ergueu-se um bispo -era Monsenhor Di Simone, reconheceu o monge, o advogado do santo - e adjurou S. Pedro a pronunciar-se, por intermédio de S.S. Leão XXII, ordenando ao mesmo tempo a toda a assistência que prestasse atenção às palavras solenes que iam ser pronunciadas.
Nessa altura, o Papa ergueu-se calmamente e proclamou que Isaac Edward Leibowitz seria de futuro um santo. Estava consumado. Dali em diante o obscuro técnico de outrora fazia parte da falange celestial. Frei Francis imediatamente dirigiu uma prece ao seu novo amo, enquanto o coro entoava o Te Deum.
Caminhando num passo vivo, o Sumo Pontífice, um momento depois, surgiu tão bruscamente na sala de audiência onde o fradinho aguardava que a surpresa cortou o fôlego a Frei Francis, privando-o um instante da palavra. Ajoelhou-se à pressa para beijar o anel do Pescador e receber a bênção, depois ergueu-se desajeitadamente, atrapalhado com o belo pergaminho iluminado que mantinha atrás das costas. Compreendendo o motivo da sua perturbação, o Papa teve um sorriso.